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quinta-feira, 19 de julho de 2012

Deus ex machina VII: muuuuuu


Ora bem, que montagem esquisita (no sentido duplo do termo) encontro eu aqui? Lendo à árabe, vejo o casal do amor discreto mas eterno e profundo ("Brief Encounter"), depois, o relacionamento tormentoso   assombrado pela morte de um filho ("Antichrist"), mais à esquerda, lá estão os patinhos feios que encontram o amor puro (e aproveito a oportunidade para deixar a minha homenagem a Ernest Borgnine, falecido há dias, e que fez filmes bem melhores que este "Marty") e, no último still, vejo... uma vaca - como aquela que ri e vende queijos ao mesmo tempo - que nos aparece tristemente só "no quadro", o que dentro desta montagem sine manu facta poderá querer dizer que está livre e "à procura de parceiro". "Muuuu liga, vai."

sábado, 3 de dezembro de 2011

Melancolia e Lars von Trier: por um cinema do risco

No post sobre o mais recente filme de Cronenberg escrevo que "gosto do risco". Como tal, não alinho minimamente com quem tem gasto o seu latim a desmerecer as últimas obras de Lars von Trier. Acho que o realizador dinamarquês está em grande forma, sem receios ou meias tintas em abrir caminhos novos no seu universo sempre a tender para o Apocalipse. Esta espécie de "Solaris na Terra" sobre a depressão humana como estado metafísico não é excepção.

Faço eco de duas reacções, nas quais me revejo, a este épico wagneriano sobre o fim do mundo, teorização plástica sobre uma "imobilidade em movimento". Cito o Carlos Pereira e o Carlos Natálio conscientemente em contra-corrente com a lamentável recepção da crítica portuguesa ao filme - que choca, aliás, com o seu deleite snobe pelo molengão filme de Cronenberg.

Admito que não gostem do Von Trier, mas se há realizador que se expõe no presente é ele (a alma na obra, já dizia o Dreyer e muitos dos grandes). Mais: "Melancholia" tem uma estrutura narrativa tão impressionante e cirúrgica como poucas no cinema contemporâneo, algo que os seus detratores pura e simplesmente irão ignorar em virtude de julgamentos morais ou debates inconsequentes sobre sequências arty. Começar com um casamento falhado é falar sobre a impossibilidade de vínculo, e ao acabar com o mundo de forma tão seca (e primitiva) deixa-nos um filme "definitivo", consciente da sua mortalidade e da mortalidade dos homens. Uma última imagem, uma última respiração. E que espantosa direcção de actores. Kirsten Dunst parece ter comido a alma fatalista de Von Trier antes de cada plano e arranca um dos melhores nus do cinema. Como aquele miudo do "Yi-Yi" que tirava fotografias às nucas, Von Trier devolve-nos o outro lado da nossa verdade. Os espelhos são dificeis. Para mim, o acontecimento do ano e um dos grandes filmes do mundo.

Carlos Pereira, blogger do Stranger Than Paradise em comentário no Facebook.

(...) [A]rriscamos uma comparação, que Lars von Trier seja uma espécie de Schopenhauer do cinema contemporâneo. No final da sua vida, o filósofo alemão pôs um pouco de parte os pensamentos sobre a dor desta vida e a morte e suicídio como únicas soluções, para depois abraçar Deus. Lars von Trier ainda é novo, mas conhecida a sua evolução enquanto cineasta, há já vários anos a filmar o fim - o fim das relações, dos países, das expectativas e desta vez o fim do mundo - perguntamo-nos: o que virá depois do fim?

Para já apenas um genérico.


Carlos Natálio, in blogue Ordet (leia o resto aqui).

domingo, 13 de novembro de 2011

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

História de amor e saúde (existencial e profissional)

Lars von Trier, "Antichrist" (2009)

Não era a diferença de idades - cerca de dez anos -, o problema era aquilo a que se poderá chamar diferença de saúdes. Theodor, sendo médico, mais do que saudável (homem robusto e repleto de energia) era ainda alguém que exigia a saúde ao seu lado, quer profissionalmente - era essa, aliás, a sua missão: o médico exige saúde aos seus pacientes, impõe-na mesmo, através de medicamentos, operações, etc. - quer existencialmente, se assim se pode dizer. Ele queria - desejava - a saúde ao seu lado, à volta, encostada a ele.

Gonçalo M. Tavares, Jerusalém (2004) - obra inserida na série O Reino -, Caminho, 2008, p. 57

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Etiqueta boboniana do cinema

9. "Foi uma traição a mim mesmo: durante anos elogiei Lars von Trier, pelo arrojo das suas experiências Dogma, pela profundidade e mordacidade que incutia em cada história, nunca tinha visto nada como "Ondas de Paixão" ou "Idiotas". Dei 4s e 5s a grande parte da sua obra até... ficar fora de moda. Foi a Palma para "Dancer in the Dark" que me fez ceder à pressão de grupo. Não podia continuar a gostar dele, não podia continuar a aceitar a sua "moral", mesmo se a tivesse aceite e posto nos píncaros em tempos idos. Comecei, furiosamente, com as bolas pretas e as estrelinhas solitárias, tipo esmola para pobre. Vomitei o discurso chapa 2 do "a arrogânica, o cinismo, o aquilo e aqueloutro" de Trier em "Dogville", escusando-me a ver nele uma das mais complexas e audazes parábolas sobre a América "Polícia do Mundo" de W. Bush e amigos [por falar em cinismo...]. Subi na vida, comprei uma casa nova, casei-me e fui promovido a editor-chefe. Arrependo-me? Claro que não." (Excerto de "Diário de um Crítico de Cinema" de autor desconhecido, pp. 120)

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