Pois é, George Raft tem todas as razões para ser - ou para se ter tornado - daltónico: é camionista, "conduz de noite", e é protagonista num filme esquizóide a preto-e-branco de Raoul Walsh, o homem que se decidiu definitivamente pela realização (em detrimento da interpretação) quando perdeu um dos olhos num desastre de viação. Ele é daltónico, nós somos daltónicos ("color blind"): "They Drive By Night" (1940) conduz-nos, inicialmente, pela estrada do drama realista steinbeckiano, para depois se "estampar" num thriller noir onde o que ficou para trás... ficou mesmo para trás. Coincide que a primeira parte - o primeiro filme, apetece dizer! - termina pouco depois de Fabrini "parar" nos cabelos vermelhos de Cassie (Ann Sheridan) e é aí que a viagem termina, ou melhor, é aí que ele "settle down". De facto, o daltonismo é péssimo para quem conduz.
Joe Fabrini: I always liked redheads.
Cassie Hartley: Red means stop.
Joe Fabrini: I'm color blind.
domingo, 13 de janeiro de 2013
sábado, 12 de janeiro de 2013
Modernidade? O elo que liga o motel do filho à casa da mamã
Alfred Hitchcock, "Psycho" (1960)
(...) the architectural locale of the two murders is by no means neutral; the first takes place in a motel which epitomizes anonymous American modernity, whereas the second takes place in a Gothic house which epitomizes the American tradition. (...) This opposition (whose visual correlative is the contrast between the horizontal - the lines of the motel - and the vertical - the lines of the house) not only introduces into Psycho an unexpected historical tension between tradition and modernity; it simultaneously enables us to locate spatially the figure of Norman Bates, his notorious psychotic split, by conceiving his figure as a kind of impossible 'mediator' between tradition and modernity, condemned to circulate endlessly between the two locales. (...) It is on account of this split that Psycho is still a 'modernist' film: in post-modernism, the dialectical tension between history and present is lost (in a postmodern Psycho, the motel itself would be rebuilt as an imitation of old family houses).
Slavoj Žižek, 'In His Bold Gaze My Ruin is Writ Large', in Everything You Always Wanted to Know about Lacan (But Were Afraid to Ask Hitchcock), NY/London, Verso Books, 1992, pp. 231-232
Charles Baudelaire, O pintor da vida moderna, Lisboa, Passagens, 2004
A Angústia do Blogger Cinéfilo (III): meias-finais
Still de "The Great Dictator" (1940) de Charles Chaplin (sim, Hitler faz "mão" na imagem e devia ter sido expulso)
Com um dia de atraso publico o resultado dos jogos dos quartos-de-final entre as equipas de sonho da blogosfera cinéfila. O atraso é justificado: até há cerca de 24 horas tínhamos um jogo empatado, que, por isso mesmo, teve de ir a prolongamento e, deste modo, provocar um ligeiro atraso na publicação dos resultados. O leitor achará estranho que tal tenha acontecido face aos resultados bastante contundentes expressos na maior parte das ou mesmo em todas as partidas.
As votações foram bastante participadas, tendo o jogo que opôs o Keyzer Soze's Place e o Dial P for Popcorn batido todos os recordes do torneio com um total de 37 votos. Foi neste jogo que o empate persistiu passados os 90 minutos de jogo. No prolongamento, o jogo desequilibrou-se nitidamente para o lado da equipa do Dial P for Popcorn, que passará assim para as meias-finais.
O outro jogo mais animado foi aquele que juntou em campo as equipas do Caminho Largo e Rick's Cinema. 34 votos, sendo que cerca de 74% deles foram para o Caminho Largo, que muito serenamente parte, já com estatuto de favorito a estar na grande final, para as meias-finais da competição.
Mais equilibrada foi a partida que envolveu o CINEdrio e o Narrador Subjectivo. Apesar da excelente exibição - e estamos mesmo a ser objectivos - desta última equipa, o CINEdrio saiu vitorioso, reunindo 14 dos 24 votos depositados.
O jogo Shut Up and Watch the Movies vs. A Sombra do Elefante foi um espectáculo interessante, mas algo desnivelado. É que o grande Elefante foi silenciado com um total de 13 contra 6 votos, a favor do pouco "delicado" opositor.
Assim sendo, podemos avançar já para o alinhamento das meias-finais, abrindo a votação (que terminará na próxima sexta-feira, dia 18) a todos os adeptos e, claro, ex-concorrentes. (Os intervenientes, pela sua parte, deverão antever estas meias-finais, fazendo o devido raio X ao novo adversário.)
1.º confronto: Caminho Largo (a preto) vs. CINEdrio (a azul)
Decida o Vencedor Aqui
2.º confronto: Dial P for Popcorn (a preto) vs. Shut Up and Watch the Movies (a azul)
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Make my day: estará o 5 Noites, 5 Filmes de regresso à RTP2?
Já sem Wemans ao leme e com o cancelamento do ornitorrinco artístico-cultural "Câmara Clara", a RTP2 entra numa nova fase da sua vida. Quer dizer, isto se de facto não acabar por ser privatizada, extinta ou outra solução qualquer que o governo improvise entretanto em cima do joelho. Num momento em que se anunciam novas grelhas, não é evidente ainda o rumo que a programação do segundo canal vai tomar em 2013, contudo, os sinais que tem dado em matéria de cinema não oferecem ainda grandes garantias: se, por um lado, muito se lamenta o fim do programa "Onda Curta", por outro lado, perguntamo-nos se o regresso do "5 Noites, 5 Filmes" - que na próxima semana homenageia Clint Eastwood - é para ser levado a sério ou se este canal "de serviço público" continuará a usar o cinema - e essa rubrica histórica, tão acarinhada pelos telespectadores com memória - como tapa buracos da programação. Outro sinal pouco claro prende-se com o fim (definitivo? Não sei...) das sessões duplas de sábado, espaço que era usado, insidiosamente, pela anterior direcção para vender a ideia de que passava cinema em qualidade e em quantidade.
Das duas uma: ou este regresso de "5 Noites, 5 Filmes" é outra piada do canal, poeira lançada para os olhos dos milhares de espectadores que há anos pedem - exigem! - mais cinema na RTP2, ou então estamos na presença de uma mudança de política, que só dá razão a quem sempre associou a estagnação do cinema no segundo canal à direcção chefiada por Wemans e Paula Moura Pinheiro. Obviamente que o meu desejo é que esta segunda hipótese se confirme, porque, caso contrário, ficaremos definitivamente sem cinema no segundo canal, logo, estaremos condenados de vez à falsa oferta dos privados - até porque parece que em 2013 teremos menos cinema na RTP1. Não quero acreditar que se vá descer mais baixo e rasgar de modo ainda mais notório o contrato que vincula a RTP ao Estado, ignorando de vez a obrigação de dar a ver e a missão de contextualizar os grandes filmes da história do cinema.
Adenda (dia 13 de Janeiro): para minha felicidade, constato que a ausência de "Onda Curta" na programação da RTP2 terá sido apenas temporária. Este domingo e, pelo menos, nos próximos dois domingos o programa histórico da televisão nacional tem espaço garantido na antena da RTP2. Uma boa notícia.
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Newsletter #18: Walsh
Eis o tão prometido regresso da Newsletter do CINEdrio (previsto para o dia 1 de Fevereiro) e, com ela, das melhores promoções, lançamentos recentes e futuros de livros e filmes vindos de todos os cantos do mundo graças ao maravilhoso - e miraculoso - comércio online. Esta segunda vida é celebrada com um autor enciclopédico, alguém cuja vida compreende uma boa parte da história do cinema: desde "The Birth of a Nation" do seu mestre D.W. Griffith até à eclosão do cinema moderno, passando, entrementes, pela consolidação de alguns dos géneros mais populares do classicismo norte-americano: o western, o filme de guerra e o gangster movie. Estas serão as três grandes áreas de especialização do cinema de Walsh, sendo que nele muitas vezes a especificidade é não haver, pelo menos aparentemente, uma e apenas uma especialidade. Enquadrar um cinema com este eclectismo é a tarefa desafiante que procuramos responder na próxima edição desta publicação agora renascida.
Bem, renascida sim, mas não revolucionada. O subscritor irá encontrar as rubricas de sempre, com lançamentos futuros, recentes e as melhores aquisições no mercado online de livros e filmes. As novidades e descobertas acumuladas são tantas - e tão boas - que não vale a pena fazer qualquer antevisão aqui. Vale? Ok, mas só umas pistas: Bill Morrison, Imamura, Jonas Mekas, Godard, Jancsó, Max Linder, Murnau, Kitano, James Whale, Nicholas Ray, Don Siegel, Hellman, Losey, Rancière, Badiou, Lourcelles, Agamben, Adorno, Deleuze, Margarida Acciaiuoli, Oliveira, Adrian Martin, Skorecki, etc. e etc.
A grande novidade que podemos adiantar prende-se com um reforço para a nossa equipa de colaboradores: Samuel Andrade, do blogue Keyzer Soze's Place. Ficamos felizes por ter aceite o nosso convite. A vinda do Samuel não invalida o repto que endereçámos a todos os amantes de livros e filmes: se gosta de escrever sobre o que vê e lê, então não se acanhe e candidate-se ao lugar de próximo colaborador da Newsletter do CINEdrio, seguindo estas indicações.
Para este nosso relançamento, iremos publicar as recomendações em matéria de filmes e livros por parte da filósofa Maria Filomena Molder. Prepare-se para excelentes descobertas.
Posto isto, resta-nos desejar que continuem a apostar na nossa existência, divulgando os meios para a nossa subscrição.
Objective, Burma! (1945) de Raoul Walsh
É muito fácil gostar e até gostar muito de "Objective, Burma", filme cuja acção tem lugar no palco asiático da II Guerra Mundial, mais especificamente, na Birmânia, ponto de choque, espécie de Estado-tampão, entre os aliados (Estados Unidos, Grã-Bretanha, Índia e China) e o "terrível" império japonês. O objectivo no/do filme, contudo, não é a conquista desse território ou a vitória imediata sobre o inimigo, mas a história de sobrevivência de um grupo de militares ao longo de vários dias passados sem mantimentos em número suficiente e, a certa altura, com poucas expectativas de serem resgatados. Trata-se, em primeiro lugar, de um filme mais de sobrevivência do que de guerra, mais de choque com a envolvência agreste e selvagem do território do que com os métodos demoníacos do inimigo. Ainda assim, penso que Walsh podia ter vincado mais esta diferença em relação à maioria dos filmes do género, contendo-se de modo significativo no retrato bárbaro que faz do inimigo - não digo que ele não fosse "de facto" assim, simplesmente, há pouca vontade de, por exemplo, fazer deste filme uma reflexão mais distanciada sobre a natureza "desunamizadora" desta como de qualquer outra guerra.
Face a "The Thin Red Line" ou "Flags of Our Fathers", este filme de Walsh arrisca cair numa certa visão aligeirada da guerra, mostrando, no começo, os bons soldados americanos a massacrarem os seus inimigos com um sorriso estampado no rosto, como se estivessem a desempenhar uma tarefa rotineira ou natural, para depois se lançar na mais alta indignação e sentimento de horror e ódio face à barbárie cometida pelo inimigo. O jornalista no grupo chega a deixar fugir qualquer coisa como "gente desta devia ser eliminada da face da Terra". A câmara de Walsh não promove o contra-campo, moralmente justificado, aqui, porque para ela não parece haver dúvidas de que a chacina de japoneses é "entertainment" mas a morte de americanos constitui um momento político sério, mesmo que catártico. Preciso de o dizer: este desequilíbrio moral não sabe e não soa bem hoje.
Não consigo ser cúmplice do grupo de cinéfilos para os quais tudo é cinema ou um jogo de formas e sons, porque quando entramos no domínio da definição do Humano (ou do que resta dele), lamento dizê-lo, mas o cinema não basta. O caso deste filme de Walsh não é, seguramente, o mais grave - não é um "The Birth of a Nation", onde curiosamente Walsh entra no papel do assassino de Lincoln, filme paradigmático de alguns dos problemas que se podem interpor na relação da cinefilia com o mundo, principalmente uma certa totalização da experiência pelo cinema (como se este último, de facto, bastasse para esquecermos tudo o mais...).
"Objective, Burma!" é um filme de acção magnificamente montado, em registo semi-documental, que acompanha a operação militar do título a par e passo, absorvendo cada minuto com o sentimento de também nós, espectadores, estarmos ali, com aqueles homens e naquele lugar. De novo, Walsh filma uma travessia e os problemas - muito concretos - que se colocam aos seus heróis entre um ponto A e um ponto B. Na realidade, o filme é o somatório de todas essas dificuldades e o modo como estas vão sendo superadas pelos protagonistas. Envolvente, intenso, sem excesso de retórica - apesar da sua, já referida, notória natureza propagandista -, "Objective, Burma!" resume, fora a menor ou maior aderência à "visão do mundo" do espectador moderno, algumas das melhores virtualidades do filme de acção tipicamente walshiano.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Por uma definição justa de pirataria
A pirataria é um mal que paira sobre a Humanidade. Todas as semanas, navios de praticamente todas as nacionalidades correm grandes riscos de serem abordados por piratas somalis nos Mares Arábico e Índico. Enquanto isso é um atentado à integridade física de pessoas e um roubo de produtos físicos - e a também antiga contrafacção de artigos coloca em risco a vida ou a saúde das pessoas - os governos e entidades mais ou menos oficiais preocupam-se principalmente com um tipo de pirataria bem mais ofensivo ou perigoso: a democratização do conhecimento cultural, através da partilha de conteúdos digitais.
Os conteúdos digitais foram uma invenção da indústria. Dando variedade de formatos e portabilidade, tencionavam vender mais, mais depressa e com maior lucro. E tal como no tempo dos gravadores de VHS, os consumidores contornaram as regras. Se há vinte anos as revistas apoiavam o consumidor fornecendo capas e códigos para gravar à hora certa, agora são os próprios fornecedores de serviços televisivos a permitir a gravação e visionamento posterior com um mínimo de esforço. E isso é legal porque, apesar de os fabricantes de conteúdo não gostarem, como são empresas que o fazem pagam impostos, continua a ser negócio. Os consumidores agradecem o serviço prestado.
Vender DVD contrafeitos é ilegal. Porque nesse cenário não ganha quem faz o conteúdo, nem quem o vende paga impostos sobre o seu trabalho. O consumidor agradece pagar menos do que por um bilhete de cinema ou uma cópia oficial e, como os tempos estão difíceis, já sente que é justo cortar numa despesa “supérflua” como é o entretenimento.
Disponibilizar conteúdos online equivale ao anterior porque, atingindo determinada escala, começa a arrecadar quantias consideráveis de dinheiro com a publicidade.
E se quem os coloca online não estiver a ter lucro, nem a roubar a ninguém? Esse era o caso do blog My One Thousand Movies. Os três mil filmes que tinha eram clássicos que não se encontram à venda nem passam na televisão. Pretendiam dar a conhecer o património cinematográfico da humanidade. Serviam para descobrir cineastas esquecidos e obras de culto, mas com pouca resolução para que ninguém se sentisse tentado a ficar com essa versão em vez de se dedicar a procurar no mercado convencional de importação uma versão melhor. Outra vantagem é que no My One Thousand Movies todos os filmes tinham legendas em português ou numa língua mais ou menos compreensível. Na importação não.
Dia 16 foi fechado pela Google sem qualquer aviso por incentivo à pirataria. Estamos a falar de filmes quase impossíveis de encontrar no mercado, que em nada rivalizavam com a versão comprada, se existisse uma, e que tinham no máximo uma centena de downloads provenientes de todo o mundo, não apenas de Portugal.
O que o My One Thousand Movies fazia era complementar (ou substituir) a missão da deficiente televisão pública de educar cinéfilos. Muitos bloggers recorreram a este repositório para rever um título acarinhado, ou, a partir do filme e da pequena resenha que o acompanhava, fazerem publicações com as quais muitas outras centenas de pessoas ficaram com vontade de descobrir um cinema marginal e esquecido.
Isto não é pirataria, é serviço público, e é preciso (re)definir o enquadramento legal adequado.
Se alguém errou no meio disto tudo foram as distribuidoras que não viram interesse em comercializar os filmes. Ninguém o pode ver porque não compensa comprar os direitos e fabricar para pouca gente? Sugeríamos que houvesse um videoclube online no qual, por um valor simbólico, se pudesse ver o filme contribuindo para a distribuidora.
A distribuidora não teria encargos com a manufactura de cópias físicas que ficariam a ocupar espaço em armazém.
Os consumidores exigentes encontrariam o que queriam imediatamente sem remexer em caixotes de promoções nas superfícies comerciais.
Os retalhistas não estão interessados em ter uma cópia única de milhares de filmes que poderão nunca vir a comercializar, mas estariam interessados em vender cartões pré-pagos de acesso a esse serviço, como fazem para as consolas.
Se o preço fosse suficientemente baixo toda a gente poderia espreitar e talvez descobrir algo único.
Enquanto este tipo de serviço não existir, estaremos sempre dependentes da boa vontade, dedicação e cultura de pessoas como o autor do MOTM. Mesmo que achem que isso vai contra a lei. De todos nós, obrigado.
Signatários
Ana Sofia Santos Cine31 / Girl on Film
André Marques Blockusters
António Tavares de Figueiredo Matinée Portuense
David Martins Cine31
Francisco Rocha My Two Thousand Movies
Gabriel Martins Alternative Prison
Inês Moreira Santos Hoje Vi(vi) um filme / Espalha-Factos
Jorge Rodrigues Dial P for Popcorn
Jorge Teixeira Caminho Largo
Luís Mendonça CINEdrio
Manuel Reis Cenas Aleatórias / TV Dependente
Nuno Reis Antestreia
Pedro Afonso Laxante Cultural
Rita Santos Not a Film Critic
Samuel Andrade Keyzer Soze's Place / O Síndroma do Vinagre
Victor Afonso O Homem que Sabia Demasiado
domingo, 6 de janeiro de 2013
A Angústia do Blogger Cinéfilo: antevisão do jogo dos quartos-de-final
Narrador Subjectivo (a preto) vs. CINEdrio (a azul)
Decida o Vencedor Aqui
Na antevisão do primeiro jogo do CINEdrio, o míster Fuller deu um murro na mesa - literalmente! - depois de interrogado sobre a sua alegada má relação com o ponta-de-lança da equipa, Quentin Tarantino. Se os dois já não se podiam ver à frente, depois de Tarantino ter dito que "odiava Ford", defesa central lendário do CINEdrio FC, Fuller terá esgotado a paciência, chegando mesmo a afirmar a um órgão de comunicação social que "Tarantino tem é de se concentrar no jogo que aí vem. Isto se quiser um dia chegar ao nível de um John Ford". De resto, Fuller diz que está confiante num resultado "positivo" frente à equipa do Narrador Subjectivo FC. O respeito pela equipa adversária é grande, já que esta dispõe de uma defesa sólida, com uma guarda-redes interessante mas ainda algo insegura, mas acima de tudo com um meio campo muito virado para o ataque (porventura demasiado "ofensivo"). "Talvez no meio-campo e no ataque o CINEdrio esteja uns furos acima do adversário", refere ainda assim Fuller, para depois concluir: "Vamos ter de explorar todas as fraquezas, se queremos seguir para as meias finais".
Uncertain Glory (1944) de Raoul Walsh
Errol Flynn nunca foi um actor da minha preferência, mesmo quando dirigido pelos melhores, como é o caso dos filmes de guerra que fez sob o comando de Raoul Walsh. "Uncertain Glory" consegue, contudo, fazer da maior fraqueza da super-estrela da Warner numa força, nomeadamente a sua fatal tendência para uma espécie de soberba oca ou cinismo vaidoso. Do rosto de Flynn está sempre um sorriso engatatão e um olhar difuso, para não dizer "vazio". Normalmente é plano tanto quanto é pouco versátil. Um Bogart ou um Mitchum sabe fazer da planura, do rosto e da voz, uma espécie de versatilidade dentro da gama de papéis que lhe couberam. Ora, Flynn não consegue fazer isso, mas Walsh consegue, salvo nalgumas desonrosas excepções (exemplo do inenarrável "Northern Pursuit"), distrair a acção da inexpressividade ou da expressividade linear, básica, deste actor. No caso de "Uncertain Glory" vai mais longe, servindo-se dela "de caras" para fabricar uma personagem completamente imprevisível do princípio até ao fim, alguém tão pouco fiável que mesmo nas suas nobres acções não nos convence minimamente.
Aliás, é comum descrevermos uma má interpretação com expressões semelhantes, do estilo "interpretação pouco convincente". Aqui a personagem quer-se pouco convincente, volátil, intrinsecamente cínica e indecifrável. A confissão de Flynn na igreja, toda ela "a big joke", é redimida numa segunda confissão, na qual Flynn diz que antes a "joke" era afinal ele, que também soa e se evidenciará falsa, montada, interesseira (mais que a primeira) ou gratuita (menos que a primeira). Flynn não diz nada com o rosto, logo, apenas diz para não confiarmos nele ou apenas nos diz que tudo nele é passível de ser projectado - a dúvida será, em potência, a sua arma secreta.
O que acontece em "Uncertain Glory" já acontecera em "Desperate Journey", quando Walsh fazia da "troca de peles" o principal leitmotif do filme, mas neste caso a troca é moralmente mais complexa: um criminoso francês propõe ao inspector Bonet morrer não como um banal homicida, morto pela guilhotina (à francesa), mas como um herói francês da resistência, executado contra a parede, de olhos vendados (à alemã). Tudo resultará de uma espécie de negociação à la "Strangers on a Train" e numa "mudança de peles" no sentido da ocupação de um lugar vazio que urge preencher (o do sabotador que, se ficar por preencher, custará a vida de uma centena de inocentes). O que Flynn neste filme promete fazer - mas não sabemos se irá fazer, porque desconfiamos sempre dele, até mais que as outras personagens no filme... - é tornar-se não no "wrong man" hitchcockiano - com injustiça e desonra - mas num novo "right wrong man" walshiano - com justiça e honradez. O final, demasiado definitivo, é pouco habilidoso face ao jogo de ancas posto em prática ao longo de quase todo o filme, mas damos de barato o lacrimejo retórico e galvanizador num filme realizado no ano em que foi.
sábado, 5 de janeiro de 2013
Recorte de falas (XXV): À Meia-Noite Levarei Sua Alma
Aos 12 minutos de "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1964), Zé do Caixão antecipa uma reflexão de Rancière a propósito de "Histoire(s) du cinéma" de Godard, abrindo caminho a um processo de disjunção, "anti-representativo", entre imagem e palavra, que faz converter a palavra em carne e o corpo da imagem numa encriptação, ou seja, numa forma de escrita... Mas fá-lo incompletamente, como que enunciando apenas um esboço dessa "mudança". Zé do Caixão experimenta empiricamente a possibilidade dos misteriosos lábios de Terezinha (a imagem) serem tão rebeldes quanto as palavras que eles adornam (som e texto). Num filme de som assíncrono, é curioso que Zé do Caixão provoque esta brecha hipotética entre o que a mulher que quer possuir diz e o que os seus lábios (mudos) lhe fazem ver e sentir. A experiência acabará por não correr bem, já que os lábios de Terezinha eram afinal menos rebeldes que os seus dentes, que vão morder até sangrar a boca do "anticristo brasileiro".
Zé do Caixão: Quero ver se seus lábios são tão rebeldes como suas palavras!
Zé do Caixão: Quero ver se seus lábios são tão rebeldes como suas palavras!
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
A Angústia do Blogger Cinéfilo (II): quartos-de-final
Still de "Offside" (2006) de Jafar Panahi
Caros concorrentes, caros adeptos, o sorteio já foi realizado.
Entretanto, todos os concorrentes entraram em estágio nos seus respectivos espaços, onde se consolidam as opções tácticas e estratégicas. Poderão acompanhar a preparação clicando abaixo sobre o nome de cada blogue.
Mas, antes de mais, vamos ao resultado do sorteio.
Sorteio realizado via random.org
1.º confronto: Caminho Largo (a preto) vs. Rick's Cinema (a azul)
Decida o Vencedor Aqui
2.º confronto: Narrador Subjectivo (a preto) vs. CINEdrio (a azul)
Decida o Vencedor Aqui
3.º confronto: Shut Up and Watch the Movies (a preto) vs. A Sombra do Elefante (a azul)
Decida o Vencedor Aqui
Decida o Vencedor Aqui
Agora que já sorteámos os primeiros confrontos, cabe a cada blogger concorrente publicar o seu duelo, postando:
1. a imagem e texto (com link para este post com todas as sondagens) do vosso confronto, e, se quiserem, deixem comentário sobre a vossa "sorte" - prognósticos e análise à Luís Freitas Lobos das principais valências e debilidades, "técnico-tácticas", do vosso oponente.
2. o anúncio do fim da votação: precisamente, na próxima sexta-feira (11 de Janeiro).
Agora cabe ao leitor determinar o destino de cada uma das peladinhas cine-blogosféricas. Vote, já!
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Desperate Journey (1942) de Raoul Walsh
Decerto alguns dirão que estou a sobrevalorizar um filme datado realizado quase em modo automático por Raoul Walsh, servindo-se de ou sendo servido por uma das maiores estrelas da época na Warner: Errol Flynn. Não me espantam, por exemplo, as duas estrelas que Tag Gallagher dá ao filme - e decerto a sua argumentação passará por "censurar" o tal tom datado e, talvez, algo naive do filme face ao acontecimento histórico que procura traduzir (isto é, trair) na linguagem cinematográfica. Essa crítica faria sentido se não cometesse em si mesma uma injustiça ou não se pudesse descobrir neste filme um ponto de luz em direcção a um mais-que-possível humanismo walshiano. Estou, neste particular, a pensar na rapariga alemã (Nancy Coleman) que dá guarida aos militares americanos, eles que, em disfarces alemães, em plena "boca do lobo", lá vão conseguindo ir bem para lá dos objectivos da missão para a qual foram destacados. Antes de se despedir do herói (Errol Flynn) e seus companheiros, a rapariga pede a estes para passarem a palavra sobre todos aqueles que, como ela, arriscam a vida para combater internamente o nazismo - e em que condições desiguais! Flynn fala alemão, mas ela também fala inglês, contudo, despedem-se os dois com um auf wiedersehen. (Se esta foi "a despedida" no cinema, esta foi "a apresentação" na vida.)
Começa aqui a outra nota da "honestidade" de Walsh (há bocado falava em humanismo, não receio a palavra, mas agora vai esta em sua substituição). Se na maior parte dos filmes americanos sobre a II Guerra Mundial que se seguiram a este os alemães falam um "inglês com sotaque", aqui a língua não só é respeitada nas suas devidas fronteiras culturais e políticas como, por assim o ser, se torna num dos principais instrumentos de acção ou, na realidade, de dissimulação do/no filme. Em "Desperate Journey" temos então, como o título indica, uma viagem toda ela feita nas barbas do inimigo, por isso, os nossos heróis ou se calam para sempre - isso seria um filme mudo e, de facto, no começo temos cerca de 10 minutos sem diálogos... só com a acção das bombas e dos corpos - ou só falam entre si ou, fazendo uso dos dotes linguísticos do líder interpretado por Flynn, muito literalmente se mascaram de alemães. Esse será o primeiro grande "cavalo de tróia": a língua. O segundo é o trabalho sobre a aparência deste grupo de soldados ingleses e americanos, algo que se resolve deitando ao chão meia dúzia de alemães e fazendo da guerra motivo para um carnaval antecipado. A partir daqui, as peles estão completamente trocadas, até entre os soldados inimigos - um dos generais prefere falar inglês com o seu inferior, para não ser percebido pelos outros presentes.
Este jogo com as peles - e com a língua, esse importante "músculo" da acção (aviso: não fui eu que citei aqui Tarantino) - atinge o ponto culminante na sequência impressionante desenrolada na fronteira alemã, quando os falsos soldados do Eixo são recebidos por pai e mãe da rapariga resistente anti-nazi, que referi atrás. Esta não chega a tempo de os receber, pelo que serão os seus simpáticos pais a dar as boas-vindas a esses verdadeiros heróis de guerra da Aliança, dando-lhes de comer e trocando palavras de esperança sobre um futuro livre da ameaça nazi. (Aviso spoiler) Quando a rapariga chega e pergunta de imediato - olhando para a "suposta" mãe - "quem é esta senhora?", os nossos heróis são mais rápidos que o espectador a recuperarem do choque provocado por esta cilada tão perversamente maquinada (era preciso jantarem todos juntos e terem trocado tanta afecção?). Afinal, naquela mesa, os oficiais da Aliança vestidos de soldados do III Reich foram surpreendidos por dois velhotes que no trato e nas palavras se faziam passar por resistentes anti-nazis e pais da rapariga insurrecta, duas coisas que, pelos vistos, estes não eram (fim de spoiler).
Aqui, de facto, a dissimulação é uma simulação constante, a mise en scène do cinema está aqui também ela travestida pela mise en scène (dialéctica) da História: hoje amigos, amanhã inimigos? Não, agora amigos, daqui a 5 minutos inimigos. Ou pior: agora amigos, agora inimigos! De resto, Walsh é impecável a traçar o continuum da acção, não dando qualquer margem para descanso ao espectador... como depois Steven Spielberg veio a fazer, no tempo em que estava no pleno das suas capacidades. (Penso até que está na hora de voltar à fonte e não estou aqui a falar de Ford, mas de Walsh. Aliás, desde quando Spielberg é/deve ser mais fordiano que walshiano?)
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
The Big Trail (1930) de Raoul Walsh
Para muitos, a obra-prima máxima de Walsh. Para alguns, um dos melhores filmes de sempre. "The Big Trail" ganhou nova vida recentemente (saído em Blu-ray/DVD em 2012, numa edição "de cinemateca", absolutamente imprescindível) com um restauro histórico, que repôs o filme no seu formato original: o "grandeur", em 70mm, criado por William Fox no sentido de formar um novo standard na fruição cinematográfica. A pontaria de Fox foi ter lançado este monumental filme, cujo formato obrigava a uma autêntica revolução tecnológica em todas as salas de projecção que o quisessem mostrar na sua versão original, no ano em que os Estados Unidos abriam falência: a Grande Depressão terá então ditado que o filme mais ambicioso da Fox em muito tempo, eventualmente a maior produção de Raoul Walsh, onde Big Duke surgiu no ecrã pela primeira vez como... John Wayne caísse no limbo dos clássicos esquecidos.
Essa é, em parte, a sina de um cineasta como Walsh, hoje muito menos popular - mas não menos amado - que um Ford. Contudo, Walsh é dos raros cineasta que, graças à sua longevidade (morreu com 93 anos!), percorreu grande parte da história do cinema, de Griffith à eclosão dos novos cinemas. Apesar disso, devido talvez à pouca fixação num género e, quiçá, a todos estes contratempos conjunturais, como o de se lançar na "produção de uma vida" quando o país se definhava por dentro, para hoje falarmos de Walsh temos de descer vários degraus na escadaria da popularidade encimada por um Ford ou até por um Hawks.
O que nos diz "The Big Trail" do seu cinema? O formato largo, mais de vinte anos antes do Scope, empresta ao filme a dimensão justa do seu particular olho fílmico. Walsh, como Ford, é um realizador espraiado no espaço, com um sensibilidade apurada para a acção e para o drama, com uma predilecção por narrativas viris sobre homens condenados a percorrer, física ou existencialmente, longos percursos com vista a se fixarem algures - o típico settle down americano? Não há metáfora aqui, no caso de "The Big Trail", já que fala da conquista do território americano pelos primeiros colonizadores brancos (settlers), partindo (à Griffith) de uma história de amor que se desenvolve ao longo de uma travessia épica que suspira por uma ideia de destino. É no sentido dessa fixação que a personagem de John Wayne se move nas paisagens mais agrestes, filmadas in loco fazendo uso de cada centímetro da imagem que parece esticar até ao infinito, superabundando em detalhes o olho do espectador mais destreinado. De novo, a escola Griffith está no sangue de Walsh. O próprio discurso arrebatado de Wayne, numa altura em que a expedição parece sucumbir às dificuldades meteorológicas e geográficas, remete para a ideia de uma nação em construção, em nascimento, que se elevou às custas da resistência do settler mais anónimo. Também aqui se equivalem o todo (a nação) e a célula (a criação de uma família como o grande "móbil" que fez mover multidões pelo espaço).
Mas, mais que o subtexto patriota (mas não patrioteiro), "The Big Trail" é uma experiência estética de uma potência plástica sem par. É raro encontrar uma superprodução desta magnitude - e, caros amigos, não há aqui truques de CGI, tudo aqui "aconteceu" de facto! - e com uma qualidade fotográfica tal que me leva a especular se "The Big Trail" não seria hoje o correspondente a um "O Canto dos Pássaros" de Albert Serra : cinema da e pela paisagem, cinema que busca na matéria da imagem a razão de ser primordial da sua narrativa. Por sinal, num dos extras da edição Blu-ray, um dos comentadores - não sei se era Tag Gallagher - referia-se a "The Big Trail" como um grande filme experimental (ou terá sido um "filme experimental em grande"?). Eu sei que se referia ao pioneirismo (termo útil aqui) no uso do formato "grandeur", mas eu atrevia-me a alongar mais essa conclusão e olhar de novo para o clássico "The Big Trail" como o cume, muito à frente do seu tempo, do "experimentalismo" moderno.
Ligação directa à pala de Walsh (VI)
No último mês de Dezembro, a produção foi variada. Sugiro começar pelo fim: "Meghe Dhaka Tara"/"The Cloud Capped-Star", o magnífico filme de Ritwik Ghatak foi o primeiro filme falado de 2013. Se este acabou por ser o primeiro post do novo ano, decidimos encerrar o anterior abrindo uma nova rubrica chamada "Actualidades". Através dela, eu e o Ricardo Vieira Lisboa fizemos o levantamento dos principais acontecimentos de 2012, mas sob a luz do cinema. Foi também em Dezembro que publicámos o inevitável Top10 do À pala de Walsh - qual foi o melhor entre os melhores? Veja tudo aqui. Outro post festivo - com boas doses de ironia - resultou numa Sopa de Planos para pobres, mas cheia de espírito natalício - porque, por pouco papel que haja, Natal é sempre Natal.
Escrevi ainda o texto sobre "Vertigo", obra-prima intemporal de Hitchcock que foi recentemente reposta em sala por iniciativa da Midas Filmes. Aproveitei ainda para lançar com o João Lameira, finalmente, a nossa entrevista a Lisandro Alonso. Antecipando a sua exibição na Cinemateca Portuguesa, tentei "rever em alta" o delirante "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" de José Mojica Marins, um óptimo pretexto para se reavaliar o lugar deste autor na história do cinema moderno.
Dezembro foi também mês de filme raro. A minha escolha foi, na realidade, uma descoberta recente, que marcou profundamente o final de 2012: a trilogia de Nova Iorque do cineasta norte-americano Peter B. Hutton. Leia e divulgue. Por fim, e acabando onde comecei, escrevi mais um "episódio" da minha Civic TV, desta feita, devotado ao zapping do futuro através do filme conceptual de Mike Figgis "Timecode", que por diversas vezes tem passado na televisão portuguesa.
Nesta ligação em directo, tenho ainda de chamar à atenção para o primeiro post da nossa mais recente colaboradora, a Helena Ferreira. O que o motivou foi a excelente retrospectiva na Culturgest dedicada ao cineasta taiwanês Edward Yang, mais especificamente a sua obra-prima "A Brighter Summer Day". Porque qualquer espaço de cinema tem obrigação de preservar a memória do cinema e respeitar os seus mestres, tomo a liberdade de reconduzir para aqui as palavras que o Francisco Valente escreveu a propósito do desaparecimento físico de Paulo Rocha e da imortalidade da sua obra, a começar por aquele que será, quanto a mim, um dos filmes maiores da história do cinema português: "Os Verdes Anos".
Em Janeiro, com o João Lameira a cargo da edição, teremos mais reflexão, brincadeiras e exclusivos. Esteja atento e comente.
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