quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Não, há limites para o Deus misericordioso

"Edge of Darkness" (1943) de Lewis Milestone

"Roma, città aperta" (1945) de Roberto Rossellini

Desperate Journey (1942) de Raoul Walsh


Decerto alguns dirão que estou a sobrevalorizar um filme datado realizado quase em modo automático por Raoul Walsh, servindo-se de ou sendo servido por uma das maiores estrelas da época na Warner: Errol Flynn. Não me espantam, por exemplo, as duas estrelas que Tag Gallagher dá ao filme - e decerto a sua argumentação passará por "censurar" o tal tom datado e, talvez, algo naive do filme face ao acontecimento histórico que procura traduzir (isto é, trair) na linguagem cinematográfica. Essa crítica faria sentido se não cometesse em si mesma uma injustiça ou não se pudesse descobrir neste filme um ponto de luz em direcção a um mais-que-possível humanismo walshiano. Estou, neste particular, a pensar na rapariga alemã (Nancy Coleman) que dá guarida aos militares americanos, eles que, em disfarces alemães, em plena "boca do lobo", lá vão conseguindo ir bem para lá dos objectivos da missão para a qual foram destacados. Antes de se despedir do herói (Errol Flynn) e seus companheiros, a rapariga pede a estes para passarem a palavra sobre todos aqueles que, como ela, arriscam a vida para combater internamente o nazismo - e em que condições desiguais! Flynn fala alemão, mas ela também fala inglês, contudo, despedem-se os dois com um auf wiedersehen. (Se esta foi "a despedida" no cinema, esta foi "a apresentação" na vida.)

Começa aqui a outra nota da "honestidade" de Walsh (há bocado falava em humanismo, não receio a palavra, mas agora vai esta em sua substituição). Se na maior parte dos filmes americanos sobre a II Guerra Mundial que se seguiram a este os alemães falam um "inglês com sotaque", aqui a língua não só é respeitada nas suas devidas fronteiras culturais e políticas como, por assim o ser, se torna num dos principais instrumentos de acção ou, na realidade, de dissimulação do/no filme. Em "Desperate Journey" temos então, como o título indica, uma viagem toda ela feita nas barbas do inimigo, por isso, os nossos heróis ou se calam para sempre - isso seria um filme mudo e, de facto, no começo temos cerca de 10 minutos sem diálogos... só com a acção das bombas e dos corpos - ou só falam entre si ou, fazendo uso dos dotes linguísticos do líder interpretado por Flynn, muito literalmente se mascaram de alemães. Esse será o primeiro grande "cavalo de tróia": a língua. O segundo é o trabalho sobre a aparência deste grupo de soldados ingleses e americanos, algo que se resolve deitando ao chão meia dúzia de alemães e fazendo da guerra motivo para um carnaval antecipado. A partir daqui, as peles estão completamente trocadas, até entre os soldados inimigos - um dos generais prefere falar inglês com o seu inferior, para não ser percebido pelos outros presentes.

Este jogo com as peles - e com a língua, esse importante "músculo" da acção (aviso: não fui eu que citei aqui Tarantino) - atinge o ponto culminante na sequência impressionante desenrolada na fronteira alemã, quando os falsos soldados do Eixo são recebidos por pai e mãe da rapariga resistente anti-nazi, que referi atrás. Esta não chega a tempo de os receber, pelo que serão os seus simpáticos pais a dar as boas-vindas a esses verdadeiros heróis de guerra da Aliança, dando-lhes de comer e trocando palavras de esperança sobre um futuro livre da ameaça nazi. (Aviso spoiler) Quando a rapariga chega e pergunta de imediato - olhando para a "suposta" mãe - "quem é esta senhora?", os nossos heróis são mais rápidos que o espectador a recuperarem do choque provocado por esta cilada tão perversamente maquinada (era preciso jantarem todos juntos e terem trocado tanta afecção?). Afinal, naquela mesa, os oficiais da Aliança vestidos de soldados do III Reich foram surpreendidos por dois velhotes que no trato e nas palavras se faziam passar por resistentes anti-nazis e pais da rapariga insurrecta, duas coisas que, pelos vistos, estes não eram (fim de spoiler).

Aqui, de facto, a dissimulação é uma simulação constante, a mise en scène do cinema está aqui também ela travestida pela mise en scène (dialéctica) da História: hoje amigos, amanhã inimigos? Não, agora amigos, daqui a 5 minutos inimigos. Ou pior: agora amigos, agora inimigos! De resto, Walsh é impecável a traçar o continuum da acção, não dando qualquer margem para descanso ao espectador... como depois Steven Spielberg veio a fazer, no tempo em que estava no pleno das suas capacidades. (Penso até que está na hora de voltar à fonte e não estou aqui a falar de Ford, mas de Walsh. Aliás, desde quando Spielberg é/deve ser mais fordiano que walshiano?)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

The Big Trail (1930) de Raoul Walsh



Para muitos, a obra-prima máxima de Walsh. Para alguns, um dos melhores filmes de sempre. "The Big Trail" ganhou nova vida recentemente (saído em Blu-ray/DVD em 2012, numa edição "de cinemateca", absolutamente imprescindível) com um restauro histórico, que repôs o filme no seu formato original: o "grandeur", em 70mm, criado por William Fox no sentido de formar um novo standard na fruição cinematográfica. A pontaria de Fox foi ter lançado este monumental filme, cujo formato obrigava a uma autêntica revolução tecnológica em todas as salas de projecção que o quisessem mostrar na sua versão original, no ano em que os Estados Unidos abriam falência: a Grande Depressão terá então ditado que o filme mais ambicioso da Fox em muito tempo, eventualmente a maior produção de Raoul Walsh, onde Big Duke surgiu no ecrã pela primeira vez como... John Wayne caísse no limbo dos clássicos esquecidos.

Essa é, em parte, a sina de um cineasta como Walsh, hoje muito menos popular - mas não menos amado - que um Ford. Contudo, Walsh é dos raros cineasta que, graças à sua longevidade (morreu com 93 anos!), percorreu grande parte da história do cinema, de Griffith à eclosão dos novos cinemas. Apesar disso, devido talvez à pouca fixação num género e, quiçá, a todos estes contratempos conjunturais, como o de se lançar na "produção de uma vida" quando o país se definhava por dentro, para hoje falarmos de Walsh  temos de descer vários degraus na escadaria da popularidade encimada por um Ford ou até por um Hawks.

O que nos diz "The Big Trail" do seu cinema? O formato largo, mais de vinte anos antes do Scope, empresta ao filme a dimensão justa do seu particular olho fílmico. Walsh, como Ford, é um realizador espraiado no espaço, com um sensibilidade apurada para a acção e para o drama, com uma predilecção por narrativas viris sobre homens condenados a percorrer, física ou existencialmente, longos percursos com vista a se fixarem algures - o típico settle down americano? Não há metáfora aqui, no caso de "The Big Trail",  já que fala da conquista do território americano pelos primeiros colonizadores brancos (settlers), partindo (à Griffith) de uma história de amor que se desenvolve ao longo de uma travessia épica que suspira por uma ideia de destino. É no sentido dessa fixação que a personagem de John Wayne se move nas paisagens mais agrestes, filmadas in loco fazendo uso de cada centímetro da imagem que parece esticar até ao infinito, superabundando em detalhes o olho do espectador mais destreinado. De novo, a escola Griffith está no sangue de Walsh. O próprio discurso arrebatado de Wayne, numa altura em que a expedição parece sucumbir às dificuldades meteorológicas e geográficas, remete para a ideia de uma nação em construção, em nascimento, que se elevou às custas da resistência do settler mais anónimo. Também aqui se equivalem o todo (a nação) e a célula (a criação de uma família como o grande "móbil" que fez mover multidões pelo espaço).

Mas, mais que o subtexto patriota (mas não patrioteiro), "The Big Trail" é uma experiência estética de uma potência plástica sem par. É raro encontrar uma superprodução desta magnitude - e, caros amigos, não há aqui truques de CGI, tudo aqui "aconteceu" de facto! - e com uma qualidade fotográfica tal que me leva a especular se "The Big Trail" não seria hoje o correspondente a um "O Canto dos Pássaros" de Albert Serra : cinema da e pela paisagem, cinema que busca na matéria da imagem a razão de ser primordial da sua narrativa. Por sinal, num dos extras da edição Blu-ray, um dos comentadores - não sei se era Tag Gallagher - referia-se a "The Big Trail" como um grande filme experimental (ou terá sido um "filme experimental em grande"?). Eu sei que se referia ao pioneirismo (termo útil aqui) no uso do formato "grandeur", mas eu atrevia-me a alongar mais essa conclusão e olhar de novo para o clássico "The Big Trail" como o cume, muito à frente do seu tempo, do "experimentalismo" moderno.

Ligação directa à pala de Walsh (VI)


No último mês de Dezembro, a produção foi variada. Sugiro começar pelo fim: "Meghe Dhaka Tara"/"The Cloud Capped-Star", o magnífico filme de Ritwik Ghatak foi o primeiro filme falado de 2013. Se este acabou por ser o primeiro post do novo ano, decidimos encerrar o anterior abrindo uma nova rubrica chamada "Actualidades". Através dela, eu e o Ricardo Vieira Lisboa fizemos o levantamento dos principais acontecimentos de 2012, mas sob a luz do cinema. Foi também em Dezembro que publicámos o inevitável Top10 do À pala de Walsh - qual foi o melhor entre os melhores? Veja tudo aqui. Outro post festivo - com boas doses de ironia - resultou numa Sopa de Planos para pobres, mas cheia de espírito natalício - porque, por pouco papel que haja, Natal é sempre Natal.

Escrevi ainda o texto sobre "Vertigo", obra-prima intemporal de Hitchcock que foi recentemente reposta em sala por iniciativa da Midas Filmes. Aproveitei ainda para lançar com o João Lameira, finalmente, a nossa entrevista a Lisandro Alonso. Antecipando a sua exibição na Cinemateca Portuguesa, tentei "rever em alta" o delirante "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" de José Mojica Marins, um óptimo pretexto para se reavaliar o lugar deste autor na história do cinema moderno.

Dezembro foi também mês de filme raro. A minha escolha foi, na realidade, uma descoberta recente, que marcou profundamente o final de 2012: a trilogia de Nova Iorque do cineasta norte-americano Peter B. Hutton. Leia e divulgue. Por fim, e acabando onde comecei, escrevi mais um "episódio" da minha Civic TV, desta feita, devotado ao zapping do futuro através do filme conceptual de Mike Figgis "Timecode", que por diversas vezes tem passado na televisão portuguesa. 

Nesta ligação em directo, tenho ainda de chamar à atenção para o primeiro post da nossa mais recente colaboradora, a Helena Ferreira. O que o motivou foi a excelente retrospectiva na Culturgest dedicada ao cineasta taiwanês Edward Yang, mais especificamente a sua obra-prima "A Brighter Summer Day". Porque qualquer espaço de cinema tem obrigação de preservar a memória do cinema e respeitar os seus mestres, tomo a liberdade de reconduzir para aqui as palavras que o Francisco Valente escreveu a propósito do desaparecimento físico de Paulo Rocha e da imortalidade da sua obra, a começar por aquele que será, quanto a mim, um dos filmes maiores da história do cinema português: "Os Verdes Anos".

Em Janeiro, com o João Lameira a cargo da edição, teremos mais reflexão, brincadeiras e exclusivos. Esteja atento e comente.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A Angústia do Blogger Cinéfilo: os concorrentes (I)

Still de "La messa è finita" (1985) de Nanni Moretti

O período de candidaturas está fechado e as equipas que irão alinhar na segunda edição do torneio interblogues A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty já se treinam em campo.

Antes de irmos às apresentações das mesmas, o juiz convoca as equipas e seus "managers" para tomarem notas das seguintes indicações:

1. Para a boa organização do evento, é importante que cada um dos concorrentes publique nos seus blogues a imagem da respectiva equipa mais o texto a justificar cada uma das opções - há equipas que poderão ganhar jogos mais por causa da dinâmica do grupo do que pelo valor das individualidades, pelo que o embate de palavras não deve ser descurado. Para além dos jogadores, poderão, a título facultativo, indicar o treinador (que não terá de ser um "autor no activo") com o perfil mais indicado para pôr as vossos galácticos na ordem. (O CINEdrio FC irá fazê-lo em actualização futura no seu post aqui.)

2. Se a imagem não corresponder à equipa que descreveram em comentário, por favor, deixem aqui comentário a dar conta do que está mal ou em falta. Rapidamente, poderei rectificar a disposição das peças em campo ou outro tipo de distracções eventualmente cometidas.

3. O sorteio dos quartos-de-final será realizado na próxima sexta-feira (dia 4 de Janeiro). As sondagens (para a votação  dos adeptos) serão imediatamente publicadas no post que irá anunciar os primeiros jogos, pelo que todos os concorrentes terão de publicar em post a imagem com a sondagem respeitante ao vosso jogo, sem se esquecerem (por uma questão de fair play) de fazerem ligação ao texto com as justificações do adversário. Pela mesma ordem de ideias, também deverão publicar, nesse postlink para o post do CINEdrio onde estarão todas as sondagens disponíveis para votação (recordo aqui o mesmo post relativo à edição do ano passado). Aí, também sugiro que façam uma pequena antevisão da partida, pesando as principais virtudes e os principais defeitos do vosso contendor.

Fixadas estas regras, importa agora avançar para a primeira apresentação em campo das equipas de sonho, representativas da "política desportiva" de uma boa fatia da comunidade blogger cinéfila.







Equipa Dial P for Popcorn


Equipa Narrador Subjectivo


Equipa A Sombra do Elefante


Equipa Keyzer Soze's Place


E ainda....

Equipa CINEdrio


Já sabe: na próxima sexta rolam os dados. Alguma equipa favorita a vencer a competição? Algum "perdedor" à partida? Algum duelo que gostariam de ver ditado pelo sorteio? 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Prémios CINEdrio 2012

Com os dez mais identificados, parto para os prémios CINEdrio deste ano.

Melhor filme: "O Cavalo de Turim". Já disse quase tudo aqui, por isso, apenas me resta sublinhar melhor esse lugar que é seu e só seu por direito próprio: o de obra-prima do ano. Aqui está um monumento ímpar erigido com recurso à mais depurada das linguagens fílmicas e que leva ao limite as potencialidades estéticas do plano e da duração cinematográficos.

Melhor realização: Béla Tarr. Despediu-se do cinema com "O Cavalo de Turim", o seu filme maior (talvez superior a "Tango de Satan") que, em sala, devolveu ao cinema a sua dimensão de "coisa experienciada" mais do que de "coisa percepcionada". Foi, na minha opinião, a grande resposta à espectacularização oca que Hollywood tem promovido com ferramentas tantas vezes inconsequentes, como o 3D. Na sala escura, nessa "caverna platónica", Tarr usou como ferramenta a própria linguagem do cinema, o seu ADN mais "primitivo", mais "primeiro". O resultado é para receber com espanto.

Melhor plano: O que abre "O Cavalo de Turim". Sobre ele, escrevi: "Não se trata (...) apenas do plano de uma carroça, porque, para isso, Tarr teria optado por filmar o conjunto (homem mais cavalo). O que o realizador húngaro faz é mostrar um cavalo e um homem, o que só é possível, precisamente, através do gesto do plano contínuo que alterna entre os dois, o cavalo mais o homem e o cavalo (= carroça). Aqui reside, em toda a sua pungência plástica, a gravitas cosmológica da câmara de Tarr: ela gravita em torno dos corpos, como astros em torno do sol, indiferente, enfim, ao peso cultural e humano das coisas, aproximando-se portanto de uma ideia ontológica significativa: o plano deve ser mesmo plano, como a realidade que nos aparece à frente, o que não quer dizer que destituída de profundidade e da tal... gravitas - esta emana, naturalmente, das pessoas como dos animais como das coisas... a câmara deve apenas planar no tempo e no espaço para captar esta Verdade."

Melhor actor: Denis Lavant ("Holy Motors") em ex aequo com Jack Black ("Bernie"). O primeiro foi o grande "personificador" do ano, uma espécie de corpo re-ligioso que opera sobre o real um pouco fazem os media: "enchendo" os vazios, os espaços deixados vagos, os papéis que urge representar. O stuntman do real ou o metteur en scène burlescamente primordial, Lavant é o rosto dos rostos ou os rostos do rosto de "Holy Motors" e de 2012. Tudo, claro, pela "beleza do gesto". Já Jack Black desmonta a hipocrisia da lei, da moral (e) da comunidade onde vive através do seu carácter, que é oferecido a todos numa transparência ou candura (quase) absoluta. Será que um anjo pode ser um "bom anjo da morte"?

Melhor actriz: Rooney Mara ("The Girl With the Dragon Tattoo"). Descobri o seu talento em bruto em 2012 - e se bruto continuar, mais vezes merecerá a nomeação. Mara tem a roughness e a punkness no sangue... Não sei se primeiro veio o ovo ou a galinha, mas estou convencido que, neste caso, o papel e a actriz encaixam na perfeição.

A revelação: Markus Schleinzer. Primeira obra como realizador e sai o filme mais perturbante de 2012: "Michael". Mas, atenção: ao contrário do seu "tutor", Michael Haneke, Markus não inquina os jogos que faz com o espectador. Na realidade, "Michael" é um filme que quase abdica de qualquer jogo, estabelecendo-se desde o início como um filme "sem assunto": a pedofilia aparece inserida numa rotina "normalizada", cabendo em primeiro lugar ao espectador a tarefa de se lembrar a si mesmo que essa "normalidade" é uma impossibilidade humana ou uma "anormalidade"...  Muito difícil de ver, mas feito com grande habilidade.

A desilusão: Jeff Nichols ("Take Shelter"). Não que tenha caído com estrondo depois do excelente "Shotgun Stories", mas confesso que esperava muito mais. A segunda obra, da confirmação ou do desastre, pode ser o instante decisivo na carreira de um realizador talentoso. Neste caso, não houve nem  confirmação nem desastre. Talvez "Take Shelter" seja mais o filme que faça a ponte com o que aí vem, no sentido em que "adia" o que normalmente é provocado pela segunda obra. Vamos aguardar por "Mud", que já teve a sua estreia mundial - muito discreta, por sinal - no último Festival de Cannes.

Motel Memories (rewind traumático)

"Fool for Love" (1985) de Robert Altman

"Tape" (2001) de Richard Linklater

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Os melhores de 2012

Confesso que na elaboração deste Top senti de imediato a frustração de não poder incluir "Killer Joe", passado que está mais um ano sobre a sua primeira exibição em Portugal (no Lisbon and Estoril Film Festival não deste ano mas do anterior). A exibição do "escandaloso" filme de Friedkin continua a sofrer sucessivos adiamentos, o que só demonstra a incapacidade das distribuidoras para acompanharem em ousadia o percurso dos cineastas mais corajosos do momento. O próprio Friedkin assumiu este ano na Cinemateca Francesa que este filme era "tudo ou nada" para ele; que estava consciente de que "Killer Joe" poderia acabar de vez (vitimar, por assim dizer) a sua carreira no cinema. Os empresários do mercado de distribuição parece que não quiseram dar essa hipótese ao autor de "Bug", o que é, de facto, uma pena. Pena maior talvez foi não ter visto no circuito comercial duas obras-primas que passaram em contexto de festival: "The Innkeepers" de Ti West e "Everybody in Our Family" de Radu Jude. Se qualquer um destes três filmes tivesse estreado, o meu Top seria muito diferente (para melhor).

Posto isto, também quero deixar uma nota sobre a descabida estreia "direct-to-DVD" (ou "direct-to-TV") de "Pa negre" de Agustí Villaronga. Face à quantidade de porcaria que passou pelas nossas salas, pergunto-me como não foi possível ter havido espaço para mostrar aquele que terá sido o filme espanhol do ano, o regresso de um cineasta que já assombrara o público nacional (em sala, por sinal) com "El mar". (Adenda do dia 27 de Dezembro: depois de visto "Guerra Civil" de Pedro Caldas, estreado também na RTP2, perguntava não às distribuidoras, mas à Sociedade Portuguesa de Autores, como pode ser possível que "barre" a distribuição comercial de um filme com esta pujança e com esta pungência?!)

Outro registo menos bom, que não sei se será da responsabilidade das distribuidoras, é a qualidade baixa deste ano cinematográfico. Coincidiu (ou então adveio disso) que foi dos anos em que vi mais filmes estreados em sala (mais de 70), dos quais recomendaria com algum entusiasmo cerca de 30, mas dos quais apenas 13 ou 14 consideraria obras de relevo, que merecerão a nossa atenção em futuras (re)descobertas ou já marcaram em definitivo a vida cinéfila. O mais marcante foi "O Cavalo de Turim", a obra-prima de 2012 que não deu hipóteses nenhumas à concorrência. Todavia, tenho de alertar que não consegui ver os últimos de Oliveira, Akerman, Ceylan e Chabrol. (Desconfio que, pelo menos, o filme do centenário realizador português teria muitas possibilidades de integrar este elenco de excepção.)

1. "A torinói ló" de Béla Tarr


2. "4:44 Last Day on Earth" de Abel Ferrara

3. "Cosmopolis" de David Cronenberg

4. "Tabu" de Miguel Gomes

5. "The Girl With the Dragon Tattoo" de David Fincher

6. "Moonrise Kingdom" de Wes Anderson

7. "Kiseki" de Hirokazu Kore-eda

8. "The Hunter" de Rafi Pitts

9. "Michael" de Markus Schleinzer

10. "Hors Satan" de Bruno Dumont / "Holy Motors" de Leos Carax

Bom Natal a todos!

Bem, a todos, sim, mas SOBRETUDO aos leitores do CINEdrio, os mais especiais do mundo.

Mais um Natal de "partilhas" que aqui se vence em família.

Still de "'R Xmas" (2001) de Abel Ferrara

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Os rostos de 2012

Figura do ano (internacional)

Béla Tarr

Despediu-se do cinema com uma obra-prima sem par, um daqueles filmes que se arrisca a lançar todo o resto de 2012 para o buraco negro do esquecimento. "O Cavalo de Turim", que graças à MIDAS Filmes pôde ser apreciado em sala (o único sítio possível para o ver) pelos portugueses, não é só o maior filme deste ano, é também um dos maiores filmes de todos os tempos. Aqui no CINEdrio dediquei-lhe 9 pontos de análise, o décimo está guardado para um artigo que sairá em breve na revista CineCachoeira da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. A figura internacional de 2012 premeia, assim, a despedida genial de um grande realizador de cinema. 

Figura do ano (nacional)

Miguel Gomes

É inevitavelmente o grande nome do cinema português da actualidade. Nesta época de balanços e tops o que é difícil é não encontrar "Tabu" entre os melhores. Os Cahiers du cinéma (8.º lugar) iniciaram a onda que tem sido cavalgada por várias publicações, desde a britânica Sight & Sound (2.º lugar) até, mais recentemente, aos americanos da Film Comment (11.º lugar). Os ingleses são, de facto, os maiores entusiastas, tendo o London Film Critic's Circle nomeado "Tabu" para o prémio de melhor filme estrangeiro do ano, ao lado de títulos como "Amour" e "Holy Motors". Também é na Grã-Bretanha que este filme será lançado em Blu-ray, no dia 14 de Janeiro, pela mão da New Wave Films. Penso que ainda não ouvimos tudo acerca deste que é mais um grande filme de Miguel Gomes, que se junta assim aos seus outros excelentes filmes: "Aquele Querido Mês de Agosto" (para mim, o melhor) e "A Cara Que Mereces" (já para não falar de algumas óptimas curtas-metragens que realizou antes desta sua subvalorizada primeira longa). 

Muito cá de casa: balanço caseiro do ano de 2012

Tradições são tradições. Passado que está pouco mais que um ano sobre o balanço caseiro de 2011, é tempo de rebobinar 2012 e tentar deixar aqui uma amostra do que melhor vi no "pequeno ecrã". Tento replicar o critério utilizado nos últimos dois anos, pelo que não estranhem se numa ou noutra escolha não haja, na realidade, uma correspondente edição em DVD ou Blu-ray pronta a ser adquirida. Volto a sublinhar: o mercado, sobretudo agora com o reboot da alta-definição, é muito expedito a reeditar títulos famosos, mas, pelo contrário, arrisca pouco no lançamento de obras que precisam de ser vistas pela primeira vez. Colecciono e divulgo filmes, mas nem sempre o mercado é suficiente para responder à minha curiosidade em relação às obras que ainda não mereceram a atenção devida.

Jordan Belson


O que me trouxe à obra do cineasta experimental norte-americano Jordan Belson foi um texto de Gene Youngblood, «The Cosmic Cinema of Jordan Belson», publicado na revista Film Culture na Primavera de 1970. O que me atraiu mais foi a associação feita entre a trip cósmica de "2001" e as experiências audiovisuais de Belson. De facto, vendo por exemplo "Allures" e "Samadhi", entendi a comparação, mas descobri mais: um cinema puramente sensorial que consegue lidar com formas abstractas e uma impressionante palete de cores sem se tornar minimamente "pictórico". É, de facto, um mergulho no cosmos, uma experiência no limite do Absoluto. Retroactivamente, pensar em "The Tree of Life" de Malick parece-me inevitável ante a monumentalidade destas imagens miraculosas. 

Peter B. Hutton


Peter B. Hutton terá sido "a descoberta" de 2012. A sua trilogia de Nova Iorque e o seu retrato de Budapeste produziram em mim um sentimento de assombramento despertado em cada plano, em cada fade out repentino (e há verdadeiramente um "Hutton's touch" nestes "blackouts" súbitos, como no grão do seu preto-e-branco matérico) ou em cada traço novo produzido a partir do (des)velamento de uma paisagem "comum". É o triunfo de um verdadeiro "olhar de cineasta" sobre o mundo.

Hotel Monterey


O segundo filme de Chantal Akerman, realizado quando tinha apenas 22 anos, provocou em mim um trauma do qual ainda não me recompus - e entretanto revi-o em sala, redescobrindo logo aí outro filme... É um filme feito com uma câmara que se movimenta - não certamente por si mesma - num cenário tão banal e universal como é um hotel de Nova Iorque, mas aí vamos percebendo que habitam fantasmas antes de habitarem pessoas. Quer dizer, os fantasmas aparecem-nos através da sua câmara, através do seu olhar - porque é ele, e não a câmara, que é específico e singular - sobre aqueles lugares... É um exercício sobre o tempo e o espaço com uma densidade estética e atmosférica terrivelmente hipnotizadora. A sua edição pela mão da Eclipse, numa caixa com outros títulos magníficos, é obrigatória para qualquer cinéfilo. 

Jalsaghar


Este "Salão de Música" de Satyajit Ray é um daqueles filmes que não existem, na realidade, não existe porque invoca imediatamente um lugar. É um lugar habitado apenas pela memória, uma memória traduzida pela música, mais concretamente pela reverberação de sons do passado que ainda encantam - e assombram - cada um dos recantos do grande salão caído no esquecimento. Experiência estética que faz de um clássico arco narrativo pretexto para a exibição das sonoridades mais ou menos secretas da música indiana, dada aqui a ouvir como música do mundo (não há exotismos, porquanto tudo isto nos toca). Um mundo cabe aqui no salão mágico, tal como o candeeiro de cristais cabe, reflectido, num copo de vinho. Terá sido o último Criterion que comprei em formato DVD, numa cópia impecável. Contudo, se puder arranjar o Blu-ray, ficará melhor servido.

The Leopard Man


Obra-prima absoluta que sintetiza tudo o que se deve saber em matéria de criação de atmosferas de terror. Jacques Tourneur, qual grande engenheiro do medo, compõe quadros de um preto-e-branco assombroso que, na sua sucessão, vão transformando uma historieta banal num trabalho de pura arte fílmica e, outrossim, de sedução e medo provocados pela indefinição dos seus mistérios mais escondidos... É o grande filme produzido por Val Lewton, obra que sobe mais alto que todas as outras na magnífica caixa editada pela Warner Home Video.

Man in the Wilderness


Richard C. Sarafian, para muitos reconhecido por ser o realizador de "Vanishing Point", foi o autor que mais me encheu as medidas neste final de ano. A sua magnum opus chama-se "Man in the Wilderness", filme com Richard Harris e John Huston sobre a fé, a Natureza e a luta pela sobrevivência de um homem traído pelos seus iguais. Algumas imagens são de uma beleza arrebatadora, mas o que fica é a viagem espiritual/a via sacra do protagonista e a comunicação íntima que vai estabelecendo com o meio natural que o envolve e interpela. Vi "Man in the Wilderness" e também o magnífico "The Man Who Loved Cat Dancing" numa edição da marca francesa Wilde Side Video, que recomendo também por causa da entrevista exclusiva a Sarafian que tem como extra (já a qualidade de imagem das cópias é algo discutível).

Les cousins 


Hesitei um pouco, mas este é o meu "Blu-ray de 2012" (seria "On the Bowery", mas já o destaquei, em DVD, no balanço realizado há um ano). Não falo só da qualidade da transcrição - que é óptima, de qualquer modo - mas acima de tudo do choque que foi o encontro com este filme de Chabrol, só o seu segundo filme, mas até hoje - a par de "Juste avante la nuit" - o que me perturbou mais. A forma como o registo do filme nunca estabiliza, entre a tragédia realista e a aragem livre e leve da Nouvelle Vague, é um dos elementos que me fez, simultaneamente, estranhar e entranhar este filme muito difícil de classificar. Jean-Claude Brialy compõe uma máscara poderosa que anula o rosto "sem máscara" - logo, desprotegido - de Gérard Blain, dois papéis imensos que aqui produzem uma espécie de reflexo invertido sobre o filme anterior - o primeiro - de Chabrol, "Le beau Serge" (também editado em Blu-ray). Vi "Les cousins" na edição Blu-ray da Gaumont, mas entretanto não faltam alternativas (ainda mais) simpáticas: edição da Criterion e, em breve, da Masters of Cinema. 

Milestones


Tendo sido a Cinemateca Portuguesa/ANIM responsável pelo restauro deste filme "esquecido" - mas muito amado por quem se lembra - de Robert Kramer e John Douglas, pergunto-me se não se perdeu uma grande oportunidade para uma distribuidora com coragem o lançar no circuito comercial. Não só isso não aconteceu, como também não foi em DVD que esta ficção documental ou este documentário ficcional chegou aqui a casa. Na realidade, foi pela mão da RTP2 que os portugueses puderam apreciar este monumento erigido a toda uma geração, aquela que, na América, fez a ponte entre os anos 60 e os anos 80. Fim de muitos sonhos - de uma certa ideia de liberdade - para o começo de uma outra vida, talvez, com menos sonhos - e, talvez também, com menos liberdade. 

O noir do ano


Aqui hesitei muito. Podia ter escolhido "High and Low" de Kurosawa ou, por exemplo, "Bob le flambeur" de Melville. Também havia a hipótese "The Big Combo" de Joseph H. Lewis, film noir que tem sido muito recuperado nos últimos tempos mas que me deixou um travo a decepção... Escolho, então, outro "filme grande" que tinha em falta, mas que não deixei fugir em 2012: "Touchez pas au grisbi" de Jacques Becker. Não é bem o típico film noir ou polar, diria que tende até mais para o gangster movie, uma espécie de "gangster movie de avôzinhos". Eis a visão (com a sua ponta de ironia) de um grupo de veteranos "senhores do crime" e a tentativa de um deles de procurar sair em beleza da "profissão de uma vida". Jean Gabin, o "herói", é excelente, mas o que gostei mais ainda foi a mise en scène de Becker, nomeadamente o seu gosto por pacientes "alternâncias de cenário" antes que o plot estale e chame a si todas as atenções. Muita classe.

After Shyamalan (II)



Ok, acho que já percebi. O trailer do mais recente filme de M. Night Shyamalan esclarece algumas das dúvidas, por sinal muito pouco entusiasmantes, que tinha quando fiz aqui mesmo uma primeira antevisão, baseado nas informações disponíveis sobre a história do filme e o seu "teaser viral" pouco convincente - e revelador.

O que percebi é que haverá, seguramente, uma dimensão política nesta história projectada no futuro... aliás, a dimensão política começa precisamente com a falência dessa projecção: parece que Shyamalan diz "aqui vem uma superprodução passada num futuro longínquo, ao qual nenhum de nós tem acesso, parepare-se o espectador para o mais impensável dos cenários fantasiosos alguma vez produzidos!" para depois, como um bom discípulo de Hitchcock, frustrar em toda a linha o prometido. A especulação - que é isso que Hollywood muitas vezes tem a oferecer, e pouco mais, dentro do género - é ferida de morte logo à nascença - para chegarmos a esta conclusão, basta espreitar o trailer. É que a projecção no futuro é uma (muito menos fantasiosa) viagem ao planeta Terra tal como o conhecemos quando não o podíamos... conhecer, isto é, antes do aparecimento do Homem. Na realidade, esta Terra pós-histórica, pós-humana parece coincidir com a Terra pré-histórica e pré-humana. A ficção científica futurista está, deste modo, falsificada - e é aqui, estou em crer, que Shyamalan irá politizar este seu mais recente filme.

Por outro lado, encontro alguns elementos visuais e temáticos recorrentes no seu universo autoral. Desde logo, a relação pai-filho e a forma como esta é "posta em xeque" por uma ameaça exterior, "alienígena". A ironia aqui é que parece que são pai e filho que são os aliens, isto é, os estrangeiros na Terra, que deixou de ser "a sua própria terra", o que volta a convocar o tema religioso da "origem" e da "casa" no seu cinema. Os "aliens" deste filme não vêm "from outer space", nem tão-pouco de histórias míticas, mas de uma Natureza regressada à sua feição mais selvagem. Daí (re)encontrarmos grupos de macacos, águias e outros animais "ancestrais" do seu cinema - e já aqui tinha especulado sobre a importância da iconografia hindu no seu cinema. 

Não estou tão desalentado e desconfiado como já estive. Este trailer devolve-me bons indicadores quanto ao caminho que Shyamalan está a querer percorrer com este filme, no qual terá tido menos controlo artístico do que é costume. Vamos continuar a segui-lo, até porque esta será, sempre, uma das principais estreias de 2013.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Limbosine

"Cosmopolis" (2012) de David Cronenberg

"Holy Motors" (2012) de Leos Carax

(Incorrerá numa contra-ordenação gravosa o expectator que olhar para um sem querer ver o outro.)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Newsletter do CINEdrio procura novo redactor


Parece - eu sei que sim... - mas a Newsletter do CINEdrio não está esquecida pelos seus redactores. (Aproveito a oportunidade, aliás, para agradecer a todos os que continuam a subscrever a publicação, mesmo nestes meses de inactividade.) Simplesmente, citando Sontag/Benjamin, "o tempo não dá tempo" para a elaboração dessa folha informativa que exige muita dedicação, sobretudo se queremos - e queremos! - manter ou mesmo aumentar a qualidade das edições anteriores.

É pela falta de tempo que a todos os coleccionadores, de livros e filmes, a todos aqueles que gostam de escrever, sobre livros e filmes, endereço o seguinte desafio: venha ocupar a "cadeira do sonho" no âmbito das publicações de divulgação do (pensamento do ou em torno do) cinema. O que tem de fazer para isso? É simples: envie um mail para Alfred_Hitchcock@hotmail.com, com a sua identificação, um texto crítico ou de divulgação que tenha escrito e que se inscreva minimamente na área temática da Newsletter e uma nota de intenções (onde poderá dizer em que rubrica estaria mais à vontade: lançamentos DVD/Blu-ray, livros ou "herói do mês"). Se não tem material produzido na área, poderá apenas enviar a nota de intenções, com a sempre necessária identificação.

Eu e a restante equipa da Newsletter iremos, depois, seleccionar o novo redactor.

Estamos a preparar o grande regresso, mas para isso o contributo - que pode ser seu - será decisivo, atendendo às nossas presentes limitações. Não se coíba de enviar a sua candidatura, estamos abertos à diversidade e à novidade.

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