segunda-feira, 8 de agosto de 2011

As introduções de José Vieira Mendes: o grau zero da contextualização cinéfila

A questão do cinema e do serviço público de televisão é complexa, não devido às obrigações quantitativas e qualitativas previstas no Contrato de Concessão de Serviço Público, mas pelo facto de, verdadeiramente, "o problema" ser de muito difícil resolução por quem tem "programado como tem programado" os espaços de cinema nos canais públicos. Quero dizer com isto o seguinte: mesmo que Jorge Wemans ou alguém que partilhe com este uma visão muito estreita do que é e representa o cinema para o público da RTP2, digo, mesmo que alguém DESTA RTP2, ligada umbilicalmente a ESTA direcção, se proponha dar o tal "passo em frente" na sua programação de cinema, provavelmente, dará apenas meio passo.

No debate Cinema na RTP2 foi assumido pelo director da estação, bem como pelo ex-Provedor do Telespectador, que este canal está claramente deficitário no campo da sua programação de cinema. E que o problema, mais do que quantitativo, é qualitativo. Alguns elementos do público que quiseram participar no debate não deixaram de fazer a sugestão mais óbvia: que, pelo menos, a sessão dupla dos sábados seja pensada por alguém da área, que depois fará uma pequena introdução filmada - ela ou um convidado... - aos filmes que se seguem. A ideia pareceu ter sido bem recebido por todos os presentes. Naquele momento estávamos todos de acordo. Contudo, é preciso sublinhar que esta solução "mínima" poderá ser menos do que isso se o formato dessa apresentação for, à partida, ele mesmo, "equívoco", isto é, pouco compaginável com as exigências de qualidade, intelectual e pedagógica, que efectivamente SERVEM o interesse público. Por isso é que, mesmo que o senhor Jorge Wemans queira dar, finalmente, o tal passo em frente, cairá no risco de só dar meio passo.

Exemplo desse "meio passo" que, se calhar, nem "em frente" nos (co-)move, é o espaço que a RTPMemória organiza todas as semanas - penso - e que é apresentado pelo director da revista PREMIERE, José Vieira Mendes. Aqui está um caso que parece encaixar-se em todas as nossas exigências: alguém do cinema que apresenta um grande clássico, faz dessa apresentação oportunidade para se falar sobre cinema com um convidado em estúdio, servindo o apresentador/entrevistador de anfitrião na descoberta das preciosidades mais ou menos escondidas da História do cinema.

Tudo bem? Sim, mas só em teoria. O problema vem, então, com a qualidade não só da apresentação, como da entrevista. Qualquer coisa tão confrangedora que dificilmente se consegue reproduzir neste espaço. O apresentador empresta um sorriso de plástico e um conjunto de perguntas "com rasteira", frequentemente eivadas de insinuações pequeninas, seja contra o cinema português, seja contra o cinema dito "alternativo", que, naturalmente, levam o convidado a responder com a mesma moeda. Inanidades atrás de inanidades, portanto. E, como digo, José Vieira Mendes baixa qualquer conversa a uma espécie de grau zero do pensamento cinematográfico, insistindo nas questões de indústria, bem como falando do número de prémios que os filmes conquistaram ou de outro tipo de futilidades debilmente debitadas num português paupérrimo. (Numa das introduções pergunta ao convidado, um programador que gosta tanto de cinema como política e outras coisas, como consegue este harmonizar uma oferta mainstream com a oferta de blockbusters...).

Com efeito, quase tudo o que este senhor diz surge como absolutamente lateral ao filme que irá ser mostrado e que, pelo seu valor estético e histórico, pedia uma publicitação, pelo menos, digna da parte do canal que o exibe. Neste sentido, João Lopes faz muito mais do que RTPMemória e RTP2 juntas sempre que fala de um DVD de um clássico da Sétima Arte que saiu nessa semana - aqui sim, há um pensamento que se transmite, um convite informado e "informante" ao espectador para mergulhar mais fundo na história das imagens...

Por outro lado, ou como consequência lógica de tudo isto, os convidados estão ali como que caídos de pára-quedas. Nas "introduções" que tenho assistido, é evidente que a personalidade escolhida está ali mais para uns minutinhos de auto-promoção e tiradas cúmplices com "as ideias" do apresentador do que, verdadeiramente, para contextualizar o filme que se vai mostrar a seguir ao espectador. Resulta disto que, nalguns casos, pela própria, correspondente aliás, pobreza do discurso de alguns convidados, o filme fica praticamente por apresentar - ele parece estorvar aliás o fio de raciocínio, raciocínio baseado em trivialidades ou verdadeiras tolices demagógicas, que envolve estas conversas de café absurdamente deslocadas do seu objecto.

É também notório que não são os convidados a escolher os filmes, mas o apresentador que "impinge" os filmes a convidados que, por partilharem as suas "visões" do cinema, vão à televisão pública trocar umas impressões vãs sobre o que se vai mostrar, mas, acima de tudo, sobre o "estado do cinema" no nosso país - na vez de Pedro Mexia, que parece "fazer carreira a falar mal do cinema português", fica claro que, se pudesse escolher, este apresentava "The Searchers" no lugar de "How Green Was My Valley", obra que lhe saiu na rifa semanal, sorteada por José Vieira Mendes.

No fim, o apresentador, com um sorriso de plástico, despede-se do convidado e do espectador, "lendo" no teleponto um texto miseravelmente escrito, que mata de vez com a possibilidade de a RTP fazer do cinema, finalmente, espaço de reflexão cuidada sobre as imagens e o seu lugar na história contemporânea.

4 comentários:

Carlos Natálio disse...

Nunca vi o programa mas promete... Será assim tão difícil falar sobre aquela coisa, como é que se chama, ah, o cinema, é isso. Irra.

O Projeccionista disse...

Ver aquelas apresentações é verdadeiramente penoso. Infelizmente, pois ainda é dos poucos espaços em que a RTP se dá ao trabalho de passar Cinema clássico.

Luís Mendonça disse...

Ainda bem que não sou só eu que sinto isso.

Mas, sim, a RTPMemória passa alguns filmes magníficos, que eu, na newsletter, tenho publicitado sempre que posso - bem como, naturalmente, a RTP2.

Reporto-me aqui, única e exclusivamente, aos programas sobre cinema. Mas se houver mais leitores a ter visto estas introduções, por favor, concordando ou discordando, escrevam comentário.

Luís Mendonça disse...

Carlos, eu poria as coisas até de outra forma: "será difícil encontrar alguém que saiba falar sobre aquela coisa... o cinema?".

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