domingo, 7 de novembro de 2010

Rio Bravo (1959) de Howard Hawks (I)


Sempre adorei "Rio Bravo", mas revê-lo hoje, passados alguns anos sobre o primeiro visionamento, é uma experiência superior. De facto, não só estamos num dos pontos mais altos da carreira de Hawks como temos um filme a provar uma coisa que parece escapar a muita gente: Hawks é um cineasta moderno. Fez, naturalmente, alguns dos melhores filmes clássicos, nomeadamente, fundando o género da screwball, mas é em 1959, quando o modelo clássico (griffithiano) de Hollywood retraía-se face às novas vagas europeias e a um novo cinema independente que, dentro de casa, a contra-atacava, dizíamos, é em 1959 que Hawks faz a sua obra-prima. Não quero comparar o feito alcançado com um "A bout de souffle"? Quero. Não quero comparar o feito alcançado com um "Shadows"? Também quero.

"Rio Bravo" sintetiza duas ideias, a meu ver, inovadoras para a época: primeiro, uma desarrumação da ideia de plot em três actos provinda da Hollywood clássica e, segundo, complementarmente, um filme construído todo a partir das suas personagens - para quê um Monument Valley, muitos índios e cowboys, se se tem para filmar a beleza inefável de Angie Dickinson? Não há um plot visível em mais de 2 horas de filme: que diferença substancial há entre o primeiro minuto e o último? Digamos que aquilo que Ford contaria em 10 minutos de filme, Hawks conta em 2 horas, seguindo a ideia de um cinema em continuum, quase em tempo real, sem compromissos com qualquer género pré-estabelecido ou receita popular.

Há um cerco e há personagens sitiadas que têm de viver com ele até à chegada do US Marshal que leve o encarcerado tão cobiçado (aqui há um deadline claramente hollywoodesco, mas não é usado para efeitos de suspense ou last-minute rescues hiperdramáticos, leia-se, hipermorais, no final). O que se passa entre o início (in media res) e o fim é personagens em co-habitação. Elas não deixam de dormir (assunto 1), não deixam de comer e beber (assunto 2), não deixam de sofrer com o passado e amar no presente (assunto 1+2).

Tudo isto já estava em potência, por exemplo, no Hawks de "Only Angels Have Wings", mas nunca atingiu este grau de pureza e ousadia - ei, quem diz que "A bout de souffle" é o primeiro filme da Nouvelle Vague ou que "Shadows" é o primeiro filme do novo cinema independente norte-americano? Se diz você, permita-me que discorde (vide "La pointe-courte" ou "Little Fugitive", para o efeito). Hawks faz da decadência de um sistema em que estava inserido, e onde era orgulhosamente apenas mais um "tarefeiro", o pico da sua força: um cinema Do tempo e Do espaço, no fundo, Das personagens.

Como diz Luc Moullet, este é um cinema "da estagnação", característica que o próprio atribui à ideia de cinema moderno, na medida em que Hawks está muito menos preocupado com o plot do que com a exposição das personagens. É isso: "Rio Bravo" é mais de 2 horas de exposição. Claro que os vapores do cinema clássico estão aqui, mas é mesmo só isso: vapor. O corpo é sólido e inerte. Hawks não hesita nem mexe um dedo no modelo estilístico que o rege desde os primeiros minutos. É uma espécie de estado zen do cinema pós-clássico norte-americano, que é radical na sua absoluta falta de radicalismo.

Na parte II deste comentário passo a palavra a quem sabe.

4 comentários:

João Palhares disse...

É moderníssimo. Ele fê-lo contra a televisão, na altura, penso eu. E no ano da Nouvelle Vague, o Lang também fez uma espécie de "regresso progressivo" (eheh) com o épico Indiano. De resto, eu adoro as "reciclagens" temáticas do Hawks. O barco que e Jean Arthur tem que apanhar em "Only Angels Have Wings" e a diligência da Angie Dickinson, em Rio Bravo. Os diálogos. A Arthur, a Dickinson e a Lauren Bacall, em To Have and Have Not têm diálogos muito parecidos (iguais, em certas instâncias) mas são mulheres completamente diferentes. A personagem de Arthur é doce e como que desamparada, a Bacall é muitíssimo insolente e independente (a contracenar com o Bogart, tinha que ser) e a Dickinson é uma espécie de mistura das outras duas. O meu Hawks preferido é o Only Angels Have Wings mas o Rio Bravo é igualmente genial. É um marco.
Os filmes do Hawks são os que mais prazer dão rever...

Paulo disse...

Nunca o revi, mas o amor por este Hawks foi à primeira vista. Tenho que regressar a ele, e o teu texto abriu-me o apetite. Abraço.

Luís Mendonça disse...

Caro João Palhares,

Eu sou muito mais um hawksiano que um fordiano. O meu Hawks favorito é o "Bringing Up Baby", mas "Rio Bravo" é a sua obra-prima (historica e esteticamente) mais relevante, parece-me. Gosto muito disso que dizes: desse trabalho de corte e costura que é a obra do Hawks, uma espécie de obsessão por um certo ritmo de contar histórias, por um certo tipo de personagens...

Caro Paulo,

Fico contente que este meu comentário seja uma convite a que revejas este grande filme, que adoramos.

Eu sempre adorei "Rio Bravo", mas hoje adoro-o por novos motivos, o que significa que o filme envelhece bem... comigo.

Abraços a ambos,

Luís Mendonça disse...

Ah: não posso garantir a 100%, mas a segunda parte deste comentário poderá ser verdadeiramente magnífica! Estejam atentos! :)

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