terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Recorte de falas (XI): Vai~e~Vem

João Vuvu, familiar de João de Deus (ambos encarnados por João César Monteiro), ouve o desabafo da sua amiga, a actriz wannabe de nome Jacinta (Rita Durão) que desabafa sobre uma experiência pouco satisfatória que teve no mundo da Sétima Arte. As meninas actrizes ouviam sermões que envolviam trocadilhos com grandes actrizes do ido star-system. A famosa diva sueca merece, aliás, o trocadilho do século. Mas o Excelentíssimo Senhor Director João de Deus tinha razão: sem o seu nome como objecto e o sobrenome como qualidade, não há quem se faça Actriz!

Jacinta: Depois dos minetes, éramos obrigadas à leitura de poemas. Horas e horas a fio, com as armas e os barões assinalados para trás e para frente. Que seca! Mas o pior era quando ele se punha a andar dum lado para o outro e começava a arrotar postas de pescadas, com maus modos: 'Só sabem é fazer olhinhos e pestanejar, julgando-se belas, talvez. É por estas e por outras que o cinema chegou ao estado a que chegou.' Nós começávamos a fazer beicinho e a ficar nervosas, completamente destroçadas. Era então que sobrevinha a fúria. Parecia fora de si, transfigurado os olhos raiados de sangue. Dava-lhe uma na veneta e descompunha-nos, em altos gritos: 'Nunca terão o garbo da Greta nem sequer a greta da Garbo!'

João Vuvu: Um tiranete pouco estimulante, em suma. E ao menos pagava?

Jacinta: Nunca vi cheta.


(Muito obrigado ao meu amigo Francesco Giarrusso, o maior experto em César Monteiro, pelo fino recorte.)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Errar (nu deserto)

"La cicatrice intérieure" (1972) de Philippe Garrel

"Gerry" (2002) de Gus Van Sant

[A inspiração de Van Sant não veio só de Tarr, como bem aponta um artigo da Les Inrocks, a propósito do lançamento (histórico, apetece dizer) do DVD de "La cicatrice intérieure" (destacado na última newsletter do CINEdrio), obra que Garrel filmou e protagonizou ao lado, nomeadamente, de Nico - como se vê pelo still escolhido, como se ouve aqui. É um acontecimento poder redescobrir este filme numa cópia que faz jus à majestosa fotografia e realização de Garrel. "La cicatrice intérieure" é um daqueles raros filmes onde - como nos melhores momentos de "Gerry" ou "Brown Bunny", como, antes, em "A Idade da Terra" de Glauber Rocha ou nos filmes de James Benning - a paisagem natural como que comunica, autonomamente, em ecrã próprio..., a sua nudez estonteante. Tanto no filme de Garrel como no filme de Van Sant, a câmara traça círculos, ou são as personagens que os traçam por ela, para compreender, a 360 graus, o espaço da Errância.]

sábado, 10 de dezembro de 2011

Cirrus (III)

James Benning, "Ten Skies" (2004)

Uma outra forma, mais rara, mas mais bela, surge quando uma grande parte do céu se apresenta como que coberta por uma grelha. Todos estes casos correspondem à designação de cirrus, tal como aquelas nuvens que pairam levemente e se atravessam à frente da lua.

Goethe, O Jogo das Nuvens, Assírio & Alvim, 2003, p. 37

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cirrus (II)

James Benning, "Ten Skies" (2004)

Outras vezes, porém, o céu parece que foi varrido, e as faixas leves de nuvens não têm uma direcção precisa, mas atravessam de forma estranha e aleatória a atmosfera mais alta. (...)

Goethe, O Jogo das Nuvens, Assírio & Alvim, 2003, p. 37

(Continua)

The Anger drive*

"Scorpio Rising" (1964) de Kenneth Anger

"Drive" (2011) de Nicolas Winding Refn

[Detestável: o moralismo pio - que já vinha do "Valhalla Rising" - em torno da relação do protagonista loiro, estupendo, "ariano" com a jovem igualmente loira, estupenda, "ariana" e o filho e marido hispânicos desta última. No fim, feitas as contas, são estes últimos que estragam, directa ou indirectamente, a pintura do filme e accionam o "anger drive" do "Driver", loner sem nome que é o que faz, que nunca complica - só descomplica -, que chega do nada e parte para o nada como uma personagem de um velho western. Atenuante: ao contrário do supracitado filme, Refn parece não levar muito a sério essa relação (etnicamente misericordiosa), quando põe o dono da garagem a parodiar o "drive" sacrificial do seu herói - "I know a lot of guys who mess around with married women, but you're the only one I know who robs a place to pay back the husband", desabafa a certa altura a patética personagem.
Notável: o update ultra-cool da estética 80's dos videoclipes, estética essa que também não é totalmente alheia ao cinema avant-garde de Kenneth Anger. Refn produz, desde os poderosíssimos minutos iniciais, a sensação de estarmos a ser transportados para o "lugar" de outro cinema - o de Michael Mann, o de John Flynn, o de Walter Hill, da noite e da cidade, dos revenge flicks, dos westerns "de rua" - mas simultaneamente também nos envia para o "tempo" de outro medium - da TV e do nascimento do teledisco.]

* - Será que devemos entender o título do filme de Refn como um verbo (to drive) ou como um substantivo (drive)? Eu ouso pensar que será interessante não descartar o segundo significado, e passo a citar uma das definições do dictionary.com: Psychology . an inner urge that stimulates activity or inhibition; a basic or instinctive need: the hunger drive; sex drive.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Deus ex machina IV: o quadro, a foto e a janela



Duas coisas me ocorrem:

Primeiro, que tanto a foto de Keaton em "The General" como o quadro (que, segundo sei, foi pintado a óleo sobre uma foto de Gene Thierney) de "Laura" são janelas abertas para um mundo de "significantes". Ao contrário do conteúdo "emoldurado", quase não queremos saber da moldura... mas ela está lá, perfeitamente visível.

Segundo, que a janela verde de "The Passenger", por estar fechada, nos remete para o que está para lá do verde, isto é, no que a emoldura. Mas o quê? O que é a moldura? A janela parece um quadro verde pendurado sobre a parede caiada. Se há moldura, a moldura é o todo-filme. Podemos ser incapazes de dizer exactamente o que é e onde está "The Passenger", mas podemos assumir, sem vacilar, que ele serve para "emoldurar" aquela janela fechada.

Cirrus (I)

James Benning, "Ten Skies" (2004)

Cirrus

Mas sobe sempre mais o nobre impulso!
A lei dos céus do denso faz disperso.
O castelo desfaz-se em leves flocos,
Quais carneirinhos de lã cardada, em blocos.
E o que em baixo, sem esforço, assim nasceu
Seu fim vai ter nas mãos do pai do céu.

Goethe, O Jogo das Nuvens, Assírio & Alvim, 2003, p. 81

Como consumir as moles massas?

George A. Romero, "Dawn of the Dead" (1978)

O malogro do movimento estudantil [saído do Maio de 68] demonstrara que as massas estavam de tal modo imersas no consumismo e no apolitismo, que era impossível despertá-las tanto pela educação como pela tomada de consciência classicamente políticas: impunha-se uma intervenção mais violenta para lhes abrir os olhos, para as curar da sua insensibilidade ideológica, para as despertar do seu consumismo hipnótico. Só intervenções violentas e directas (como explosões nos supermercados) podiam realizar essa função.

Slavoj Žižek, Bem-vindo ao Deserto do Real (2002), Relógio D'Água, 2006, p. 25

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Newsletter #10: Paradjanov

Festejando a marca recentemente alcançada das 100 subscrições - obrigado a todos! - vamos fazer com que 2012 comece em grande. O nosso herói de Janeiro será o cineasta soviético Serguei Paradjanov, conhecido pelo exotismo das suas propostas estéticas, cinema "puxado pela raiz" que é verdadeiro caleidoscópio telúrico e ancestral que faz da tradição e das lendas da cultura arménia e ucraniana um grito de guerra contra a opressão do super-regime soviético. Custou-lhe a liberdade, mas não o espírito libertador, que sobreviveu - e como sobreviveu! - à Situação.

O primeiro mês de 2012 também contará com algumas descobertas importantes no mercado livreiro e de filmes. Desde logo, Andy Warhol, Bill Viola e Andy Goldsworthy serão mostrados em edições raras, que descobrimos no mercado internacional. Redescobrimos alguns dos melhores packs do mercado francês a preço reduzido em novas paragens. Sayles e Skorecki - este último, em livro e em filme - merecem também um esforço de "investigação" da nossa parte. Mais filmes serão desenterrados e divulgados, em primeira mão, pela nossa publicação.

Os dois volumes sobre o cinema português, da autoria de Leonor Areal, outro trabalho de investigação de Paulo Miguel Martins, novas publicações da Cinemateca (sobre Rouch e Murnau) e muito muito mais livros farão parte das recomendações do mês.

Em exclusivo, convocamos o nosso "grupo de sábios" para fazermos o balanço deste ano que está no fim.

Das rubricas habituais, entrevistamos o Tiago Costa, interrompemos e filtramos o zapping cinéfilo e fazemos nova crónica da "loja do mês".

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ERRATA Newsletter #9

Algumas gralhas detectadas: em Raridades, no texto, quando se lê Cicatrice intérieur deve-se ler, obviamente, intérieure (no feminino); deve-se ler "Esta ferida" e não "Esta cicatriz" na última linha; também em raridades (> leia mais), deve-se ler (Raymond) Depardon Cinéaste e não Departon Cinéaste.

Outro erro: o desconto na Caixa Ingmar Bergman, da MGM, presente na Amazon americana não parece ser aplicável a endereços não-americanos.


Pedimos desculpa por todos estes - e outros - lapsos e aproveitamos a oportunidade para agradecer a todos os que colaboraram nesta edição (especial Natal) da newsletter do CINEdrio.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Body art: sexy Franju

"Judex" (1963) de Georges Franju

"La piel que habito" (2011) de Pedro Almodóvar

[Acho, sempre achei, sobretudo desde "Hable con ella", que o caminho de Almodóvar tinha de ser este: a colagem ao série B. E um "pele contra pele" (sexy) com Whale, Ulmer, Feuillade e, sobretudo, Franju (o de "Les yeux sans visage" e de "Judex") cabe perfeitamente nesta luva, uma luva que é um plano de fuga, uma fuga - que, no fundo, não tem de ser um retrocesso - de um terreno já mais do que explorado por Almodóvar: o melodrama clássico sirkiano. Continuemos no cinema, fujamos a ele pontualmente, "gozemos" com ele, mas mexendo noutros corpos. Estes corpos. Vivos ou mortos. Vivos e mortos.]

sábado, 3 de dezembro de 2011

Recorte de falas (X): Heartbreak Ridge

Este pequeno panfleto para animar as tropas, o lado B do Clint Eastwood humanitário, rivaliza com "Full Metal Jacket" no que diz respeito ao mais puro e duro "jargão militar". Dito de outro modo: "Heartbreak Ridge" (1986) tem alguns dos mais "finos" diálogos escritos com os tomates. Um deles, dos mais, digamos, "impressivos", envolve o son of a gun, old school, duro de roer, tough as hell... Sarge Thomas Highway, o protagonista interpretado pelo próprio Eastwood. É ele que lança palavras como granadas contra a virilidade empedernida das altas patentes do exército. Sargeant Webster não é excepção.

Sergeant Webster: These retards couldn't fight their way out of a shit house.
Highway: That where you been keeping yourself lately?
Sergeant Webster: Major Powers and me are building an elite company of fightin' men.
Highway: Webster, the only thing you could build is a good case of hemmorhoids.

Melancolia e Lars von Trier: por um cinema do risco

No post sobre o mais recente filme de Cronenberg escrevo que "gosto do risco". Como tal, não alinho minimamente com quem tem gasto o seu latim a desmerecer as últimas obras de Lars von Trier. Acho que o realizador dinamarquês está em grande forma, sem receios ou meias tintas em abrir caminhos novos no seu universo sempre a tender para o Apocalipse. Esta espécie de "Solaris na Terra" sobre a depressão humana como estado metafísico não é excepção.

Faço eco de duas reacções, nas quais me revejo, a este épico wagneriano sobre o fim do mundo, teorização plástica sobre uma "imobilidade em movimento". Cito o Carlos Pereira e o Carlos Natálio conscientemente em contra-corrente com a lamentável recepção da crítica portuguesa ao filme - que choca, aliás, com o seu deleite snobe pelo molengão filme de Cronenberg.

Admito que não gostem do Von Trier, mas se há realizador que se expõe no presente é ele (a alma na obra, já dizia o Dreyer e muitos dos grandes). Mais: "Melancholia" tem uma estrutura narrativa tão impressionante e cirúrgica como poucas no cinema contemporâneo, algo que os seus detratores pura e simplesmente irão ignorar em virtude de julgamentos morais ou debates inconsequentes sobre sequências arty. Começar com um casamento falhado é falar sobre a impossibilidade de vínculo, e ao acabar com o mundo de forma tão seca (e primitiva) deixa-nos um filme "definitivo", consciente da sua mortalidade e da mortalidade dos homens. Uma última imagem, uma última respiração. E que espantosa direcção de actores. Kirsten Dunst parece ter comido a alma fatalista de Von Trier antes de cada plano e arranca um dos melhores nus do cinema. Como aquele miudo do "Yi-Yi" que tirava fotografias às nucas, Von Trier devolve-nos o outro lado da nossa verdade. Os espelhos são dificeis. Para mim, o acontecimento do ano e um dos grandes filmes do mundo.

Carlos Pereira, blogger do Stranger Than Paradise em comentário no Facebook.

(...) [A]rriscamos uma comparação, que Lars von Trier seja uma espécie de Schopenhauer do cinema contemporâneo. No final da sua vida, o filósofo alemão pôs um pouco de parte os pensamentos sobre a dor desta vida e a morte e suicídio como únicas soluções, para depois abraçar Deus. Lars von Trier ainda é novo, mas conhecida a sua evolução enquanto cineasta, há já vários anos a filmar o fim - o fim das relações, dos países, das expectativas e desta vez o fim do mundo - perguntamo-nos: o que virá depois do fim?

Para já apenas um genérico.


Carlos Natálio, in blogue Ordet (leia o resto aqui).

A Dangerous Method (2011) de David Cronenberg


Cronenberg diz que agora é ele que se adapta ao material que tem em mãos e não o contrário. É uma ideia com o seu quê de desconcertante para quem viu nele um dos universos autorais mais personalizados dos últimos tempos. O que se passa é que Cronenberg mudou de estratégia e essa estratégia é que agora Cronenberg, o realizador que jogava sempre no limite, é um "realizador estratégico". E pensa os filmes de dentro para fora e não de fora para dentro.

O que é que isso diz a um fã de "Videodrome" ou "Crash"? Bem, recorrendo ao senhor Freud, diz-me que o diagnóstico é simples: Cronenberg parece estar a reprimir Cronenberg; à procura de uma espécie de aceitação mais abrangente por parte de um público que este idealizou, diria, neuroticamente, como o seu "verdadeiro público". A mudança acontece sensivelmente desde "Spider", último filme onde senti que a psique tinha carne, onde senti que os fantasmas de Cronenberg passeavam, invisíveis mas não menos palpáveis, pelas "histórias feitas" que decidira adaptar ao ecrã. O que noto, desde "A History of Violence", é que o realizador canadiano parece estar "concentradíssimo" em realizar o seu "american dream fora do prazo": virou-se para o anonimato controlado, cirúrgico, impecalmente inafectado e inafectante afecto - e infecto - à ideia defunta de uma "gramática do cinema de género". O resultado é que, "A Dangerous Method"- falemos dele, já que ele não se cala - não é, como era "Spider", uma "mente" feita carne, mas sim uma mente esvaziada de qualquer corporalidade; uma mente, no limite, esvaziada de si mesma. O que resta é o vácuo existencial, a que Cronenberg se verga como um "velho funcionário de Hollywood", sonhando um sonho anacrónico, quase auto-flagelador por ser tão fina - quase inexistente - a sua consciência crítica.

Cronenberg virou as costas a Cronenberg. Viggo Mortensen, actor limitadíssimo, é o rosto mais visível do fracasso - voilá! algo visível neste novo Cronenberg ao serviço de Sua Majestade "A Indústria-das-suas-fantasias"! Neste "A Dangerous Method" - até o título, cheio de ironia fina, parece uma graçola espirituosa de mau gosto -, Viggo Mortensen interpreta um Freud dual, subtilmente revanchista e caricaturalmente básico, que, entre todo o falatório - textualmente muito didáctico, mas esteticamente liso e, de novo, sempre controladamente "entediante" -, até parece que se safa como uma verdadeira personagem. Mas, vejamos bem, a câmara só quer saber das neuroses do outro figurino, o senhor Jung, as suas taras amorosas pela paciente "irresistível" e as suas diatribes pequeno-burguesas com o mestre incompreendido. Na parte final do filme, ficamos conversados quanto ao louco desgosto amoroso que se vivia naquelas trocas de correspondência e relatórios (para)científicos entre médicos e dos médicos connosco espectadores - até porque, como fica patente, o diferendo entre Jung e Freud era coisa de classe, de raça ou de coração ou, ainda, de dor de cotovelo. O espectador foi enganado, mas nada de muito sério: ainda há lágrimas a derramar pelo amor proibido entre paciente e médico.

O plot básico, a que Cronenberg, o autor, nunca se poderia vender - ai jesus! tanto "ai jesus! não te partas!" que, do outro lado do ecrã, se ouve a ser mexido nervosamente com pinças! -, é prontamente "corrigido" pelo rosto e lágrimas finais de Jung, lágrimas que não comovem, lágrimas secas que celebram, vitoriosamente, a indiferença que provocam - ao que parece, para Cronenberg, a indiferença virou objectivo número um. O plot básico diria que esta é a história de um triângulo sentimental entre os pais da psicanálise e uma paciente, mas a coisa está tão escondida, tão controladamente recalcada que até parece ser mais alguma coisa do que isso - será? Cronenberg, realizador que agora joga xadrez com a banalidade, põe-se a jeito para ser elogiado por ter mudado sem ter, de facto, mudado! Que subtileza, que delicadeza, que mente! Eu, tal como não celebro a existência de qualquer coisa como chocolante-laxante (e cito um psicanalista), lamento, mas recuso-me a celebrar "Cronenberg, o anti-Cronenberg"!

Cronenberg vende, agora, a frustração do seu próprio cinema, porque isto não é cinema nenhum, quero dizer, é um "cinema de ninguém". O autor de "The Fly", outrora - e sublinho o outrora - grande leitor de McLuhan, transformou a viscosidade (protuberante, isto, é perturbada, leia-se, irregular e sulcada "na pele") numa acomodada assepcia estética (lisa, oca e reluzente). Como a história do pássaro no filme, Cronenberg precisa de se libertar de si mesmo, desesperadamente. Nem que, para isso, tenha de trocar todas as suas "velhas" obsessões por uma e apenas uma nova: a obsessão pelo vazio. Eu cá detesto o vazio e gosto do risco.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Quatro notas e um apelo sobre a newsletter do CINEdrio

Estamos contentes com a evolução da nossa publicação mensal sobre tudo o que há para saber em matéria de livros e filmes. O trabalho é, contudo, descomunal e, apesar de estarmos muito gratos por cada uma das 95 subscrições que reunimos até agora, passadas 9 edições da nossa newsletter, não deixamos de sentir que esta ferramenta não está a chegar a todos os interessados.

Este é um serviço que prestamos gratuitamente, com estes objectivos:

1. Achamos que a generalidade dos preços que se praticam no nosso mercado, claramente deficitário em quantidade e qualidade, está completamente desnivelada com o real poder de compra dos portugueses. O comércio online, como recentemente Nuno Galopim sublinhava, é uma alternativa excelente em tempos de crise: os preços podem ser substancialmente mais reduzidos e a variedade, bem como a qualidade, do que podemos encontrar é indiscutivelmente muito superior.

2. Muitos se queixam dos preços elevadíssimos das edições da Criterion ou de outras editoras de DVD/Blu-ray internacionais. A verdade é que esses são os preços que certos estabelecimentos comerciais praticam cá, porque o preço de um Criterion é, por norma, mais reduzido do que a maioria dos filmes que são vendidos, por exemplo, numa FNAC. É só procurar no sítio certo - nós queremos ajudar nesse sentido.

3. O que se publica mundialmente sobre filosofia, estética, cinema e fotografia vai muito para lá do que se possa pensar. Não achamos que faça sentido estarmos sempre a falar das mesmas obras, dos mesmos autores, quando o mercado, espanhol, francês, italiano, americano..., digo, quando o mercado mundial produz mensalmente novas matérias, autores, reedições, revisões críticas, descobertas de enorme qualidade. Queremos "actualizar" as vossas bibliografias pessoais.

4. O que ganhamos com tudo isto? Muita coisa. Não vamos dizer que é apenas o "prazer de ajudar", porque, convenhamos, não temos nem estatuto nem "vocação" para nos "vendermos" como filantropos. O que nos move então? Desde logo, sendo tanto eu como o Francesco doutorandos na área, pensamos que qualquer pretexto para inventariar o que vai saindo, nas duas frentes - livros e filmes -, será útil para a nossa formação académica. Por outro lado, a newsletter serve também para mantermos o contacto, ou conhecermos pela primeira vez, pessoas da área, que admiramos e, com isso, partilhar com todos as suas sapientes recomendações. Ao mesmo tempo - e esta é a razão principal -, ao constituirmos um grupo significativo de subscritores, pensamos que será extremamente interessante desenvolver uma forma de diálogo com o nosso público, com vista a estabelecer uma plataforma especializada de partilha de informação sobre todas estas áreas que nos são caras.

Face a isto, lançamos o apelo: partilhem esta iniciativa junto dos vossos contactos, para podermos crescer; para, no fundo, quando formos fazer o balanço neste fim de ano, tenhamos razões para sentir que, de facto, este projecto tem pernas para andar.

Para mais informações, temos uma AMOSTRA online disponível a todos os nossos leitores.

Assine a newsletter aqui. Repito: é totalmente grátis.

As sombras que lá habitam



W.G. Sebald, Os Emigrantes (2001), teorema, 2005, p. 114

(Acredito que os fantasmas, do cinema e da fotografia, isto é, os fantasmas da memória cimentam - e o verbo certo é mesmo cimentar - essa relação invisível - e invisível é o adjectivo correcto - entre a prosa de Sebald e o cinema poético de Erice. Esteja o primeiro a falar de um hotel abandonado numa vila francesa ou o segundo a falar de um antigo casino que era "motivo de orgulho da burguesia" nos princípios do século e que rapidamente foi tomado pela decadência e o esquecimento... até albergar - ou ser ocupado por - uma sala de cinema, espaço onde se celebram as sombras e a morte. E quando digo "celebrar" digo, exactamente, "dar vida a...")

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