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sexta-feira, 12 de julho de 2013
No dia 1 de Agosto, vá para fora cá dentro
Anote isto: no dia 1 de Agosto, a distribuidora Lanterna de Pedra Filmes prepara-se para lançar nas salas portuguesas aquela que será, eventualmente (afinal, não vi todos os filmes que estrearam até agora), a primeira obra-prima de 2013: "The Innkeepers". Foram precisos dois anos de espera, mas cá está um acontecimento duplamente assinalável: estreia em Portugal o melhor filme de Ti West até agora e, pela primeira vez e muito simplesmente, um filme de um dos realizadores mais prodigiosos da actualidade. A minha análise ao filme data de Março de 2012, mas o meu entusiasmo em relação a este título está intacto, na realidade, revigora-se agora que sei que também o leitor poderá aderir a esta estada (na suspensão) do horror.
segunda-feira, 19 de março de 2012
The Innkeepers (2011) de Ti West (II)

A tese já tinha sido adiantada por Ti West em "The House of the Devil", mas aqui ele baralha ainda melhor os dados da fórmula e faz-nos interrogar sobre o mesmo, mas de outro modo: e se este filme de terror não é um filme de terror?, esta é a pergunta que ocupava mais de uma hora de filme em "The House of the Devil", mas, com "The Innkeepers", surge uma interrogação que West desenvolve em cima dessa: e se esta ideia de um filme-de-terror-que-não-se-parece-com-um-filme-de-terror constitui o terror que nos aflige a todos nós, espectadores que - como se reflectia, e bem, no debate da Década dos Zeros - procuram no cinema apenas a confirmação das suas expectativas em vez de se disporem a vê-las desafiadas? "The Innkeepers" acrescenta esta interrogação, na medida em que o terror age sobre 80% do filme como um dispositivo para o drama, isto é, recorrendo à origem grega da palavra dráma, o terror - a promessa do terror - é a força que faz as personagens agirem e reagirem no espaço, isto é, constituirem-se como personagens de corpo inteiro.
Ingmar Bergman já nos ensinou como o medo de algo - de uma chegada, de uma partida, de uma aparição, de uma doença súbita... - pode ser o dispositivo dramático ideal para "aproximar" as personagens e obrigá-las ao confronto consigo e entre si. Ti West percebe isso melhor do que ninguém, na realidade, não cai na esparrela que muitos realizadores do terror caem: não é o drama que é dispositivo de terror, mas o terror que deve ser dispositivo do drama, presença fantasmática que liga e religa as personagens entre si. Ou seja, a primeira grande fantasmagoria de "The Innkeepers" é, precisamente, não o terror a descoberto, mas, bem pelo contrário, a sua ausência ou, se quiserem, pondo a tónica no espectador, a quebra protocolar da sua omnipresença mais-do-que-patente.
Ti West alinha-se aqui com realizadores como Quentin Tarantino, que com "Death Proof", genial filme que não me canso de rememorar, ensaia a mesma hipótese - e estes são cinemas pensados a partir do "acto da escrita", a partir da folha em branco, são portanto "partos difíceis", como há muitos anos o realizador de "Pulp Fiction" ilustrou bem numa entrevista a Jon Stewart. Mas, regressando à grande hipótese deste(s) cinema(s), diria que o que co-move estes autores, writer directors de mão cheia, é o gosto pelo adiamento e o gosto pela repetição. Adiamento desse tal "preenchimento de expectativas", jogando na vertigem de uma eventual violação do protocolo que todo o espectador tradicional - e tradicionalista - estabelece a priori com o que vai ver. Repetição, isto é, circularidade da acção, imagem formada em Hawks, continuada em Carpenter e que em Tarantino, até mais do que Ti West, é quase que apenas in-corporada no acto da escrita. As personagens falam, divagam com palavras, passeiam "no vazio" do seu próprio discurso (aparentemente) estéril, e, com isso, pouco ou nada "adiantam" em matéria de plot - que plot, se isto é um naco de vida?
Portanto, Ti West está alinhado com os melhores no que diz respeito à disposição dramática do terror (nesta ordem) nas suas histórias potencialmente nada terríficas e, exactamente por isso, profundamente aterrorizadoras. Ele não constrói suspense, muito pelo contrário, ele reprime-o ao máximo, porquanto o suspense já está na cabeça do espectador, mais do que construído e desconstruído, antes da sessão começar. Não é preciso construir ou destruir o que construído ou destruído está. A solução está na terceira via: não em construir suspense, mas sim em construir outra coisa qualquer. A comédia no caso de "The Innkeepers" ou "os eighties como filme de época" em "The House of the Devil". O MacGuffin (também) está aí: enquanto estamos a ver uma coisa que não encaixa com as nossas expectativas mais imediatas, vemo-nos detidos a decifrar, afinal, até onde essa coisa nos vai levar... mas, sempre, com receio - no meu caso, perfeito êxtase - perante a hipótese de não irmos ter a lado nenhum.
Este divertidíssimo impasse - um jogo "em suspenso" sem regras claras - está presente, pelo menos, nestes dois filmes de Ti West - talvez "Trigger Man" também se mova por estes territórios, mas de modo menos óbvio. Ora, dir-me-ão que é precipitado começar já a catalogar Ti West de "grande cineasta da sua geração" ou outro tipo de etiquetagens fáceis de dizer, difíceis de sustentar... certo, mas uma coisa fundamental joga a favor dele: West escreve, monta e realiza os seus filmes. O que fez até hoje não pode, por isso, ser fruto de uma absoluta coincidência ou de uma conjugação feliz de circunstâncias. West é o directo responsável por tudo o que nos aparece à frente - um pouco como Tarantino, realizador de quem nunca ninguém duvidou o génio, mesmo quando só tinha feito "Reservoir Dogs".
Ora, por tudo isto, sinto-me pronto a "responder" ao Ricardo Lisboa do Breath Away, movido por aquilo que alguns qualificarão de "excesso de confiança": não, tudo isto não é "um feito maior que o homem que o fez", aliás, o homem, este realizador de nome suspeito, será capaz de nos surpreender ainda mais e melhor no futuro próximo. Repito ou digo pela primeira vez: isto não é futurologia, é pura convicção cinéfila. Aliás, é só por ela que escrevo o que escrevo aqui, neste espaço.
(Há pessoas que dizem que a cinefilia morreu, eu digo que o que está mais morto do que nunca é a convicção cinéfila no cinema. O Bazin teria vergonha de mais de 80% das coisas que se escrevem hoje sobre cinema, não tanto pela maior ou menor riqueza informativa ou variedade adjectiva do conteúdo, mas pela ausência total de convicção... O que é fixe é escrever-se sobre cinema sem se acreditar nele ou só se acreditando nele como "coisa morta", "coisa de museu" ou "de manual de filosofia". Por isso é que pessoas como Bénard da Costa fazem tanta tanta falta... o que diria ele sobre Ti West?)
domingo, 18 de março de 2012
The Innkeepers (2011) de Ti West (I)

Não me vou alongar - como devia... - nesta apreciação, até porque a impressão que o filme me deixou é qualquer coisa avassaladora, próxima da seguinte exclamação "de crítico", daquelas que se colam bem nos cartazes: "Ti West prova que é um dos maiores cineastas da sua geração" ou "Agora temos a certeza: Ti West veio para ficar!" ou... enfim, you name it.
De facto, este é um objecto muito raro no panorama actual do cinema norte-americano - ia escrever "de terror", mas voltei atrás porque comecei a pensar, confesso que com alguma irritação, em todos os pseudo-cinéfilos "academizados", cheios de preconceitos snobes, que vêem Tourneur ou Lang ou Sjostrom como quem bebe um Pinot Noir ou que falam de Hitchcock como se estivessem a recitar um poema de Rimbaud... a todos eles sugiro que comecem a prestar atenção àquilo que se faz HOJE, AGORA, invocando os mesmos conceitos cinematográficos. Olhe-se, então, HOJE E AGORA, para Ti West, que, com este filme, se afirma como um grande cineasta muito para lá dos limites do "cinema industrial de género" e muito para lá de muita coisa idolatrada pela elite snobe do cinema. Ponto final. Quer dizer, também não estamos no domínio "cult" do cinema de terror, ou melhor, de filmes de sustos e gore, aliás, com Ti West, nunca fomos levados para este território, mas se dúvidas houvesse, estas são exemplarmente desfeitas em "The Innkeepers".
West não se afirma aqui como um típico suspense builder, mas, antes, e muito inteligentemente - peso cada palavra para dizer, já agora, que não há cineasta hoje com mais balls e brains do que Ti West - , como alguém focado na dimensão dramatúrgica dos seus filmes híbridos, cada vez mais difíceis de etiquetar. Isto é, West investe tudo o que tem a ambientar o espectador ao espaço e às personagens, estas últimas tratadas com o rigor e a profundidade que reconhecemos mais facilmente em paragens que não as do género do terror. Ou seja, West acredita que, para se fazer um filme de terror - se calhar até mais: para se fazer UM filme -, o cineasta tem de se afirmar como um criador de personagens, tem de nos fazer "acreditar" nos seus gestos, no modo como cada uma delas age e reage no seu espaço, ou melhor, na maneira como elas "matam o tempo" - West não é chato, tem é o dom de transformar aqueles que são, para a maioria, "tempos mortos em cinema" em tempos de uma vivacidade fílmica extraordinária.
"The Innkeepers" começa naquilo que já é "um início à Ti West": não sabemos ao certo onde estamos, ou melhor, seguimos a apresentação dos sítios, das pessoas e das rotinas, mas não estamos cem por cento certos de que isto é, ou se venha a revelar..., um filme de terror. É que se fosse "apenas" isso, pensa o espectador, não passaríamos grande parte do filme a assistir, inebriados, a uma comédia, politica ou sociologicamente apimentada (A ghost story for the minimum wage, lê-se no cartaz), sobre dois jovens que trabalham num hotel decrépito, mais concretamente, uma rapariga luminosa e o seu amigo quirky que, pelas conversas amistosas que trocam entre si e com os poucos clientes, vão mostrando ter poucas ou nenhumas perspectivas de futuro, para a sua vida profissional ou até pessoal.
A solidão marca, desde logo, a narrativa de "The Innkeepers". A dupla de protagonistas é confrontada, várias vezes, com a sua frustrante - ainda que comoventemente benigna e honesta - existência, nem que seja, desde logo, porque os dois estão num emprego a prazo, num hotel que, em breve, dará lugar a um parque de estacionamento - e albergando, até lá, uma actriz has been, uma mãe e um filho em fuga de um pai qualquer, imaginamos, destemperado e, mais para o fim, um idoso que tem "ataques de nostalgia". Tudo é lúgubre, mesmo que da protagonista - que maravilhosa descoberta é Sara Paxton, já vos disse? - só emane jovialidade e uma beleza triste que nos faz, de novo o verbo..., "acreditar" nela - e ela reage sempre como nós reagiríamos e não como reagiria uma daquelas barbies americanas dos slasher movies mais convencionais, às quais desejamos o pior dos destinos nas mãos do Papão de serviço... Enfim, "The Innkeepers" faz da sua longuíssima, lentíssima, exposição, em jeito de "comédia social", com momentos de humor físico no limiar do slapstick finamente teatralizado - a cena do despejo do lixo é já antológica -, a grande matéria-prima do horror, um horror que - como em "The House of the Devil" - vem sempre "a seguir", quando menos se espera - ou quando já, por desistência, o espectador pensa que caiu redondo no "filme errado", no melhor dos "filmes errados".
Apesar disso, "The Innkeepers" não demora muito a encenar jump scares, alguns delirantes, porque perfeitamente MacGuffinianos - que assustam porque havia alguém que expressamente "não queria assustar"... O filme tem igualmente jogos de foras-de-campo que pertencem ao universo do (melhor) cinema de terror, certo, confirmo isso, mas também digo isto: enquanto cada um de nós é "todo ouvidos" (a utilização do som aqui dava outra crítica...) às histórias de assombrações ligadas àquele hotel, que dizem estar assombrado, enquanto tudo nos é "depositado" em doses pequenas, estamos entregues ao namoro pelas personagens e o nosso organismo, muito confuso, responde a elas não com "medo de morte", mas com risos abertos, respeitosos e compreensivos, provocados pela forma como estas ocupam o tempo. Afinal, elas estão ali para "matar o tempo" - o do hotel vazio, moribundo, e o nosso, espectadores-clientes de primeira classe, aqui, sublinho, de primeiríssima classe (what a ride!).
Mas, à medida que o tempo passa, o riso vai-se transformando em medo puro, medo nosso... pelas personagens, tudo para, no fim, o nosso coração, que já batia demasiado depressa, sair disparado do corpo, para ser endossado às nossas mãos trementes. Largará o espectador o seu próprio coração nos minutos finais? Essa é a pergunta que encerra esta obra-prima do cinema contemporâneo. Voltaremos a ela para nela nos (re)aprisionarmos, para nela nos deixarmos enganar de novo pelas mesmas mentiras doces.
(To be continued...)
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Filmes que (não) vou ver em sala (V): The Innkeepers
Não se deixem enganar pelo nome "gozão": Ti West é um realizador do caraças. Infelizmente, tivemos de recorrer a meios ilícitos para ver os excelentes "The House of the Devil" e "Trigger Man", já que estes não deram sinais de vida no mercado de distribuição e de edição nacionais - e assim se privam os portugueses de um dos mais promissores realizadores norte-americanos da actualidade.
"The Innkeepers" trará os condimentos de "The House of the Devil" - uma rapariga, numa casa, onde acontecem "coisas estranhas...". Isso percebe-se bem pelo trailer. O que não se perceberá bem por esta amostra é o ambiente lento, construído "camada a camada", que a câmara de West, realizador que conhece e domina muito bem os "tempos fílmicos", consegue imprimir nos seus filmes.
"The Innkeepers" trará os condimentos de "The House of the Devil" - uma rapariga, numa casa, onde acontecem "coisas estranhas...". Isso percebe-se bem pelo trailer. O que não se perceberá bem por esta amostra é o ambiente lento, construído "camada a camada", que a câmara de West, realizador que conhece e domina muito bem os "tempos fílmicos", consegue imprimir nos seus filmes.
Caras distribuidoras, assegurem-se, por favor, que isto me chegue aos olhos através das vossas salas. E já este ano!
Trailer de "The Innkeepers" de Ti West
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