sábado, 19 de novembro de 2011

O devir-fantasma em cada leito

"Zerkalo"/"O Espelho" (1975) de Andrei Tarkovski

"O Estranho Caso de Angélica" (2010) de Manoel de Oliveira


(Dois filmes, como dois universos, tão distantes entre si, mas nos quais duas imagens quase se tocam entre si, na perfeição.)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A fixidez do olhar fotográfico (spectrum)

Manoel de Oliveira, "O Estranho Caso de Angélica" (2010)


A morte esteve sempre mais ou menos presente na história da fotografia. Fotografar as pessoas no seu leito de morte era um dos vectores da actividade profissional dos fotógrafos no século XIX, que investiam bastante da sua máquina publicitária na matéria. (...) Embora à medida que avançamos para o final do século XIX se note a resistência de certos fotógrafos neste género, nas décadas de 60 e 70 essa era uma prática relativamente consensual e interiorizada, não constituindo nada de macabro. Num dos números de um jornal de referência, um fotógrafo publica os seus conselhos para a realização de fotografias post-mortem em termos que seriam hoje simplesmente inaceitáveis:

Coloque a sua câmara em frente do corpo [...] prepare a placa, e aí vem a coisa mais difícil: abrir-lhe os olhos. Isto resolve-se facilmente usando uma colher de chá. Puxe as pálpebras inferiores para baixo, mas as superiores têm de ser bastante afastadas para dar um ar natural. Vire o olho para o seu local normal e terá o rosto tão natural como em vida. Uma maquilhagem adequada tirar-lhe-á a expressão lívida e a fixidez dos olhos.

Margarida Medeiros, Fotografia e Verdade: uma história de fantasmas, Assírio & Alvim, 2011, pp. 18-19


Nadar, explicando a Teoria dos Espectros, escreve:

Ora, segundo Balzac, cada corpo na natureza se compõe de séries de espectros em camadas infinitamente superpostas, laminadas em películas infinitesimais em cada um dos sentidos em que a ótica percebe este corpo.
Como o homem jamais pode criar - ou seja, constituir algo sólido a partir de uma aparição, do impalpável, ou do nada fazer uma coisa -, cada operação daguerreana vinha então surpreender, destacar e reter ao aplicar-se uma das camadas do corpo visado. De onde se conclui que o dito corpo, a cada nova operação, sofre a perda evidente de um espectro, ou seja, uma parte de sua essência constitutiva. (p. 6)

Rosalind Krauss, O fotográfico (1990), GG*, 2010, p. 24


* - Alerto para a péssima tradução em português da Gustavo Gili. Se estiver interessado, pode encontrar o mesmo livro decentemente escrito no mercado inglês ou francês.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A Petição Cinema na RTP2 na Comissão para a Ética...: impressões

Já está. Fomos ouvidos na Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação. Expus, em linhas gerais, as principais impressões que retivemos desta experiência que já dura há mais de um ano. O texto que publico abaixo, preparado por mim e pelo Ricardo Lisboa, foi lido, em pedaços, à medida que os deputados iam entrando e resume, no fundo, o sentido geral da nossa intervenção neste encontro na Casa da Democracia.

Se me perguntassem qual a sensação que perdurou, após as intervenções dos deputados, nomeadamente, das Senhoras Deputadas Nilza Sena Santos e Inês de Medeiros, responder-vos-ia em duas partes.

Primeiro dir-vos-ia que ficou claro que estamos todos de acordo (aliás, tanto Nilza Sena, do PSD, como Inês de Medeiros, do PS, subscreveram a nossa petição, o que só demonstra o óbvio de tudo isto). A RTP2 não cumpre as suas obrigações no que a uma programação cultural (de cinema) de "serviço público" diz respeito.

Por outro lado, registamos com algum desalento um pouco aquilo que já tínhamos sentido após a audição parlamentar com o Partido Socialista, realizada por iniciativa da Deputada Inês de Medeiros: apesar de concordarem connosco, os nossos deputados não parecem dispostos (ou dizem-se impotentes) a ultrapassar algumas ideias, a nosso ver, falaciosas em torno dos limites que se impõem à liberdade editorial/programática na televisão pública. Porque, a nosso ver, para haver programação de qualidade, a RTP2 tem de operar mudanças, algumas delas, como se tem visto, face à resistência (teimosia...) demonstrada, muito difíceis (vai-se lá saber por quê...) de tomar pela actual direcção (que não mudou uma vírgula na sua programação desde que esta causa começou, isto é, 3000 assinaturas, três sessões parlamentares, um requerimento parlamentar da Deputada Catarina Martins, vários artigos, podcasts e uma conferência depois).

Todavia, para que a RTP2 opere essas mudanças, a força da sociedade civil não é suficiente. Digo-vos rápido e depressa isto: a RTP2 não quer ouvir o seu público. Para isso pensávamos que havia, pelo menos, a ERC - que basicamente não existiu ao longo de todo este processo - e, em última instância, a Assembleia da República (AR). Aí, confesso, pensei que íamos ganhar outro tipo de embalo, mas isso parece não estar a acontecer. A AR responde com obstáculos e muitos paninhos quentes face a um caso flagrante (estamos todos de acordo aqui) de incumprimento do Contrato de Concessão de Serviço Público e ao alheamento da estação pública RTP2 e ERC em relação aos cidadãos-contribuintes que exigem uma programação de cinema de qualidade.

Qualidade. O que é isso? Um conceito excessivamente subjectivo que torna inviável qualquer tipo de intervenção por parte da Assembleia, porque significa "ingerência" nas decisões programáticas da direcção do canal. Para nós, qualidade é um conceito que está na Lei da Televisão e no Contrato de Concessão, que é objectivável como tal: está escrito que a RTP2 tem de prezar os seus conteúdos, porque só assim se tem uma televisão pública respeitadora do seu público; mais ainda, "formadora" de um público. Ora, há perto de 3000 pessoas que afirmam que essa qualidade efectivamente não existe. Cá está, a nosso ver, algo tão subjectivo e tão objectivo quanto o ser proibido passar-se "filmes de teor pornográfico" nos canais de sinal aberto; tão subjectivo e tão objectivo quanto o não se poder fazer propaganda de extrema direita através de quaisquer meios do Estado - e não só -; tão subjectivo e objectivo como a ausência da publicidade comercial na RTP2. Tão subjectivo e objectivo quanto a Lei, qualquer Lei, o é, apetece dizer, inevitavelmente.

Mas, afinal, o que é "teor pornográfico"? Afinal, o que é "extrema direita"? Afinal, o que é "publicidade comercial"? Cá para mim, é tão subjectivo quanto "uma programação de cinema de qualidade"; é talvez "menos subjectivo" - eufemismo para "arbitrário", para os lados da Assembleia - do que aquilo que parte substancial, e por sinal, bastante informada da sociedade civil reclama como uma programação de cinema de qualidade, do que parte substancial da sociedade civil defende ser um atentado ao contrato que uma empresa pública assinou com o Estado. Mas "corrigir" o incumpridor é ingerir no seu espaço de liberdade? Bem, "ingerir" é o que cabe ao Estado fazer quando este é directamente lesado por alguém, no caso, alguém que dele depende por inteiro.

Ingerir no espaço de liberdade do incumpridor não é um atentado ao Estado de Direito. Pelo contrário: é uma intervenção necessária à manutenção do Estado de Direito. Para o caso, é uma intervenção necessária à restauração da transparência da instituição pública, do Estado, que é a RTP2. Mas todas estas ideias, que à partida não ofereceriam grande discussão, parecem estar a "bloquear" politicamente qualquer acção mais visível por parte da Assembleia sobre esta causa que temos, de facto, como "civilizacional".

De qualquer modo, esperamos ainda que a Comissão para a Ética... procure ter um papel actuante até ao final deste processo. É isso, enfim, que todos nós esperamos dos nossos representantes: soluções e não obstáculos. Vamos ter fé...

Audição Parlamentar: Petição Cinema na RTP2 na Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

CINEdrio nomeado para Melhor Artigo nos prémios TCN Blog Awards 2011


O artigo "Petição Cinema na RTP2: Balanço Final", escrito por mim, neste espaço, no dia 9 de Julho, foi nomeado para melhor artigo da blogosfera cinéfila 2011 pelo júri dos prémios TCN, atribuídos anualmente a partir do blogue Cinema Notebook, do Miguel Reis - a quem agradeço obviamente a atenção. Esta nomeação não diz respeito apenas ao blogue CINEdrio; na realidade, premeia uma causa que tem amanhã um dia importante e que, contrariando muitos vaticínios, não terá uma morte fácil.

Peço que votem neste artigo (escolhendo o seu título na sondagem postada no dito blogue, por exemplo, a partir de aqui), isto se acreditam na causa "Cinema na RTP2" e se defendem - como nós - um serviço público como manda a Lei: de qualidade, isto é, pensado para a formação de um público e não para a sua deformação em "audiência".

domingo, 13 de novembro de 2011

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Newsletter #9: Oliveira

No dia 11 de Dezembro o cineasta português Manoel de Oliveira faz 103 anos. Entre as várias curiosidades por repetidas vezes elencadas nos media, nomeadamente, na blogosfera, destaco o facto de Oliveira estar, neste momento, a preparar dois filmes, que deverão estrear em 2012. Quase ao mesmo tempo, saem em DVD vários filmes de Oliveira que claramente faltavam no nosso mercado - e ainda continuam a falar algumas das suas obras-primas mais aclamadas, como "Acto da Primavera" (para quando?!).

Na nossa newsletter, Manoel de Oliveira será o herói de Dezembro. Estaremos de olho em todas as publicações que se relacionem directa ou indirectamente com o realizador de "Aniki Bóbó".

Mais novidades, no campo literário e ensaístico: o último livro de Agamben; descobertas de preciosidades sobre Sebald; lançamento recente no mercado americano de uma obra de Georges Bataille; uma obra que cruza filosofia e o cinema avant-garde norte-americano com a assinatura de P. Adams Sitney; a única obra publicada no mercado anglo-saxónico sobre o cinema de James Benning e muito, muito mais...

No campo das novidades home cinema, mencionaremos, entre outros objectos: Zizek e o seu guia do cinema, finalmente, em Portugal; um dos maiores "clássicos" de Straub & Huillet chega ao mercado americano; Lionel Rogosin e o seu brilhante "On the Bowery" sai em Blu-ray nos States; vários cineastas, como Mekas e Akerman, são postos "em correspondência" numa caixa arrojada da )intermedio(; Fulci e a sua trilogia "Gates of Hell" lançada em Blu-ray e muito mais...

O entrevistado deste número será o dramaturgo, actor, realizador, argumentista, professor Paulo Filipe Monteiro. O que querem mais?

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

The Birthday Party (1968) de William Friedkin

Para se perceber, de facto, a mais recente "face" de Friedkin, é preciso recuar até à sua segunda longa-metragem, filme que resulta de uma colaboração estreita com o dramaturgo, prémio Nóbel, Harold Pinter. O Lisbon and Estoril Film Festival deu-nos esta prenda, escondida numa programação de luxo, que só podemos agradecer: um incrível raccord que liga 1968 a 2011, mais concretamente, "The Birthday Party" a "Killer Joe".

As semelhanças são extraordinárias: desde logo, são filmes espacialmente concentrados numa "casa familiar"; histórias de vários pequenos enigmas discursivos propiciados por personagens "típicas" ante a ameaça de alguém que vem de fora, alguém que "pensa" e "age" de outro modo; ajustes de contas entre o visitado e o visitante que condiciona cada respiração, em esforço e sufoco desde o início, debaixo do tecto familiar; enfim, dois filmes teatralizados baseados num jogo de palavras - e aparências - que, até ao fim, recusa qualquer moralismo linear. No caso de "Killer Joe" temos um trabalho de polimento dramático levado ao limite, correndo o risco de se oferecer como "estilo puro", como forma plana, sem saliências ou manchas, de tão limada está pela câmara e a caneta dos seus autores.

Temos também aqui, mas também em "The Birthday Party" - e essa é uma das grandes revelações neste double bill! -, uma série de diálogos ritmadamente burilados, verborreia por vezes que se auto-afirma como "gatafunho dramaticamente inútil", mas "ritmadamente" necessário. Exemplos? Bem, em "Killer Joe", por mais do que uma vez, as personagens dizem palavras ou frases saídas do contexto, como quem regurgita o verbo para não descompensar a mancha de texto. Dottie diz "babies", quando está semi-nua, nas costas de Joe. A montagem de "Killer Joe" responde com uma sintaxe semelhante - já acontecia isso em "Bug". Vemos flashes de trovões ou outras imagens dramaticamente "deslocadas", mas que, in toto, equilibram formalmente a obra. O que é que isto tem a ver com "The Birthday Party"? Neste filme, no final, face à indefinição do plot, as palavras - e as personagens que as dizem - começam a existir não apesar de mas precisamente para pontuar a superfície estilística do filme - sentimos a escrita de Pinter como "jogo" de associação de ideias, mas sobretudo, de associação de palavras foneticamente articuladas, mas semântica e dramaticamente "deslocadas".

Os dois "homens misteriosos" questionam a personagem paranóica de Robert Shaw em jeito de "pingue-pongue" linguístico que, em determinado momento, faz com que o diálogo (ou monólogo ou coreografia verborreica) se esvazie completamente de qualquer sentido. O significado deixa de ser resgatável pelo espectador, que, assim, mergulha num universo kafkiano onde as expectativas não batem com códigos que julgamos familiares. Este "estranhamento", esta "teatralização", é o que o brilhante filme de Friedkin/Pinter mais relevantemente traz a uma releitura de "Killer Joe". Releitura de toda uma obra - algo que só os grandes filmes conseguem motivar.

Bolo de anos (VIII): Dardenne

Visconti está para...

como os irmãos Dardenne estão para

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Bolo de anos (V): Malick

Visconti está para...

como Malick está para


(Festa muito solene e ritualizada, onde Tarkovski foi o único que não ficou satisfeito com apenas uma fatia e pediu para repetir.)

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