"The Misfits" (1961) fala não tanto de "inadaptados" (como o título em português nos dá a crer) mas de "desajustados", peças fora da engrenagem, pessoas feridas tão profundamente que perderam qualquer sentimento de pertença. É, por isso, um filme assombrado pela morte, dentro e fora do ecrã. Dos cavalos selvagens que não merecem morrer, mas que parecem correr nessa direcção, a Clark Gable e Marilyn Monroe, duas estrelas que se apagaram tragicamente pouco tempo depois da rodagem deste filme muito intenso e pessoal de John Huston e Arthur Miller, ele que escreveu magníficos diálogos para a sua musa e (como lhe chamava) "anjo do sexo".
Nesta troca de palavras, Gay Langland, o cowboy crepuscular interpretado por Gable, volta do avesso a conversa com Roslyn, interpretada por Marilyn Monroe, lançando uma pergunta tão significativa quanto, afinal, fatalmente pouco reveladora das suas intenções ou de quem é. De facto, quantas pessoas ficámos a conhecer através das nossas perguntas dirigidas? Poucas ou nenhumas, já que é nas acções (incluindo o que se diz sem se ser questionado) que se avalia o carácter e se define a dimensão do Homem.
Gay: You don't have a business to run or a school to teach or a...?
Roslyn: Me? I've never finished high school.
Gay: Oh, well, that's real good news.
Roslyn: You don't like educated women?
Gay: They're all right... Always want to know what you're thinking, that's all.
Roslyn: Maybe they're trying to get to know you better.
Gay: Did you ever get to know a man better by asking him questions?
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domingo, 9 de setembro de 2012
domingo, 11 de março de 2012
Os vencedores da Primeira Copa A Angústia do Blogger Cinéfilo (VIII): a médio esquerdo

Faz todas as posições: westerns, filmes de guerra, thrillers, films noirs, melodramas, etc. Faz todas as posições muito bem? Nem tanto... mas se, por vezes, não foge à mediania ("African Queen" e "Key Largo" são obras sobrevalorizadas), noutros casos consegue brilhar mais alto do que a concorrência (há melhor film noir que "Maltese Falcon" ou "The Asphalt Jungle"? Não, não há. E "The Red Badge of Courage", não é um dos grandes filmes sobre os efeitos da guerra? É, pois claro... E não é "The Treasure of Sierra Madre" um Greed em versão western que "ensaia" brilhantemente sobre a febre do ouro negro? E "The Night of the Iguana", um dos maiores Tennessee Williams levados ao cinema? E...).
Há dias um grande treinador de bola chamado Quentin Tarantino afirmava categoricamente que não gostava do estilo de jogo de John Huston, mas depois o entrevistador perguntava "Então e "Maltese Falcon"?", "Bem, gosto, claro", "Então e "The Treasure of Sierra Madre"?", "Bem...". Huston é, de facto, nome subvalorizado do classicismo - e do pós-classicismo, tão bem que ele resistiu a esse "pós"! - norte-americano. Por tudo isso, pareceu-me bem tê-lo na minha equipa e prestar-lhe este pequeno - demasiado pequeno, diz-me a minha consciência - tributo.
Críticas:
O Cinema Revistado:
Tele-Visado:
Balanço do Ano:
Recorte de Falas:
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Pansignificação: a dream team do CINEdrio
O CINEdrio ficou com inveja e também quis ter uma "dream team cinematográfica". Não foi fácil, mas deixo aqui o resultado de um primeiro exercício mais ou menos improvisado de táctica autoral.

* - Não me leve a mal, caro leitor, mas as minhas referências futebolísticas vão ser encarnadas. A cor do meu clube.
E agora preciso de adversário. Quem me desafia? Digo: quem tem tomates para desafiar a equipa do CINEdrio? Hem?
(A ideia é fazer um pequeno torneio interblogues e escolher a equipa ideal por sectores... em sondagem aberta a todos e a publicitar entre os blogues participantes. Já temos algumas equipas a disputar. Participe!

À baliza: James Benning, o observador atento que vê (vir) cinema onde os outros normalmente apenas vêem (vir) uma "perda de tempo".
Defesa esquerdo: John Carpenter, à Fábio Coentrão*, faz o corredor esquerdo todo partindo bem de trás. (Quando fica cansado, entra o veterano Howard Hawks para o seu lugar.)
Defesa central esquerdo: John Ford, peso pesado do classicismo, com porte físico intimidante, o "patrão da defesa". Também faz a direita...
Defesa central direito: mais ágil, mas ainda assim, nome forte do neo-classicismo de Hollywood: Clint Eastwood. Também faz a esquerda...
Defesa direito: sem gigantismos, mas eficaz: Boetticher.
Médio defensivo: Eric Rohmer, bom recuperador e "desmontador" da dimensão primordial do cinema - e constante agilizador do verbo.
Médio esquerdo: John Huston, médio imaginativo que faz quase todas as posições (descontando a de guarda-redes). É o meu Rúben Amorim, mas joga...
Médio central (pivôt): o planificador-mor, o homem dos storyboards e das filmagens a tempo e horas que nunca falham: Alfred Hitchcock.
Médio direito: Anthony Mann. Uma vez sobe ele, com grande poder físico pelo lado direito, outras vezes, abre alas a Boetticher, em virtuosas combinações.
Avançado (esquerdo, esquerdíssimo!): Jean-Luc Godard, espécie de Saviola, rápido, imprevisível e, muitas vezes, genial, mas, outras vezes, algo apagado.
Ponta-de-lança: Stanley Kubrick, mais um Rodrigo do que um Cardozo, é implacável frente à baliza adversária - nada o detém.
E agora preciso de adversário. Quem me desafia? Digo: quem tem tomates para desafiar a equipa do CINEdrio? Hem?
(A ideia é fazer um pequeno torneio interblogues e escolher a equipa ideal por sectores... em sondagem aberta a todos e a publicitar entre os blogues participantes. Já temos algumas equipas a disputar. Participe!
Há regras?, pergunto eu a mim mesmo. Talvez, respondo eu a mim mesmo. Por exemplo:
1. Procurem publicar a vossa "dream team" (apenas os 11 jogadores) em comentário a este post - nem que só com um link. Eu irei anunciar as diferentes equipas em post futuro, cada uma disposta no campo verde usado pela minha equipa. Depois a ideia é cada blogger publicar a sua equipa e alojar link para a sondagem no seu espaço. Entretanto, ainda assim, não deixem de chamar amigos-bloggers para a peladinha!
2. Procurem não repetir jogadores e, caso o façam, procurem repeti-los em posições diferentes. Também sugiro que façam a defesa de cada escolha, em função do seu posicionamento em campo, das suas qualidades individuais e colectivas.
3 - Mais nenhuma regra, por enquanto.)
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sexta-feira, 22 de julho de 2011
Recorte de falas (VII): Beat the Devil
"Beat the Devil" (1953) tinha tudo para correr muito bem: John Huston na realização, Truman Capote no argumento, Humphrey Bogart, Peter Lorre e Jennifer Jones no elenco. O que falha então neste filme? Quase tudo, salvo a qualidade "literária" de algumas das suas linhas de diálogo e uma das personagens que as diz copiosamente: Mrs. Chelm, a inglesa esperta, imaginativa, ambiciosa, por vezes, capciosa, que tem todas as personagens na mão. É ela que "abre" o filme com uma tirada brilhante, dirigida ao grupo de trapaceiros que o protagonizam - como ela bem "pressente", um bando de desesperados em busca de fortuna fácil em África.
Gwendolyn Chelm: Harry, we must beware of these men. They are desperate characters.
Harry Chelm: What makes you say that ?
Gwendolyn Chelm: Not one of them looked at my legs!
Gwendolyn Chelm: Harry, we must beware of these men. They are desperate characters.
Harry Chelm: What makes you say that ?
Gwendolyn Chelm: Not one of them looked at my legs!
sábado, 5 de julho de 2008
The Asphalt Jungle (1950) de John Huston
“The Asphalt Jungle” (1950) é o filme perfeito para sintetizar a dureza, o músculo e o pessimismo do cinema de John Huston. Rotulá-lo de um mero heist movie (filme de golpe), é ficarmo-nos pela superfície na leitura desta destemida reflexão sobre a ganância e avareza humanas. Em “The Treasure of Sierra Madre” (1948), história trágica sobre três vagabundos que se canibalizam mutuamente na procura insana de ouro, Huston esticava a corda no retrato que fazia da condição humana: dizia-nos que os valores da honestidade, lealdade e bondade são pura retórica (bullshit) quando o que está em jogo é o poder do ouro e do dinheiro – o tal “vil metal” que cega o protagonista (Humphrey Bogart) e o leva à loucura.
“The Asphalt Jungle”, film noir sobre as sempre turbulentas relações humanas, não vai tão longe, mas é capaz de nos dizer que, no fundo, somos iguais aos seus protagonistas: o que nos move nesta vida não são os sentimentos puros, mas a satisfação egoísta dos nossos vícios. Num vídeo introdutório ao filme, o próprio John Huston, dirigindo-se ao espectador, alerta: “as personagens de “The Asphalt Jungle” não são admiráveis, mas penso que poderão fasciná-lo”. O mesmo é dizer: “prepare-se, a identificação com as personagens deste filme, ainda que imoral, é possível”.
Não tinham passado 24 horas sobre a sua libertação da prisão e o experiente “doutor” Erwin Riedenschneider (Sam Jaffe), um ultra-astuto assaltante de origem alemã, já estava pronto para negociar outro “golpe”. Dirigiu-se para uma das zonas mais obscuras da cidade – “eu não andava aqui com uma mala”, avisa o taxista que o conduziu - e fez a sua primeira proposta a um instável cobrador de apostas chamado Coddy (Marc Lawrence): “apenas” por 50 mil, garantia o sucesso de um assalto a uma joalharia, cujo tesouro escondido lhes valeria uma fortuna incalculável. A quantia, excessiva para Coddy, haveria de ser assegurada por um poderoso investidor aparentemente à procura de “dinheiro fácil”: o advogado Alonzo D. Emmerich (Louis Calhern).
Dix Handley (Sterling Hayden), aquele que faz o trabalho sujo, dando uso à sua tremenda força de braços, Gus Minissi (James Whitmore), homem de confiança (um defeito que lhe saiu tão caro quanto a corcunda que “carrega às costas”) e que é um condutor exímio, e Louis Ciavelli (Anthony Caruso), perito em mandar cofres pelo ar, vão constituir a equipa que, sob a liderança de Riedenschneider, irá levar a cabo o assalto. Mas o que motiva esse homem, no fim da sua vida e ainda por cima acabado de sair da prisão, a envolver-se em mais um “trabalho arriscado”? Simples: a vida e os seus pequenos prazeres. Afinal, como o próprio diz, “todos trabalhamos para os nossos vícios”.
(...)
Não será ousadia dizer-se que “The Asphalt Jungle” inspirou o recentemente falecido Jules Dassin a filmar o heist de “Rififi” (1955) e que, provavelmente, terá levado Stanley Kubrick a escolher Sterling Hayden para protagonizar o seu genial noir, cuja acção gira em torno de um assalto a um hipódromo, intitulado “The Killing” (1956). Mas a prova mais notável do seu legado encontra-se disseminada ao longo de uma das mais revigorantes cinematografias do cinema europeu: a do francês Jean-Pierre Melville, autor de várias obras-primas, entre elas, “Le Samourai” (1967) e “Le Cercle Rouge” (1970). O primeiro herda o cuidado na escolha das roupas e o investimento rigoroso no décor (compare-se as cenas do reconhecimento policial nos dois filmes), já o segundo é um caso à parte.
Reza a história que Melville terá escrito uma cena sobre um assalto a uma joalharia em 1950, mas depois de “The Asphalt Jungle” e “Rififi” terem sido lançados, o “realizador mais americano da Europa” resolveu pô-la na gaveta até… “Le Cercle Rouge”. É um polar (thriller francês) realizado no pináculo de uma carreira: planos plasticamente soberbos, mise en scène meticulosa e acção esfuziante implícita em gestos silenciosos e ritualizados. Os protagonistas são Alain Delon (actor delicado e gracioso, que é uma espécie de antítese de Sterling Hayden na obra-prima de Huston) e Yves Montand (versão decadente do “doutor alemão”): o primeiro sai da prisão no início do filme para se envolver, com a ajuda do segundo, num assalto a uma joalharia, que resulta numa espectacular coreografia sem som.
Ler mais aqui: IMDB e DVDbeaver.
Reza a história que Melville terá escrito uma cena sobre um assalto a uma joalharia em 1950, mas depois de “The Asphalt Jungle” e “Rififi” terem sido lançados, o “realizador mais americano da Europa” resolveu pô-la na gaveta até… “Le Cercle Rouge”. É um polar (thriller francês) realizado no pináculo de uma carreira: planos plasticamente soberbos, mise en scène meticulosa e acção esfuziante implícita em gestos silenciosos e ritualizados. Os protagonistas são Alain Delon (actor delicado e gracioso, que é uma espécie de antítese de Sterling Hayden na obra-prima de Huston) e Yves Montand (versão decadente do “doutor alemão”): o primeiro sai da prisão no início do filme para se envolver, com a ajuda do segundo, num assalto a uma joalharia, que resulta numa espectacular coreografia sem som.
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