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sábado, 22 de fevereiro de 2014
The Sacrament com novo poster e já com trailer
Apesar de provocar experimentações interessantes sobre a linguagem do medium cinematográfico, o found footage é um género fechado sobre si mesmo, que parece promover mais repetição inconsequente do que avanços substantivos da sua própria gramática. Quando se anuncia mais um destes títulos filmados com câmara nervosa, explorando a aleatoriedade (simulada) das imagens e promovendo a indagação voyeur, de reality show, da matéria que tem à frente, não ficamos propriamente em pulgas. Apesar do meu guilty pleasure por filmes deste género, tenho de assumir a predominância de objectos inúteis neste domínio.
Posto isto, repetindo algo que já escrevi aqui, de momento "The Sacrament" activa-me algumas resistências. Pelo que vejo do seu trailer, este é um tímido found footage film ao pé de outro projecto com a mão de Ti West, "V/H/S". Não sei o que é pior: assumir o género ou escondê-lo como coisa embaraçosa, mas… narrativamente necessária. Para se infiltrar no core de uma seita religiosa, West torna as suas personagens repórteres de televisão. Há uma confusão aparente entre "o directo" do horror e ir directo ao horror. Como sabemos, até pelo que a televisão nos mostra, ou melhor, até pela forma como a televisão nos mostra diariamente o horror, o "directo" não é condição sine qua non de maior contacto com uma determinada verdade. Tenho receio, pelo que vejo do trailer de "The Sacrament", que West tenha caído neste raciocínio básico e algo preguiçoso de associar "reportagem", found footage e verdade como traduções imediatas e necessárias entre si.
Olhando para "The House of the Devil" e "The Innkeepers", fica claro que a filiação de West é clássica e assim deve permanecer. Esta é a principal fonte de desconfiança que me provoca o trailer de "The Sacrament". Fora isso, vemos, a subirem à superfície, todos os elementos - os melhores elementos - do seu cinema: esta ideia de invadir um espaço ou uma comunidade tomada por actividades ocultas, senão mesmo paranormais, cola perfeitamente com as obras anteriores do realizador. O destaque dado ao "mestre" desta congregação ou seita poderá aproximar West de uma espécie de versão horrífica, ou ainda mais horrífica, de "There Will Be Blood" e "The Master", dois filmes de Paul Th. Anderson onde a religião funciona como sistema vicioso não de revelação mas de aniquilação dos espíritos. Esperemos que, por esta via, West prove ser "mestre do seu mundo" e não traia a minha crença no brilhantismo que lhe é inato.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Filmes que (não) vou ver em sala (VIII): The Sacrament
A distribuição de "The Innkeepers" não desmentiu a minha previsão de ou não conseguir ver o filme em sala ou de o conseguir ver apenas em contexto de festival. Isto porque a distribuição que a Lanterna de Pedra fez do filme sofreu de uma limitação geográfica de modo algum benéfica à sua projecção em todo o país. O impacto na imprensa nacional foi também quase nulo, merecendo, contudo, uma ou outra crítica de circunstância que não entendeu a dimensão profundamente inovadora deste filme de Ti West, entre o burlesco e o filme de assombrações, entre a sátira social e a comédia romântica verborreica. Em termos simples, este ano não houve ainda obra mais brilhante a estrear nas salas comerciais.
Posto isto, adivinha-se um destino semelhante para "The Sacrament", a mais recente obra escrita e realizada - esperamos que "realizada pela escrita" - de Ti West. Já estão online algumas reacções ao filme, que dão a entender que se mantém a muito gradual construção de atmosferas que tornou "The House of the Devil" e "The Innkeepers" engenhosos teasings de horror. Uma nota de apreensão prende-se com o uso do dispositivo do found footage na primeira metade do filme, levando alguns reviewers a verem em "The Sacrament" uma extensão de "V/H/S", empreitada para qual Ti West contribuiu com o melhor episódio da série (incluo aqui já a sequela). Na realidade, aponta-se o episódio ultrajantemente divertido de Gareth Evans, em "V/H/S 2", como a obra mais próxima, penso/espero que mais temática do que formalmente, deste "The Sacrament". De qualquer modo, registo com agrado as queixas de "lentidão" nos primeiros minutos, mas com alguma apreensão o uso do estilo rough, pseudo-documental, do found footage. Parece-me que West, mesmo não sendo um magistral cineasta de câmara - é mais na construção pela escrita que se destaca -, dificilmente ganhará muito em aprofundar este subgénero hoje quase exaurido nas suas possibilidades.
A participação da trupe do costume, como os actores (também realizador) Joe Swanberg e AJ Bowen - vimo-los recentemente, no MOTELx, em "You're Next" -, garante um trabalho de luxo desenvolvido entre amigos. Sacramental.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
No dia 1 de Agosto, vá para fora cá dentro
Anote isto: no dia 1 de Agosto, a distribuidora Lanterna de Pedra Filmes prepara-se para lançar nas salas portuguesas aquela que será, eventualmente (afinal, não vi todos os filmes que estrearam até agora), a primeira obra-prima de 2013: "The Innkeepers". Foram precisos dois anos de espera, mas cá está um acontecimento duplamente assinalável: estreia em Portugal o melhor filme de Ti West até agora e, pela primeira vez e muito simplesmente, um filme de um dos realizadores mais prodigiosos da actualidade. A minha análise ao filme data de Março de 2012, mas o meu entusiasmo em relação a este título está intacto, na realidade, revigora-se agora que sei que também o leitor poderá aderir a esta estada (na suspensão) do horror.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty: 2.ª Edição
A todos os "treinadores de bancada" da cinéfilia portuguesa, venho comunicar-vos que está de volta o grande evento cinéfilo-desportivo da blogosfera internacional: o torneio interblogues A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty. Já pode deixar de lamentar não ter podido participar na primeira edição e jogar contra temíveis "dream teams" treinadas com os métodos mais científicos.
As regras eram mínimas na primeira edição, não deixarão de o ser agora, mas com pequenas nuances com vista a "actualizar" o espírito da competição. Posto isto - e agora que está aberta a fase de inscrições - deverão ter em mente o seguinte:
1. Só poderão escolher jogadores/autores que estejam em actividade no dia de hoje. Não valem autores que, estando vivos, não realizaram qualquer filme nos últimos 5 a 10 anos.
2. Deverão escolher os jogadores/autores que sejam representativos da "política desportiva" dos clubes que administram, leia-se, dos vossos blogues cinéfilos.
3. Cada escolha deverá ser justificada, em textos curtos, quanto à escolha em si mesma e/ou à posição do jogador no campo.
4. Não deverão repetir jogadores já escolhidos por outros concorrentes. Caso não consigam evitar escolher jogadores já seleccionados por outro treinador, então deverão colocá-lo noutra área do campo, fundamentando devidamente esta medida de excepção.
5. Deverão publicar nos vossos espaços a imagem da vossa equipa ideal, bem como os futuros embates com as outras equipas, tal como é estabelecido aqui no CINEdrio, o campeão do último A Angústia do Blogger Cinéfilo....
6. Como aconteceu na primeira edição, o vencedor deste torneio terá de arcar com a organização da próxima edição, em moldes a discutir com a casa-mãe do CINEdrio.
Seis pontos apenas separam-no de entrar na arena de todos os sonhos.
Entretanto, a título exemplificativo, e usufruindo do título de campeão da última edição, avanço já para a publicação da equipa do CINEdrio FC que irá alinhar neste torneio:
Guarda-redes: James Benning. Continua a ser o guardião inexpugnável das redes do CINEdrio FC. Imperturbável, paciente e muito concentrado nas decorrências de cada jogo, Benning é um guarda-redes de grande equipa.
Defesa esquerdo: John Carpenter. Desde o último torneio, Carpenter tornou-se ainda mais num jogador moderno, fazendo - como Fábio Coentrão - todo o corredor esquerdo. Marcou alguns golos na fase de preparação, em jogos realizados à porta fechada. Ainda assim, não se sabe se conseguirá retomar a excelente forma física do último torneio.
Defesa centro (esquerdo): James Gray. É meticuloso, não inventa, joga maravilhosamente dentro das limitações físicas que tem. É novo, mas parece um veterano a jogar: não falha passes, é bom a fazer cortes por antecipação, mas também não prima pela velocidade e virtuosismo técnico. Tacticamente perfeito, no entanto.
Defesa centro (direito): Clint Eastwood. Porque ainda está activo - e bem activo - resolvi mantê-lo no centro da defesa. É uma aposta de risco desde o episódio em que terá visto "um jogador invisível" infiltrar-se na grande área. A sua aparente fé no paranormal tem sido motivo de alguma dúvida - e alguma chacota - no balneário. Contudo, ainda tem "créditos de capitão".
Defesa direito: William Friedkin. Jogador que percebe muito bem a engrenagem colectiva, mas que (paradoxalmente) não prima sempre pela segurança. Aventura-se muito em espaços avançados ou recuados, sendo pouco constante em termos tácticos, mas é virtuoso e até empolgante quando está inspirado.
Médio defensivo: Ti West. É o box-to-box da equipa, aguenta magistralmente a bola a meio campo, raramente falhando o passe que balanceia a equipa para o ataque. Primoroso à defesa, West é o paradigma do jogador que parece uma coisa mas é outra - e quando se revela como é, tem o poder de deixar os adversários banzados com a precisão do seu jogo.
Médio esquerdo: Gus Van Sant. Jogador veloz e tecnicista, mas sempre solidário com a equipa. Perfeito no último passe e driblador nato mesmo sob pressão do adversário. Com ele, o jogo jogado flui em todo o campo.
Médio centro: Terrence Malick. Um criativo inexcedível que inventa soluções a meio campo que resolvem jogos. Tem um jogo aéreo melhor que a maioria dos jogadores que ocupam o seu lugar no campo. Quase invisível no campo, é o elo de união da equipa no balneário, amigo e confidente de todos os jogadores.
Médio direito: M. Night Shyamalan. É um risco pô-lo na equipa titular, mas se estiver no topo de forma pode fazer coisas que ninguém ousa fazer - e bem feitas! Exemplo disso foi aquele jogo - também realizado à porta fechada - em que marcou um golo a partir do meio campo, sempre a dar toques e com a cabeça!, sem que a bola tivesse tocado no chão.
Avançado (esquerdo): Jean-Luc Godard. É imprevisível, inconstante, mas na maior parte das vezes genial. Projecta-se no espaço vazio como ninguém: ele entra na grande área e posiciona-se onde os defesas adversários não se lembram de estar. Aparece para finalizar quando ninguém dava por ele. A idade pesa-lhe, mas não se fie muito nela...
Ponta-de-lança: Quentin Tarantino. De cabeça, de calcanhar, em exímios pontapés-de-bicicleta, Tarantino marca de todas as formas e feitios. É matreiro o suficiente para grandes simulações na grande área para provocar o penalty decisivo ou para grandes teatros, quando a equipa está vencer, para queimar o tempo que falta. Faz tudo para levar a sua equipa à vitória, mas na realidade só pensa numa coisa: a baliza. É muito polémico: um dia disse que preferia ser o melhor marcador do torneio do que ver a sua equipa ganhar.
Treinador: Sam Fuller*. Aqui não há "manáger" a dizer ao treinador o que deve fazer ou deixar de fazer... Fuller é o homem. Com preferência por "treinos sem bola" que transformam o campo de futebol num campo de batalha, o "big red one" (como é conhecido) lidera esta equipa com pulso forte. Se o outro pede "tranquilidade", este pede "acção!".
Aqui está o CINEdrio FC. Agora é a sua vez de ser mister e avançar com a "equipa de sonho" do seu blogue/site. Faça-o deixando na caixa de comentários deste post a sua selecção, com a devida fundamentação das suas escolhas (porque isto não é a selecção nacional de futebol). A sua equipa será publicada aqui e incluída depois no sorteio.
* - adenda desde este post, onde estabeleci: "para além dos jogadores, poderão, a título facultativo, indicar o treinador (que não terá de ser um "autor no activo") com o perfil mais indicado para pôr as vossos galácticos na ordem."
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Afinal, vou mesmo ver em sala...
Boa notícia. Não é ainda "a estreia comercial de um Ti West em Portugal", mas é a estreia do mais recente Ti West no próximo festival de horror de Lisboa MOTELx. Passará no dia 15 de Setembro (sábado), às 00:00, na sala 3 do mítico São Jorge. Imperdível, quase tanto quanto o resto dos filmes em cartaz neste excelente festival de cinema.
sábado, 21 de julho de 2012
Filmes que (não) vou ver em sala (VI): V/H/S
Dos filmes que antecipei provavelmente não ir ver em sala, apenas dois chegaram a ter distribuição comercial no nosso país: "Bal" e "O Ilusionista". Dos restantes, só guardo uma réstia de esperança em relação a "The Innkeepers", obra-prima de Ti West que foi mostrada no festival Syfy Fest. No entanto, persiste este dado pouco animador no que à política de distribuição nacional de cinema diz respeito: Ti West ainda não mereceu qualquer estreia em sala no nosso país. Nem mesmo o justamente aclamado "The House of the Devil" teve essa "chance" no nosso mercado, em sala ou, imagine-se!, sequer em DVD!
Por isso, antecipo o filme colectivo "V/H/S" nesta rubrica, filme de terror que parte de uma premissa que me é cara: a procura de um filme...em VHS. Lembram-se de "Cigarette Burns"? Sim? Então agora ponham-no em modo "home cinema". A sinopse dita o seguinte: um grupo de criminosos tem em mãos o trabalho aparentemente muito fácil de encontrar uma cassete vídeo numa casa abandonada. Quando entram nessa casa, apercebem-se que pela frente terão horas e mais horas de visionamento de cassetes até conseguirem encontrar (se encontrarem...) a pretendida.
O filme desdobra-se naquilo que os protagonistas vão vendo: uma sucessão de episódios estranhos que competem entre si em matéria de horror. Entre a equipa de 9 realizadores que filmam "V/H/S", sendo que quatro (autodenominados Radio Silence) trabalham em conjunto tal como Joe Swanberg e Adam Wingard, conta-se o nome no qual se concentram todas as atenções: Ti West, claro está.
Será que esta "V/H/S" passará nas nossas salas? Estou céptico, caros leitores.
Por isso, antecipo o filme colectivo "V/H/S" nesta rubrica, filme de terror que parte de uma premissa que me é cara: a procura de um filme...em VHS. Lembram-se de "Cigarette Burns"? Sim? Então agora ponham-no em modo "home cinema". A sinopse dita o seguinte: um grupo de criminosos tem em mãos o trabalho aparentemente muito fácil de encontrar uma cassete vídeo numa casa abandonada. Quando entram nessa casa, apercebem-se que pela frente terão horas e mais horas de visionamento de cassetes até conseguirem encontrar (se encontrarem...) a pretendida.
O filme desdobra-se naquilo que os protagonistas vão vendo: uma sucessão de episódios estranhos que competem entre si em matéria de horror. Entre a equipa de 9 realizadores que filmam "V/H/S", sendo que quatro (autodenominados Radio Silence) trabalham em conjunto tal como Joe Swanberg e Adam Wingard, conta-se o nome no qual se concentram todas as atenções: Ti West, claro está.
Será que esta "V/H/S" passará nas nossas salas? Estou céptico, caros leitores.
Trailer de "V/H/S" de Joe Swanberg, Adam Wingard, Radio Silence, Glenn McQuaid, David Bruckner e Ti West
segunda-feira, 19 de março de 2012
The Innkeepers (2011) de Ti West (II)

A tese já tinha sido adiantada por Ti West em "The House of the Devil", mas aqui ele baralha ainda melhor os dados da fórmula e faz-nos interrogar sobre o mesmo, mas de outro modo: e se este filme de terror não é um filme de terror?, esta é a pergunta que ocupava mais de uma hora de filme em "The House of the Devil", mas, com "The Innkeepers", surge uma interrogação que West desenvolve em cima dessa: e se esta ideia de um filme-de-terror-que-não-se-parece-com-um-filme-de-terror constitui o terror que nos aflige a todos nós, espectadores que - como se reflectia, e bem, no debate da Década dos Zeros - procuram no cinema apenas a confirmação das suas expectativas em vez de se disporem a vê-las desafiadas? "The Innkeepers" acrescenta esta interrogação, na medida em que o terror age sobre 80% do filme como um dispositivo para o drama, isto é, recorrendo à origem grega da palavra dráma, o terror - a promessa do terror - é a força que faz as personagens agirem e reagirem no espaço, isto é, constituirem-se como personagens de corpo inteiro.
Ingmar Bergman já nos ensinou como o medo de algo - de uma chegada, de uma partida, de uma aparição, de uma doença súbita... - pode ser o dispositivo dramático ideal para "aproximar" as personagens e obrigá-las ao confronto consigo e entre si. Ti West percebe isso melhor do que ninguém, na realidade, não cai na esparrela que muitos realizadores do terror caem: não é o drama que é dispositivo de terror, mas o terror que deve ser dispositivo do drama, presença fantasmática que liga e religa as personagens entre si. Ou seja, a primeira grande fantasmagoria de "The Innkeepers" é, precisamente, não o terror a descoberto, mas, bem pelo contrário, a sua ausência ou, se quiserem, pondo a tónica no espectador, a quebra protocolar da sua omnipresença mais-do-que-patente.
Ti West alinha-se aqui com realizadores como Quentin Tarantino, que com "Death Proof", genial filme que não me canso de rememorar, ensaia a mesma hipótese - e estes são cinemas pensados a partir do "acto da escrita", a partir da folha em branco, são portanto "partos difíceis", como há muitos anos o realizador de "Pulp Fiction" ilustrou bem numa entrevista a Jon Stewart. Mas, regressando à grande hipótese deste(s) cinema(s), diria que o que co-move estes autores, writer directors de mão cheia, é o gosto pelo adiamento e o gosto pela repetição. Adiamento desse tal "preenchimento de expectativas", jogando na vertigem de uma eventual violação do protocolo que todo o espectador tradicional - e tradicionalista - estabelece a priori com o que vai ver. Repetição, isto é, circularidade da acção, imagem formada em Hawks, continuada em Carpenter e que em Tarantino, até mais do que Ti West, é quase que apenas in-corporada no acto da escrita. As personagens falam, divagam com palavras, passeiam "no vazio" do seu próprio discurso (aparentemente) estéril, e, com isso, pouco ou nada "adiantam" em matéria de plot - que plot, se isto é um naco de vida?
Portanto, Ti West está alinhado com os melhores no que diz respeito à disposição dramática do terror (nesta ordem) nas suas histórias potencialmente nada terríficas e, exactamente por isso, profundamente aterrorizadoras. Ele não constrói suspense, muito pelo contrário, ele reprime-o ao máximo, porquanto o suspense já está na cabeça do espectador, mais do que construído e desconstruído, antes da sessão começar. Não é preciso construir ou destruir o que construído ou destruído está. A solução está na terceira via: não em construir suspense, mas sim em construir outra coisa qualquer. A comédia no caso de "The Innkeepers" ou "os eighties como filme de época" em "The House of the Devil". O MacGuffin (também) está aí: enquanto estamos a ver uma coisa que não encaixa com as nossas expectativas mais imediatas, vemo-nos detidos a decifrar, afinal, até onde essa coisa nos vai levar... mas, sempre, com receio - no meu caso, perfeito êxtase - perante a hipótese de não irmos ter a lado nenhum.
Este divertidíssimo impasse - um jogo "em suspenso" sem regras claras - está presente, pelo menos, nestes dois filmes de Ti West - talvez "Trigger Man" também se mova por estes territórios, mas de modo menos óbvio. Ora, dir-me-ão que é precipitado começar já a catalogar Ti West de "grande cineasta da sua geração" ou outro tipo de etiquetagens fáceis de dizer, difíceis de sustentar... certo, mas uma coisa fundamental joga a favor dele: West escreve, monta e realiza os seus filmes. O que fez até hoje não pode, por isso, ser fruto de uma absoluta coincidência ou de uma conjugação feliz de circunstâncias. West é o directo responsável por tudo o que nos aparece à frente - um pouco como Tarantino, realizador de quem nunca ninguém duvidou o génio, mesmo quando só tinha feito "Reservoir Dogs".
Ora, por tudo isto, sinto-me pronto a "responder" ao Ricardo Lisboa do Breath Away, movido por aquilo que alguns qualificarão de "excesso de confiança": não, tudo isto não é "um feito maior que o homem que o fez", aliás, o homem, este realizador de nome suspeito, será capaz de nos surpreender ainda mais e melhor no futuro próximo. Repito ou digo pela primeira vez: isto não é futurologia, é pura convicção cinéfila. Aliás, é só por ela que escrevo o que escrevo aqui, neste espaço.
(Há pessoas que dizem que a cinefilia morreu, eu digo que o que está mais morto do que nunca é a convicção cinéfila no cinema. O Bazin teria vergonha de mais de 80% das coisas que se escrevem hoje sobre cinema, não tanto pela maior ou menor riqueza informativa ou variedade adjectiva do conteúdo, mas pela ausência total de convicção... O que é fixe é escrever-se sobre cinema sem se acreditar nele ou só se acreditando nele como "coisa morta", "coisa de museu" ou "de manual de filosofia". Por isso é que pessoas como Bénard da Costa fazem tanta tanta falta... o que diria ele sobre Ti West?)
domingo, 18 de março de 2012
The Innkeepers (2011) de Ti West (I)

Não me vou alongar - como devia... - nesta apreciação, até porque a impressão que o filme me deixou é qualquer coisa avassaladora, próxima da seguinte exclamação "de crítico", daquelas que se colam bem nos cartazes: "Ti West prova que é um dos maiores cineastas da sua geração" ou "Agora temos a certeza: Ti West veio para ficar!" ou... enfim, you name it.
De facto, este é um objecto muito raro no panorama actual do cinema norte-americano - ia escrever "de terror", mas voltei atrás porque comecei a pensar, confesso que com alguma irritação, em todos os pseudo-cinéfilos "academizados", cheios de preconceitos snobes, que vêem Tourneur ou Lang ou Sjostrom como quem bebe um Pinot Noir ou que falam de Hitchcock como se estivessem a recitar um poema de Rimbaud... a todos eles sugiro que comecem a prestar atenção àquilo que se faz HOJE, AGORA, invocando os mesmos conceitos cinematográficos. Olhe-se, então, HOJE E AGORA, para Ti West, que, com este filme, se afirma como um grande cineasta muito para lá dos limites do "cinema industrial de género" e muito para lá de muita coisa idolatrada pela elite snobe do cinema. Ponto final. Quer dizer, também não estamos no domínio "cult" do cinema de terror, ou melhor, de filmes de sustos e gore, aliás, com Ti West, nunca fomos levados para este território, mas se dúvidas houvesse, estas são exemplarmente desfeitas em "The Innkeepers".
West não se afirma aqui como um típico suspense builder, mas, antes, e muito inteligentemente - peso cada palavra para dizer, já agora, que não há cineasta hoje com mais balls e brains do que Ti West - , como alguém focado na dimensão dramatúrgica dos seus filmes híbridos, cada vez mais difíceis de etiquetar. Isto é, West investe tudo o que tem a ambientar o espectador ao espaço e às personagens, estas últimas tratadas com o rigor e a profundidade que reconhecemos mais facilmente em paragens que não as do género do terror. Ou seja, West acredita que, para se fazer um filme de terror - se calhar até mais: para se fazer UM filme -, o cineasta tem de se afirmar como um criador de personagens, tem de nos fazer "acreditar" nos seus gestos, no modo como cada uma delas age e reage no seu espaço, ou melhor, na maneira como elas "matam o tempo" - West não é chato, tem é o dom de transformar aqueles que são, para a maioria, "tempos mortos em cinema" em tempos de uma vivacidade fílmica extraordinária.
"The Innkeepers" começa naquilo que já é "um início à Ti West": não sabemos ao certo onde estamos, ou melhor, seguimos a apresentação dos sítios, das pessoas e das rotinas, mas não estamos cem por cento certos de que isto é, ou se venha a revelar..., um filme de terror. É que se fosse "apenas" isso, pensa o espectador, não passaríamos grande parte do filme a assistir, inebriados, a uma comédia, politica ou sociologicamente apimentada (A ghost story for the minimum wage, lê-se no cartaz), sobre dois jovens que trabalham num hotel decrépito, mais concretamente, uma rapariga luminosa e o seu amigo quirky que, pelas conversas amistosas que trocam entre si e com os poucos clientes, vão mostrando ter poucas ou nenhumas perspectivas de futuro, para a sua vida profissional ou até pessoal.
A solidão marca, desde logo, a narrativa de "The Innkeepers". A dupla de protagonistas é confrontada, várias vezes, com a sua frustrante - ainda que comoventemente benigna e honesta - existência, nem que seja, desde logo, porque os dois estão num emprego a prazo, num hotel que, em breve, dará lugar a um parque de estacionamento - e albergando, até lá, uma actriz has been, uma mãe e um filho em fuga de um pai qualquer, imaginamos, destemperado e, mais para o fim, um idoso que tem "ataques de nostalgia". Tudo é lúgubre, mesmo que da protagonista - que maravilhosa descoberta é Sara Paxton, já vos disse? - só emane jovialidade e uma beleza triste que nos faz, de novo o verbo..., "acreditar" nela - e ela reage sempre como nós reagiríamos e não como reagiria uma daquelas barbies americanas dos slasher movies mais convencionais, às quais desejamos o pior dos destinos nas mãos do Papão de serviço... Enfim, "The Innkeepers" faz da sua longuíssima, lentíssima, exposição, em jeito de "comédia social", com momentos de humor físico no limiar do slapstick finamente teatralizado - a cena do despejo do lixo é já antológica -, a grande matéria-prima do horror, um horror que - como em "The House of the Devil" - vem sempre "a seguir", quando menos se espera - ou quando já, por desistência, o espectador pensa que caiu redondo no "filme errado", no melhor dos "filmes errados".
Apesar disso, "The Innkeepers" não demora muito a encenar jump scares, alguns delirantes, porque perfeitamente MacGuffinianos - que assustam porque havia alguém que expressamente "não queria assustar"... O filme tem igualmente jogos de foras-de-campo que pertencem ao universo do (melhor) cinema de terror, certo, confirmo isso, mas também digo isto: enquanto cada um de nós é "todo ouvidos" (a utilização do som aqui dava outra crítica...) às histórias de assombrações ligadas àquele hotel, que dizem estar assombrado, enquanto tudo nos é "depositado" em doses pequenas, estamos entregues ao namoro pelas personagens e o nosso organismo, muito confuso, responde a elas não com "medo de morte", mas com risos abertos, respeitosos e compreensivos, provocados pela forma como estas ocupam o tempo. Afinal, elas estão ali para "matar o tempo" - o do hotel vazio, moribundo, e o nosso, espectadores-clientes de primeira classe, aqui, sublinho, de primeiríssima classe (what a ride!).
Mas, à medida que o tempo passa, o riso vai-se transformando em medo puro, medo nosso... pelas personagens, tudo para, no fim, o nosso coração, que já batia demasiado depressa, sair disparado do corpo, para ser endossado às nossas mãos trementes. Largará o espectador o seu próprio coração nos minutos finais? Essa é a pergunta que encerra esta obra-prima do cinema contemporâneo. Voltaremos a ela para nela nos (re)aprisionarmos, para nela nos deixarmos enganar de novo pelas mesmas mentiras doces.
(To be continued...)
sexta-feira, 16 de março de 2012
Afinal, vou mesmo ver em sala...

Amanhã, às 19h30, será mostrado, pela primeira vez, e provavelmente pela última vez em Portugal, o mais recente filme de Ti West, "The Innkeepers", obra que já antecipei aqui, com poucas ou nenhumas expectativas de o poder ver no grande ecrã. É uma grande notícia, que nos chega com a chancela do festival de ficção científica e terror Syfy Fest, que de hoje a domingo, ocupa o mítico São Jorge.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Filmes que (não) vou ver em sala (V): The Innkeepers
Não se deixem enganar pelo nome "gozão": Ti West é um realizador do caraças. Infelizmente, tivemos de recorrer a meios ilícitos para ver os excelentes "The House of the Devil" e "Trigger Man", já que estes não deram sinais de vida no mercado de distribuição e de edição nacionais - e assim se privam os portugueses de um dos mais promissores realizadores norte-americanos da actualidade.
"The Innkeepers" trará os condimentos de "The House of the Devil" - uma rapariga, numa casa, onde acontecem "coisas estranhas...". Isso percebe-se bem pelo trailer. O que não se perceberá bem por esta amostra é o ambiente lento, construído "camada a camada", que a câmara de West, realizador que conhece e domina muito bem os "tempos fílmicos", consegue imprimir nos seus filmes.
"The Innkeepers" trará os condimentos de "The House of the Devil" - uma rapariga, numa casa, onde acontecem "coisas estranhas...". Isso percebe-se bem pelo trailer. O que não se perceberá bem por esta amostra é o ambiente lento, construído "camada a camada", que a câmara de West, realizador que conhece e domina muito bem os "tempos fílmicos", consegue imprimir nos seus filmes.
Caras distribuidoras, assegurem-se, por favor, que isto me chegue aos olhos através das vossas salas. E já este ano!
Trailer de "The Innkeepers" de Ti West
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Para lá do limiar em que o caçador vira caçado
Rafi Pitts, "The Hunter" (2010)
Era uma vez um velho homem que havia criado nove filhos, carne da sua carne, nove belos e vigorosos rapazes, a quem nunca ensinou nenhum ofício; eles nada sabiam de semear, nem de ceifar, nem de como criar cavalos ou pastar rebanhos. Apenas lhes ensinou a vaguear por montes e vales em busca do nobre cervo. Um dia, tendo percorrido a floresta toda em redor perseguindo a caça, os nove irmãos tanto tempo erraram, caçaram durante tanto tempo que acabaram por chegar a uma ponte assombrada, por onde cervos prodigiosos haviam passado. Tão insensatamente seguiram a sua pista, que se viram perdidos nas fundas sombras da floresta, transformados em cervos, nove belos cervos. (...)
Maria Filomena Molder, Semear na Neve, Relógio D'Água, 1999, pp. 58-59
In CINEdrio, crítica a "Trigger Man" de Ti West
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Trigger Man (2007) de Ti West
Depois de "The House of the Devil", vejo o filme que Ti West realizou dois anos antes. Falo do pouco conhecido "Trigger Man", obra de terror minimal sobre a típica situação quase parabólica em que o caçador se torna caçado - certo? Nem por isso.
Neste filme de ritmo lento - já é uma marca autoral de Ti West? -, sem medo de ser quase quase quase quase chato, o espectador é confrontado violentamente com o único ensinamento sobre caça que uma das personagens transmite às demais: para caçar é preciso paciência. Pois bem, a paciência aqui combate a vontade de matar. West prolonga a dissipação/descarga de tensão mais do que qualquer outro cineasta; ele sabe entender o terror, o "bom terror", como gestão audaciosa, quase cínica, dos "tempos mortos". Na realidade, "Trigger Man" vai mais longe que o brilhante "The House of the Devil" nesta matéria, porquanto o grande desafio aqui é: como transformar os "tempos mortos" em "tempos de morte", em que se pressente até ao infinito uma espécie de ameaça aguda que, a qualquer momento, irá atravessar os corpos estejam eles onde estiverem - para o caso, através de uma bala furtiva vinda de... não se sabe onde.
Portanto, vemos "tempos mortos" tornarem-se "tempos de morte" e, por outro lado, a omnipresença de uma ameaça "sem rosto" - puramente "conceptual", isto é, quase apenas uma "ideia de mal" - a sublimar-se num clima de tensão a tender para uma placidez, um vazio..., paradoxal. Porque Ti West não corta onde os outros cortam; ele encara de frente, em timings completamente diferentes do cinema típico de horror, a passagem do tempo e faz das deambulações das personagens no espaço (na floresta, numa casa misteriosa, onde quer que seja) uma espécie de imagem perfeita deste complexo: mobilidade no finito como metáfora para o horror sem fim, "inescapável". Tornar podre um ambiente de tensão, torná-lo quase "insensível" à personagem, é o desafio que Ti West coloca a si mesmo, a nós e, enfim, ao protagonista, nas suas deambulações pelo espaço, apalpando o terreno em busca do seu caçador invisível - um caçador procura outro caçador.... isto é, "não há presas" nesta caça, verdadeiramente...
(Um parêntesis: imaginei que Brillante Mendoza teria visto "Trigger Man" e gostado tanto que fez, num dispositivo formal mais ou menos semelhante, "Kinatay" - é que talvez haja a mesma "devoração de tempos mortos" em ambos.)
Ti West, de câmara nervosa, em modo "mira", volta a mostrar que é um cineasta que pensa o cinema de horror como espaço singular de experimentação, enfim, espaço onde se pode filmar o nada ou o quase nada com a liberdade de uma criança infernal. Junta-se, assim, Ti West a nomes como Bryan Bertino e, num registo mais "clássico", Greg Mclean, naquele que é o grupo de jovens realizadores mais promissor na cena do terror contemporâneo.
sábado, 29 de janeiro de 2011
The House of the Devil (2009) de Ti West

Este extraordinário filme do realizador com o suspeito nome de Ti West provoca-me, assim de repente, duas reacções de espanto, sobretudo tendo-me eu como seguidor das tendências do cinema de terror norte-americano. Em primeiro lugar, este filme começa muito significativamente "entre muros", com a câmara a mover-se numa casa que poderá ser a, mas que acabará por se revelar numa antecâmara da "casa do diabo" que o título a(e)nuncia. O tradicional master shot é substituído por um plano de interior e é assim, preso à materialidade daquele tempo - que veremos ser decisivo na construção da atmosfera de todo o filme - que "The House of the Devil" nos apresenta a sua bela protagonista (Jocelin Donahue), uma jovem em busca de casa, em busca de dinheiro para pagar a renda, em busca de um emprego para arranjar dinheiro... que vai parar a outra casa.
No percurso até lá, a mesma câmara vai saboreando cada instante desse seu tempo incerto: não estamos no século XXI, nem tão-pouco nos anos 90... cenário a cenário, as roupas, os objectos vão-nos "deslocando" temporalmente para, no limite, meados dos anos 80; para, enfim, outra América e outros cinemas. É retro? É, mas sem grande deslumbramento. São os anos 80 filmados como se fossem 2011, mas num processo de degustação material muito lento, isto é, muito pouco contemporâneo - ou num ritmo que se impõe contemporaneamente, quando o melhor cinema de Carpenter, Argento, Hooper nos deixa nostálgicos? Enfim, a reflexão sobre o tempo, a capacidade (maturidade mesmo) que Ti West revela em não se prender ao filme-homenagem-de-um-tempo-em-que-os-filmes-de-terror-eram-assim é notável.
Outra coisa espantosa: como em "Halloween", os sinais gráficos do género tardam em chegar ao ecrã, fazendo reverter todos os códigos pr(é)escritos do genéro institucionalizado do filme de terror CONTRA as próprias expectativas do espectador. Isto é, a certa altura, "The House of the Devil" leva-nos a interrogar: será isto mesmo um filme de terror ou um filme de terror que apenas (pré-)existe na nossa cabeça? "Halloween" continua a ser o mais radical objecto cinematográfico a explorar esta fronteira entre o género e a sua impossível, ou desnecessária, concretização, mas "The House of the Devil" é, dos filmes de terror contemporâneos, o que leva mais longe esta ideia, ao ponto de a certa altura eu ter julgado possível ver, pela primeira vez, uma das minhas fantasias ganharem forma: um filme de terror sem sangue, um "quase" filme de terror, ou seja, um objecto propositadamente mal concebido - isto é, treslendo em toda a linha as receitas do género - que apenas explore a paranóia do espectador de cinema, ela em si mesma material de sobra para se aguentar hora e meia de suspense puro, de um "what if?" angustiante. Isto é, como seria "The House of the Devil" sem os seus minutos finais? Ainda melhor, estou certo.
No percurso até lá, a mesma câmara vai saboreando cada instante desse seu tempo incerto: não estamos no século XXI, nem tão-pouco nos anos 90... cenário a cenário, as roupas, os objectos vão-nos "deslocando" temporalmente para, no limite, meados dos anos 80; para, enfim, outra América e outros cinemas. É retro? É, mas sem grande deslumbramento. São os anos 80 filmados como se fossem 2011, mas num processo de degustação material muito lento, isto é, muito pouco contemporâneo - ou num ritmo que se impõe contemporaneamente, quando o melhor cinema de Carpenter, Argento, Hooper nos deixa nostálgicos? Enfim, a reflexão sobre o tempo, a capacidade (maturidade mesmo) que Ti West revela em não se prender ao filme-homenagem-de-um-tempo-em-que-os-filmes-de-terror-eram-assim é notável.
Outra coisa espantosa: como em "Halloween", os sinais gráficos do género tardam em chegar ao ecrã, fazendo reverter todos os códigos pr(é)escritos do genéro institucionalizado do filme de terror CONTRA as próprias expectativas do espectador. Isto é, a certa altura, "The House of the Devil" leva-nos a interrogar: será isto mesmo um filme de terror ou um filme de terror que apenas (pré-)existe na nossa cabeça? "Halloween" continua a ser o mais radical objecto cinematográfico a explorar esta fronteira entre o género e a sua impossível, ou desnecessária, concretização, mas "The House of the Devil" é, dos filmes de terror contemporâneos, o que leva mais longe esta ideia, ao ponto de a certa altura eu ter julgado possível ver, pela primeira vez, uma das minhas fantasias ganharem forma: um filme de terror sem sangue, um "quase" filme de terror, ou seja, um objecto propositadamente mal concebido - isto é, treslendo em toda a linha as receitas do género - que apenas explore a paranóia do espectador de cinema, ela em si mesma material de sobra para se aguentar hora e meia de suspense puro, de um "what if?" angustiante. Isto é, como seria "The House of the Devil" sem os seus minutos finais? Ainda melhor, estou certo.
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