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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Ligação directa à pala de Walsh (XVII)



Foi, fundamentalmente, um mês de alta criatividade. A rubrica Estado da Arte nasceu, com o intuito de pôr a dançar os movimentos das imagens (da TV, do Cinema, da Internet, etc.). Pus aqui em destaque dois dos meus pares favoritos, mas pode ir visitando as nossas criações - minhas e do Ricardo Vieira Lisboa - a partir daqui. A minha colaboração ao longo do mês resumiu-se ainda à habitual crónica Civic TV, cujo tema foi o cinema de Blake Edwards. Entrei nas terceiras Conversas à Pala, na presença do meu colega Carlos Natálio e do convidado Vasco Baptista Marques. O objecto da conversa foi o ano cinematográfico que passou e o que se projecta para o novo ano.

Escrevi com a Sabrina D. Marques um texto de homenagem a Miklós Jancsó. Em mês de importantes desaparecimentos - onde se contou ainda o do documentarista brasileiro Eduardo Coutinho, paz à sua alma -, deixei ainda umas palavras sobre uma das personagens mais marcantes de Philip Seymour Hoffman. O texto conta com participações de cada um dos membros do grupo fundador do À pala de Walsh.

A Sopa de Planos do mês teve como tema "sombras". Fui levado pela minha memória recente e escolhi "Elvis", o pouco visto biopic de John Carpenter. As minhas palavras podem ser lidas aqui.

Para o que resta de Fevereiro, mês editado por João Lameira, reservo a expectativa de conseguir publicar a entrevista que fiz ao excelente cineasta norte-americano Billy Woodberry, durante o programa de Harvard na Gulbenkian. Deixo ainda o convite a todos os leitores do CINEdrio: apareçam, dia 14 de Fevereiro (sexta-feira), às 19h30, livraria da Cinemateca (Babel), nas quartas Conversas à Pala, com João Lameira, Ricardo Vieira Lisboa e o convidado especialíssimo José Fonseca e Costa. O principal pretexto para este encontro é o lançamento recente no nosso mercado DVD de três dos filmes mais celebrados do veterano cineasta português: "Kilas, o Mau da Fita", "Sem Sombra de Pecado" e "Balada da Praia dos Cães". Imperdível.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Os dez melhores de sempre

Inspirado pela lista, recém publicada pela revista inglesa Sight & Sound, com os "melhores filmes de sempre" (que comentei aqui) e pelo desafio que o Samuel do Keyzer Soze's Place colocou aos seus leitores, elaborei um top 10 da minha autoria, onde constam, posso dizê-lo, os dez filmes que moldaram a minha cinefilia. O problema com as listas é o de termos de conviver com as ausências imperdoáveis, no caso, o critério foi muito pessoal, quase autobiográfico.

1. "2001: A Space Odyssey" (1969) de Stanley Kubrick


Aqui aprendi a pensar com imagens e percebi que, no cinema (como na vida), o mistério pode nunca acabar (= a minha primeira grande noção de infinito).

2. "Citizen Kane" (1941) de Orson Welles


Aqui percebi o que podia ser a grandeza do classicismo norte-americano e, logo a seguir, a loucura de um génio que o celebrou ao mesmo tempo que o dinamitou por dentro.

3. "North by Northwest" (1959) de Alfred Hitchcock


Aqui deixei-me levar pela aventura de um "homem errado" e desejei que esta nunca acabasse.

4. "Raging Bull" (1980) de Martin Scorsese


Aqui aprendi a ver tragédia e bailado a partir de um palco só: um ringue de boxe, mais especificamente.

5. "Monsieur Verdoux" (1947) de Charles Chaplin


Aqui percebi que há mais vida para lá dos clássicos maiores de Chaplin; logo, aprendi a amar a descoberta cinéfila.

6. "El espíritu de la colmena" (1973) de Victor Erice


Aqui voltei a ouvir e a ver como uma criança e apercebi-me do papel que o silêncio e a paisagem podem desempenhar sobre as imagens. 

7. "Assault on Precinct 13" (1976) de John Carpenter


Aqui aprendi a relacionar e a ler cinema, para descobrir, por exemplo, que por trás de uma coisa (o thriller urbano de cerco) pode estar outra (um western de cerco hawskiano).

8. "Bringing Up Baby" (1938) de Howard Hawks


Aqui desfiz um preconceito que me perseguia: é que a comédia não é mesmo nada um "género menor".

9. "Mon Oncle" (1958) de Jacques Tati


Aqui encontrei as figuras, os ritmos e as distracções que, ainda hoje, alimentam o meu (resistente!) imaginário de infância (uma infância idealizada, claro está).

10. "Ivan, o Terrível Parte I e II" (1944-1958) de Serguei M. Eisenstein


Aqui sim, verdadeiramente, percebi como se pode "escrever História com luz" (a frase é de Woodrow Wilson a propósito do moralmente deplorável "The Birth of a Nation" de D.W. Griffith).


Reendereço o desafio a todos os bloggers de cinema (e não só!) que passem por este cantinho.

domingo, 29 de julho de 2012

Ligação directa à pala de Walsh (I)


O novo site de cinema vai fazer quinze dias e, até ver, temos publicados 15 artigos. Da autoria deste redactor contam-se, para além das rubricas colectivas (das quais destaco o texto, escrito a várias mãos, "O que é a crítica de cinema?"), a minha primeira crónica Civic TV e análises a "In the Mouth of Madness" de John Carpenter (em Recuperados), "Cerveza Bud" de Rudy Burckhardt (em Raridades) e já hoje lancei "Straw Dogs" de Sam Peckinpah (em Noutras Salas).

Este mês, que ainda não está mesmo no fim para o À pala de Walsh, fui eu o editor. Em Agosto, o nobre trabalho ficará a cargo do João Lameira. Esperamos ir melhorando com os vossos comentários e críticas. Por favor, participe neste espaço aberto à reflexão cinematográfica.

terça-feira, 13 de março de 2012

Recorte de falas (XVIII): Halloween IV

Depois do muito incaracterístico terceiro capítulo do franchise de horror "Halloween", em que Michael Myers - vai-se lá saber por quê - não consta do menu, o grande papão regressa para mais um massacre em noite de bruxas. Não estando nem por sombras próximo dos dois primeiros capítulos da série - se o I de Carpenter é um exercício conceptual sobre o mal, o II de Rosenthal é um western expressionista "de cerco" talvez até com mais condimentos carpenterianos clássicos que o primeiro -, "Halloween IV: The Return of Michael Myers" (1988) tem um subplot que desfecha numa inspirada troca de palavras que recorto para aqui. A jovem Rachel gosta de Brady, mas a sua melhor amiga Kelly também está secretamente de olhos em cima do rapaz. Quando Rachel dá com Brady na casa de Kelly a sua desilusão é dupla. E a raiva também... Quando volta a ter oportunidade para falar com a sua (ex-)melhor amiga, Rachel afia a língua e responde à letra ao comentário cínico dessa cabra traidora - exactamente como se Michael Myers lhe estivesse no verbo.

Kelly: I didn't know you and Brady had anything, ok?
Rachel: You knew. You just didn't care.
Kelly: He is not married. Besides, I have the right to do what is best for me.
Rachel: Don't you mean "what you do best"?

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Os vencedores da Primeira Copa A Angústia do Blogger Cinéfilo (IV): a defesa esquerdo


John Carpenter, o meu Fábio Coentrão.

Quando digo que "faz a ala esquerda toda" quero dizer que é menino para transportar a bola do sector mais recuado do terreno para o mais avançado e fá-lo a uma velocidade alucinante - há pessoas que nem dão por isso e pensam que ele é avançado ou só defesa, isto é, a maioria não se apercebe dos movimentos intermédios. É no intermédio que a transferência - entre o clássico e o moderno - acontece: um estilo de jogo - e Carpenter é um jogador que gosta de arriscar - que já valeu ao CINEdrio FC várias assistências de classe mundial. Aqui, no CINEdrio blogue, dediquei-lhe dezenas de posts, mas destaco sobretudo os seguintes:

Críticas:

The Ward (2011) I e II




Rio Bravo (1958) de Howard Hawks II

O Cinema Revisitado:




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Pansignificação: a dream team do CINEdrio

O CINEdrio ficou com inveja e também quis ter uma "dream team cinematográfica". Não foi fácil, mas deixo aqui o resultado de um primeiro exercício mais ou menos improvisado de táctica autoral.


À baliza: James Benning, o observador atento que vê (vir) cinema onde os outros normalmente apenas vêem (vir) uma "perda de tempo".

Defesa esquerdo: John Carpenter, à Fábio Coentrão*, faz o corredor esquerdo todo partindo bem de trás. (Quando fica cansado, entra o veterano Howard Hawks para o seu lugar.)

Defesa central esquerdo: John Ford, peso pesado do classicismo, com porte físico intimidante, o "patrão da defesa". Também faz a direita...

Defesa central direito: mais ágil, mas ainda assim, nome forte do neo-classicismo de Hollywood: Clint Eastwood. Também faz a esquerda...

Defesa direito: sem gigantismos, mas eficaz: Boetticher.

Médio defensivo: Eric Rohmer, bom recuperador e "desmontador" da dimensão primordial do cinema - e constante agilizador do verbo.

Médio esquerdo: John Huston, médio imaginativo que faz quase todas as posições (descontando a de guarda-redes). É o meu Rúben Amorim, mas joga...

Médio central (pivôt): o planificador-mor, o homem dos storyboards e das filmagens a tempo e horas que nunca falham: Alfred Hitchcock.

Médio direito: Anthony Mann. Uma vez sobe ele, com grande poder físico pelo lado direito, outras vezes, abre alas a Boetticher, em virtuosas combinações.

Avançado (esquerdo, esquerdíssimo!): Jean-Luc Godard, espécie de Saviola, rápido, imprevisível e, muitas vezes, genial, mas, outras vezes, algo apagado.

Ponta-de-lança: Stanley Kubrick, mais um Rodrigo do que um Cardozo, é implacável frente à baliza adversária - nada o detém.

* - Não me leve a mal, caro leitor, mas as minhas referências futebolísticas vão ser encarnadas. A cor do meu clube.

E agora preciso de adversário. Quem me desafia? Digo: quem tem tomates para desafiar a equipa do CINEdrio? Hem?

(A ideia é fazer um pequeno torneio interblogues e escolher a equipa ideal por sectores... em sondagem aberta a todos e a publicitar entre os blogues participantes. Já temos algumas equipas a disputar. Participe!

Há regras?, pergunto eu a mim mesmo. Talvez, respondo eu a mim mesmo. Por exemplo:

1. Procurem publicar a vossa "dream team" (apenas os 11 jogadores) em comentário a este post - nem que só com um link. Eu irei anunciar as diferentes equipas em post futuro, cada uma disposta no campo verde usado pela minha equipa. Depois a ideia é cada blogger publicar a sua equipa e alojar link para a sondagem no seu espaço. Entretanto, ainda assim, não deixem de chamar amigos-bloggers para a peladinha!

2. Procurem não repetir jogadores e, caso o façam, procurem repeti-los em posições diferentes. Também sugiro que façam a defesa de cada escolha, em função do seu posicionamento em campo, das suas qualidades individuais e colectivas.

3 - Mais nenhuma regra, por enquanto.)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O filme do ano (XIX): o aftermath bloggista e facebookista

"The Ward" é um filme que está a dividir e a dividir do modo mais inusitado: não é um caso típico de "carpenterianos empedernidos" versus "carpenterianos há muito desencantados" versus "uns troglóditas quaisquer que não percebem um corno disto...". De entre os primeiros e os segundos há um pouco de tudo. De qualquer maneira, aqui no CINEdrio, somos orgulhosamente parciais em relação ao mestre. Passo a destacar os excertos bloggistas e um facebookista que me apetece publicitar.

Os detratores do novo Carpenter estão loucos. Que filme tão grande, que actriz tão portentosa, que mise-en-scène tão cirurgicamente subtil. Podia ser o primeiro filme de terror do mundo de tão apurado que é.

Este é do Carlos Pereira, blogger do Stranger Than Paradise, mas em comentário no Facebook.

Mas aqui radica a inscrição de Carpenter no paradigma do cinema clássico americano: se virmos as filmografias de Hawks ou Walsh, vemos que as obras-primas são bem mais espaçadas do que pensamos e que havia filmes que apenas existiam e com toda a normalidade estavam ali para ser vistos. The Ward não pede mais do que a oportunidade de ser The Ward. Não o desmereçam.

Este é da crítica do Miguel Domingues, do blogue In a Lonely Place.

Dez anos depois, John Carpenter, esse Mestre incontestável do Terror, com uma das filmografias mais interessantes no género, está de regresso, fazendo mais uma vez a sua homenagem à famosa série-B.

Este é do casal Lima do blogue A Memória do Cinema.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

The Ward (2011) de John Carpenter (II)


Vêmo-la, pela primeira vez, com roupa de dormir a percorrer os bosques selvagens onde, numa clareira, está a casa que vai arder pela sua mão. Não é exactamente um "ninho de vampiros", saído de "Vampires", mas, digamos, uma habitação de "má memória" para Kristen (que será reavivada no tal "tempo incógnito", referido na parte I da análise). Ela é detida pela polícia e conduzida (de novo?) para a prisão, uma prisão psiquiátrica, isto é, "o buraco da sua própria psique". Amber Heard dá corpo à nova heroína desta fábula de horror, próxima de um "Alice no País que é a sua Mente", uma mente distorcida por drogas e experiências médicas duvidosas antes talvez mesmo do que pela tal "má memória" que motiva o sacrifício da casa.

Esta Alice não vê coelhos mágicos com relógios de bolso ou coisas parecidas; ela vê, "por reflexo", um grupo de sumas beldades que compõem o lote de doentes mentais de "o hospício", qual "prisão de mulheres" à Corman ou Edgar G. Ulmer. O paraíso para o olhar devorador masculino? Sim, mas aqui os homens são assexuados, puramente inactivos - veja-se esse anti-estereótipo quase paródico que é o enfermeiro de serviço, que rejeita qualquer envolvimento sexual com as pacientes! As mulheres, por outro lado, fazem as coisas girar, a 360 graus, como numa roleta russa mental em que a pergunta "who's going next?" é acompanhada por outra: "by whom?"

Enfim, chamemos-lhe Kristen, chamemos-lhe Alice, Amber Heard é a protagonista. E mostra-se à altura daquele que é o maior desafio da sua carreira: não só entra no lote das grandes personagens femininas carpenterianas como, de novo na lógica do 1 + 1 = 1, faz a síntese perfeita entre os dois modelos de actrizes à Carpenter. Heard tem a sensualidade de uma Natasha Henstridge ("Ghosts of Mars") ou Lauren Hutton ("Someone's Watching Me"), mas, ao mesmo tempo, apresenta os traços bem definidos e "másculos" de uma Jamie Lee Curtis ("Halloween" e "The Fog"). De resto, indo ainda mais além do que as aparências prometem, Heard é a action woman dimensionada à medida do seu realizador.

Ela converte tudo em acção; nada a faz parar, nem o horror que vem do seu passado, nem o horror que vem dos enfermeiros, com os seus "tratamentos de choque", nem mesmo o horror que vem do passado, manchado de sangue, do hospício. Sempre disposta a lutar, ela "acciona" cada pedaço de filme, de tal modo que o ecrã resiste mal à sua ausência - como se vê na última cena, "The Ward" fica rapidamente com saudades dos "reflexos rápidos" de Amber Heard, verdadeira potência carpenteriana no feminino. Esperemos que esta empresa continue. Até lá, vai sendo celebrada, pelo menos, aqui para os lados do CINEdrio, com uma obra-prima chamada "The Ward".

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

The Ward (2011) de John Carpenter (I)

Várias coisas devem ser ditas sobre "The Ward" para que dele não resulte mais um equívoco de que o seu realizador, John Carpenter, é totalmente alheio; para que, enfim, este não volte a fechar-se na sua toca em LA a ver mais jogos dos Lakers do que filmes de Hawks; para que, de novo, depois da incompreensão que rodeou os seus dois últimos filmes, não nos precipitemos em "catalogações vãs" - dirijo-me aqui aos seguidores de um cinema que não só é de fácil fidelização como se tem mantido fiel, muitas vezes contra o mundo, aos seus princípios estéticos e temáticos. Proponho, assim, que entremos em "The Ward", primeira longa de Carpenter em 10 anos, para mais uma sessão terapêutica de desintoxicação do cinema actual, aquele que nos grita "mensagens feitas", que, por vezes, apenas se consegue agarrar à citação, pondo a pata permanentemente no jardim do vizinho sem que a este tenha pedido autorização.

"The Ward" é um filme que sabe onde está e para o que veio. Não vive de truques sem ser do grande truque de que todo o cinema é feito: manipulação de expectativas através de uma "modelação" estética feita a partir do eixo tempo-espaço. Ora, Carpenter parte para "The Ward" para fazer um filme de terror e, para ele, leva as suas armas - armas que se gastaram com o passar dos tempos, fruto das tais "invasões abusivas" em território alheio? Algumas, talvez, mas, como disse, entramos neste filme cientes do seu poder soberano dentro dos princípios que enformam hoje o género do terror - creio, aliás, que um "Halloween" é hoje tão "filme de terror" ou "slasher movie" quanto "Nosferatu" será um "vampire flick" ou, heresia!, qualquer coisa equiparável a um dos filmes da saga "Twilight". Mas, retomando o nosso fio de raciocínio, digo o seguinte: Carpenter faz "The Ward" seguindo, ponto a ponto, as coordenadas temáticas e estilísticas do seu cinema, mais até, do "cinema" que fez nos anos 70/80 bem como do "cinema" que nos trouxe com os seus dois últimos filmes. Afinal, 1 + 1 é igual a 1.

A coerência de "The Ward" também reside num casamento bem celebrado entre o Carpenter de "Halloween" e o Carpenter de "Ghosts of Mars", e com o Carpenter que lhes está de permeio, sobretudo, o de "In the Mouth of Madness" e "Prince of Darkness". Com efeito, este "Carpenter revisto por Carpenter" mostra, na realidade, (como o fim do filme que aqui tratamos), que estamos na presença de um universo uno, que, desse modo - uno -, tem sobrevivido à passagem do tempo. As inquietações e as "modelações" formais que o caracterizam pouco ou nada mudaram; na realidade, estas apenas têm sofrido ligeiras "correcções plásticas", feitas casuisticamente seguindo as variações que se operam de cenário para cenário, de história para história, de personagem para personagem. Penso que "The Ward" ajuda-nos a consolidar a ideia de que definitivamente Carpenter integra aquele grupo excepcional de cineastas (como Hawks ou Hitchcock) que, tendo criado um universo autoral uno, mas diverso, se renova - e renova todo o cinema - a cada filme que realiza - os filmes mudam pouco, mas o mundo, esse, muda ainda menos. É desta ideia que também vem a filiação sempre-política de Carpenter.

"The Ward"

"Ghosts of Mars"

E, perguntar-me-ão todos aqueles que atribuíram a "The Ward" o estatuto de "filme menor" ou primeira obra "despersonalizada" de Carpenter, o que faz de "The Ward" um filme genuinamente carpenteriano? A minha resposta é a seguinte: TUDO. Comecemos pelo "dispositivo" narrativo: história espacialmente concentrada num local isolado - um hospício - mas que se estica, temporalmente, na cabeça das suas personagens, em visões induzidas pela sua perturbação psíquica e, provavelmente, por todas as drogas e choques eléctricos que lhes são administrados como "terapia" - mas o que é "causa" e "efeito" aqui?

A dúvida marca, desde logo, o filme, isto é, num território bem demarcado - o tal hospício - nasce um novo território - puramente mental - onde a divisória "natural" entre "ilusão" e "realidade" se esbate até ao ponto em que se torna indistinta. "Ghosts of Mars", como demonstrei numa análise que fiz recentemente para o ciclo de cinema Década dos Zeros, vive precisamente desta "perturbação alucinatória", que é uma perturbação temporal e espacial. Claro que o eixo temporal não é trabalhado com o mesmo grau de complexidade que "Ghosts of Mars", mas, de qualquer modo, em "The Ward" também detectamos uma urdidura feita de flashes que, ora nos remetem para um passado bem identificado (a casa em chamas), ora para um tempo incógnito (a rapariga amarrada na cave e o vulto que se aproxima...).

Por outro lado, estes dois "tempos" subsistem num tempo "presente" que é um passado - já que estamos em 1966, como Carpenter não deixa de sublinhar pela indumentária, pelos utensílios dos médicos, os seus métodos "datados" e, claro, pela música e programas de TV que surgem como que a "comentar", com ironia, o que se vai passando. Em "Ghosts of Mars" também estávamos num futuro mais ou menos incerto, que se mostrava pouco relevante para a construção, digamos, espacial ou material do filme, já que, como fiz notar nessa análise, este é um filme que se podia facilmente equiparar a um western clássico de Hawks. "The Ward" é tanto um "filme de época" como "Ghosts of Mars", com a diferença que este último é um "filme de época" no futuro, e o primeiro é um "filme de época" no passado - solução claramente menos inventiva, que, à luz da anterior obra-prima de Carpenter, penaliza "The Ward".

Contudo, ao mesmo tempo, como já deixei implícito, "The Ward" vai-se tecendo entre um espaço puramente mental - expansivo e inconstante - e um espaço material - concentrado, cerrado e labiríntico. É, nesse sentido, uma releitura do filme de cerco mais extrema que "Ghosts...", já que este último, ainda assim, se dispersa fisicamente mais que "The Ward", onde a psicose é a única coisa que liga as suas partes disjuntas - progressivamente, o espaço mental revela-se tão labiríntico quanto o espaço concreto, e este último vai-se abrindo ao plano de fuga, "expansivo" mas também algo "intermitente", das personagens.

"The Ward"

"In the Mouth of Madness"

Estamos no intervalo entre "In the Mouth of Madness" e "Prince of Darkness" - a mente a puxar para a prisão da psique humana e o espaço a gritar por um "plano de fuga". O que provoca, naturalmente, estas duas dimensões são as fantasmagorias, que também reconhecemos nesses filmes do realizador de "Halloween". Aliás, as fantasmagorias, que durante quase todo o filme parecem "pertencer" ao espaço concreto, vão-se configurando como "realidades mentais" da(s) personagem/personagens. A ameaça gera-se no interior do homem. Nada mudou aqui, se formos ver ou rever boa parte da obra de Carpenter.

"The Ward"

"Halloween"

"The Ward" é tanto um filme de fantasmagorias como o era "Ghosts...", ou seja, tem pouco ou nada a ver com, precisamente, "filmes de fantasmagorias"; estruturam-se, antes, em construções espacio-temporais alucinogénicas que transportam o espectador entre realidades até à abstracção pura das imagens - potência que só o cinema possui, e que só Carpenter insiste em explorar... ou talvez apenas acompanhado, presentemente, por realizadores como Bryan Bertino ("The Strangers") ou Shyamalan ("The Village"). Formalmente, Carpenter mantém-se firme numa arquitectura visual que se revela tão intricanda quanto mais intensos são os ataques psicóticos das personagens, ou quanto mais regulares são as injecções de drogas misteriosas e os potentes choques eléctricos administrados pelos enfermeiros.

As imagens de portas entreabertas, leitmotifs visuais nossos conhecidos em "Ghosts of Mars", convertem-se em passagens assustadoras que se abrem a um inconsciente transbordante, ao passo que a visibilidade/invisibilidade da ameaça supranatural vai pairando sobre a textura das imagens como as sobreimpressões (dissolves que se arrastam mais do que o normal...ou efeitos-fantasma sobre o corpo dorido depois de uma "noite pesada") dos dois tempos que a assombram desde o primeiro instante - passado identificado e tempo incógnito.

O tecido temporal é fabricado como nos melhores filmes de Carpenter. Para além das várias pontes possíveis que se podem estabelecer com "Ghosts...", importa destacar a forma como o "fantasma" - que claramente habita aquele espaço... - vai aparecendo e desaparecendo, segundo o ritmo cardíaco da protagonista, que tenta fugir dos guardas. O corpo vaporoso e abstracto de Alice vai ganhando substância um pouco como o de Myers ao longo de "Halloween"; ou do bicharoco de "The Thing" ou, mais ainda, dos fantasmas em "Ghosts...". A sua metamorfose é alimentada pela luta humana, aliás, de homens contra homens - estamos aqui em Hawks, estamos aqui em Carpenter... de novo.

"The Ward"

O conflito "corporiza" o fantasma, que nos aparece inicialmente numa cena sensualmente embalada pelo excelente tema principal do filme: durante o banho de chuveiro das raparigas, corpos perfeitos são filmados em plano médio e com total "desprendimento", qual western softcore. (Um parêntesis: aquela iluminação de raios de luz entrecortados, logo a seguir à cena do duche, lembra, até ao mais esquecido, que não está a ver um filme de um realizador qualquer...) As sobreimpressões multiplicam-se até que surge, pela primeira vez, num jogo de flashes entre o visível e o visível, a figura de Alice. Ora, aqui estamos na primeira etapa de solidicação da ameaça "externa", que vai vivendo, vai-se "corporizando", à medida que se intensifica o conflito entre as raparigas em cativeiro e quem as mantém em cativeiro. Até que, no final - spoiler alert -, o fantasma ganha corpo de gente, sangra e é defenestrado devido à força do corpo de Kristen.

"Halloween"

Carpenter desenvolve como um "regime de crescimento" entre ameaças que, a meu ver, nunca foi tão aprimorado. Por outro lado, apesar de não ser tão genial como em "Halloween", também a dinâmica entre plano subjectivo versus plano objectivo é mantida, nomeadamente, nas investidas que a câmara vai fazendo pelos corredores, ora totalmente vazios, ora não totalmente vazios, do hospício. A certa altura, temos uma conjugação do melhor "de dois mundos": Kristen entra no armário da morgue, para se esconder dos guardas do hospício; por trás de si, uma mão aproxima-se do seu ombro, para lhe tocar... Mas, numa espécie de falso-raccord próximo daqueles que povoam brilhantemente "The Strangers" ou, recuando na história do cinema, também detectável em "Night of the Demon" de Tourneur, de repente a mão desaparece de campo - não sai, desaparece. Ora, aqui Kristen é ameaçada "de frente" e "pelas costas". O seu encurralmento é, contudo, mental, já que nunca chegamos a ver o corpo por inteiro ou indícios sequer dos que a ameaçam. A imagem da personagem de Amber Heard no armário replica, obviamente, a cena em que Jamie Lee Curtis tem o mesmo gesto para escapar "ao campo de visão" de Myers, leia-se, ao "campo de visão da câmara".

De qualquer modo, a dualidade formal acompanha a dualidade estilhaçada da narrativa - que surge representada, no genérico, e, na recta final do filme, pelos fragmentos de vidro à "Spider". O vidro e o espelho, aliás, são os dois principais leitmotifs do filme, o que numa obra sobre a loucura poderá parecer um cliché "necessário", mas até aqui penso que Carpenter vai além da óbvia simbologia. Na última cena do filme - spoiler alert: mais um sad open ending de Carpenter - Carpenter faz uma releitura da antológica sequência final de "Prince of Darkness". O que vive no outro lado do espelho? Já tínhamos visto, numa das mortes do filme, que o reflexo chama "a morte", mas, mesmo mesmo no último instante, Carpenter prega a partida de ser o mais literal possível, como que dizendo-nos: "pois sim, está bem, mas a ameaça não vive propriamente no espelho, mas por trás dele. Por trás dele, onde ele é opaco. Experimente aí abrir o armário espelhado para tirar a pasta de dentes. Para branquear o sorriso. Experimente fazer isso... se for a tempo..."

(continua)

domingo, 4 de setembro de 2011

O filme do ano (XVIII): 3 estrelas

"(...) No novo filme, "The Ward" ("O Hospício"), a fasquia desce uns pontinhos (mas não muitos). (...) "O Hospício" é um daqueles filmes que 'custam a entrar', sobretudo para quem conhece bem o trabalho de quem o assina. (...) Horror e fantasmas em manicómios não é popriamente coisa que escasseie no cinema americano e o filme de Carpenter também não se importa de pregar mais um prego no caixão, socorrendo-se de estereótipos batidos. Fica-se por aí? Não. Kristen [a personagem principal] resgata-o da mediania pela interpretação de Amber Heard. (...) Kristen entra para a galeria de heroínas do cineasta onde estão Jamie Lee Curtis, Adrienne Barbeau ou Natasha Henstridge. Há muito que sabemos, graças a Carpenter, que a perda de tino, venha ela de um desgosto amoroso, do medo da morte ou de influência alienígena, é coisa que a cabeça inventa e potencia. O maior inimigo dos seus heróis estão neles próprios. Posto isto, "O Hospício", embora não possa ser colocado a par de obras-primas como "Halloween" ou das duas "fugas" (a de New York e a de Los Angeles), também não envergonha a ascendência".

A crítica, com o título "Com bicho de carpinteiro", é da autoria de Francisco Ferreira, e foi publicada no último Actual, a propósito da estreia nacional de "The Ward" no festival de cinema de terror de Lisboa MOTELx, no dia 7 de Setembro [corrige-se a informação mal dada].

(O crítico termina este texto com uma observação que considero muito acertada: "O MOTELx é um dos festivais portugueses mais interessantes, e talvez seja o mais claro de objectivos, o mais equilibrado entre meios e fins.")

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O filme do ano (XVII): carpinteiros da fé

Já o temos disponível, em Blu-ray e tudo, nos States, mas, por outro lado, o último Carpenter já tem "quarto" reservado no próximo MOTELx

OBRIGADO! É com este tipo de textos que vou alimentando a minha fé.

[Infelizmente, os fãs de Carpenter que tenho ouvido ou lido atentamente que não gostaram de "The Ward" são grandes apreciadores de "Ghosts of Mars", o que (repito-me) me deixa algo apreensivo...

E sim, Raimi é respeitável, mas pôr o seu nome na mesma frase que o nome de Carpenter é qualquer coisa que só se pode admitir para dizer que não se pode pôr o nome de Raimi numa frase onde esteja o nome de Carpenter. Period.]

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O filme do ano (XVI)


A fé tem vindo notoriamente a esmorecer? Talvez, mas não morreu completamente. "The Ward", filme que neste blogue tenho apelidado (antes do tempo...) de "o acontecimento do ano", tem recebido as reacções mais negativas mesmo junto dos fãs carpenterianos mais empedernidos.

A desilusão em torno deste filme tem baixado as expectativas de quem quer perseverar para o ver no grande ecrã, em condições certas para, então sim, emitir qualquer juízo. A verdade é que, neste momento, o hype morreu. O que o pode reacender? Provavelmente um contexto cinéfilo propício à adoração do cinema de terror, uma atmosfera que faz inveja a qualquer outro festival de cinema da capital. Falo, naturalmente, do incontornável MOTELx, festival de cinema de terror que invade o S. Jorge para arrefecer a espinha a qualquer Verão quente que se preze...

A próxima edição desta excelente montra do horror contará, então, com a estreia nacional de "The Ward" de John Carpenter. Será, certamente, o espaço mais adequado para gostarmos ou mesmo para "não gostarmos" (suposição que, neste momento, ainda me deprime...) do próximo filme do genial realizador. A eventual presença do insuportável Eli Roth (o realizador/actor homenageado este ano) não me deterá nesta prova dos nove que tem tanto de entusiasmante como, já, de angustiante.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O filme do ano (XIV): o trailer completo

Publiquei a parte, a única disponível na Internet na altura, pois agora publico o todo. Um "todo" cheio de imagens muito promissoras e uma ambiência claramente evocativa do Carpenter dos anos 70 ("Halloween" aparece como grande referência no trailer, o que me parece apropriado) com, porventura, uns toques de "In the Mouth of Madness". Enfim, talvez mais hitchcockiano (foras-de-campo) do que hawksiano, mas, ainda assim, o filme mais esperado de 2011.




segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O filme do ano (XIII): o trailer ou parte dele

Desde já, um grande obrigado ao meu camarada de petição João Palhares pela sua (wiki)leak do trailer, ou parte dele, de "o filme do ano", que andei a antecipar durante todo o ano de 2010 na expectativa de o ver nesse ano. Pronto, fica a ideia: 2010 fica marcado por ser o ano que antecede 2011, isto é, "o ano do regresso de Carpenter". Sem mais palavras, cá vão as primeiras imagens e sons que nos chegam de "The Ward".





quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Someone's Watching Me! (1978) de John Carpenter


Foi a pensar em Hitchcock que Carpenter fez o telefilme "Someone's Watching Me!". Fez, nos anos 70, aquilo que Brian De Palma experimentou fazer no subvalorizado pastiche quase algorítmico "Body Double": tranformar o filme em espaço de convocações hitchcockianas ("Blackmail" + "North by Northwest" + "Rear Window" + "Vertigo" +...), postas "em abismo" em cada sequência, décor, adereço, sugestão de câmara...

O "fora de campo" é, naturalmente, rei aqui - já o era, entenda-se, no ultra-conceptual, mais ainda que "Birds", "Halloween". Uma mulher é assediada por um peeping tom invisível. Saber que está a ser vigiada por um vizinho de um dos prédios da frente não a ajuda na captura do "assediador", porque estamos em L.A., numa paisagem formada por grandes blocos de betão e vidro. Janelas defronte a janelas, janelas que convidam ao voyeurismo mais primário que corre nas veias de qualquer (?) homem solitário.

Incrível como Carpenter, num projecto para televisão, vai mais longe que De Palma em "Body Double". Leigh Michaels, a personagem feminina, é uma realizadora de televisão - profissão nada inocente, como veremos - que é perseguida pelo olhar indiscreto de um homem anónimo, que lhe envia presentes e cartas com o carimbo de uma agência de viagens-fantasma. A tensão vai-se avolumando à medida que Leigh vai colando os fragmentos, isto é, tomando nota da insistência compulsiva do remetente anónimo e das chamadas estranhas que tem recebido. Em suma, estamos aqui na presença de uma espécie de "Janela Indiscreta" invertida, visto que a perspectiva que o filme adopta é a de "quem é visto" e não a do voyeur.

Outro elemento fundamental na intriga é a personalidade de Leigh: não é a típica barbie histérica dos slashers da praxe; Leigh (excelente Lauren Hutton) é uma mulher independente, "de iniciativa", com um sentido de humor muito próprio, que esta tem como pouco atraente para os homens - talvez se tenha habituado a seduzir e não a ser seduzida. É uma "mulher à Carpenter", portanto; ou seja, é uma mulher que tem pouco a ver com o cinema americano, ainda menos, com o cinema americano de terror. Por isso, perante a inoperância das autoridades, tomamos como natural a iniciativa que Leigh toma de ir de faca em punho acertar contas com o assediador - e também tomamos como natural que o seu namorada e amiga não procurem demovê-la de tão incauta inciativa.

O que alimenta este filme de Carpenter é então o jogo de forças entre vítima (mulher activa e temerária) e agressor (passivo na agressão, um cobarde como todos os peeping toms...); ou melhor, é "a forma como este jogo é jogado". É quase um "gato-rato" entre quem vê e quem é visto, situação incómoda, tão ameaçadora quanto aviltante, para uma mulher, para uma realizadora... A violação é dupla, portanto, apesar de, mesmo sendo dupla, nunca se consumar fisicamente, nem consta que se "queira" consumada dessa forma pelo agressor.

Quem realiza este filme é o agressor (o homem invisível, que grava a acção da vítima, toma nota de cada uma das suas movimentações e a "dirige" virtualmente até ao seu encontro... tal como um realizador?) até que a vítima reclame a posição que é sua por direito próprio. A certa altura Leigh diz: "por estes dias até me esqueço que sou realizadora". A partir daí o caldo está entornado para o assediador; Leigh quer a sua vida íntima, mas acima de tudo a sua vida profissional DE VOLTA. Leigh está farta e, por isso, está mais do que disposta a assumir daí em diante a condução deste filme. Soberanamente.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Rio Bravo (1959) de Howard Hawks (II)

Como prometido, passo de seguida a palavra a quem sabe. Ao grande hawksiano do cinema contemporâneo: John Carpenter. Os excertos que apresento de seguida foram retirados do comentário áudio que este fez ao filme, para uma das suas mais recente edições DVD da Warner Brothers.

Dois apontamentos prévios são necessários: primeiro, o comentário áudio da edição supracitada é partilhado entre Carpenter e um teórico de Hawks, Richard Schickel, com especial enfoque para as palavras deste último, o que lamentavelmente retira espaço ao realizador de "The Thing"; segundo, a tradução que faço aqui é muito livre, face à dificuldade natural de estar a escrever e a ouvir ao mesmo tempo - atente-se mais às ideias que à forma, mas se procura precisão, então recomendo que adquire a dita edição.

Hawks coloca sempre as personagens à frente. O seu cinema é sobre personagens, gestos, troca de cigarros, troca de adereços.

Os seus filmes de aventuras são sobre homens profissionais em perigo. Eles definem-se pela forma como trabalham.

Aqui está John Wayne no seu traje típico de xerife. John T. Chance é o seu nome. Chance era o nome de uma namorada que Hawks teve nos anos 50.

Tudo é geograficamente simples e directo. O filme não sai da cidade, hotéis, prisão... só no fim, na cena do tiroteio, o filme se alarga geograficamente.

Como em To Have and Have Not, o romance acontece num hotel. Aqui também acontece num hotel. Algumas cenas e diálogos são iguais. Hawks faz isso muito; recicla as suas próprias ideias. Como ele dizia, "I like to steal from myself".

Chance and Stumpy. O amor entre homens é outro grande tema dos seus filmes.

Neste filme, o ritmo é lento. Hawks não tem qualquer pressa em contar as suas histórias.

Esta sequência é uma das minhas favoritas. Os dois homens fazem a patrulha na cidade, um paralelo ao outro. É uma sequência filmada com enorme simplicidade, mas resulta quase num ballet entre dois homens.

Os cenários não são muito trabalhados, autênticos, como num filme de Sergio Leone. Hawks filma as suas personagens em sets algo standardizados de Hollywood.

Como em To Have and Have Not, a ligação entre a personagem masculina e feminina acontece com base numa desconfiança da primeira em relação à segunda, que se revela infundada.

Angie Dickinson, uma das grandes actrizes de Hawks, junto com Lauren Bacall. Penso que ela tinha 19 anos nesta altura. John Wayne tinha 50 anos. É estranho pensar que aceitamos o romance, tendo em conta a diferença de idades.

Hawks era um engenheiro, ele abordava os filmes como um engenheiro. Um trabalho de câmara simples e straightforward. Tudo é pensado, não há excessos. Ele não sente qualquer necessidade de acelerar o seu ritmo nesta altura.

Chegamos a uma das maiores cenas de Rio Bravo. Dean Martin fere o criminoso perseguido, este esconde-se no bar. Wayne pergunta a Dean Martin se ele é "good enough", se tem confiança para fazer o que tem de fazer.

Aqui não sabemos o que acontecerá. É uma cena cinematicamente genial. Dean entra pela frente e Wayne por trás. Dean Martin faz as perguntas... Tudo muito funcional.

Lá está o homem que eles procuram. Hawks mostra-nos a nós, mas Dean Martin e John Wayne não sabem que ele está ali.

Toda a sequência é sobre reclamar a dignidade. Reclamar-se a si próprio... este é o apontamento moral que Hawks faz.

Temos a música de Dimitri Tiomkin, com um toque de jazz. Agora repete-se a sequência de To Have and Have Not, em que Bacall beija Bogart.
Começamos aqui com uma das sequências mais conhecidas. Replicando um gesto em Red River, Ricky Nelson atira a riffle a John Wayne.

Aqui temos uma das melhores cenas entre Dean Martin e Wayne. A sequência anda à volta de dois temas hawksianos: profissionalismo e competência.


Aqui temos a cena da redenção de Dude. É tudo feito sem palavras. É um momento magnífico.

Aqui começa uma sequência, que Hawks usa noutros filmes. Em Only Angels Have Wings, por exemplo. Quando uma personagem é admitida no grupo, num filme de Hawks, normalmente as personagens cantam e tocam. Em El Dorado Hawks volta a filmar uma sequência com as personagens a cantar. Mas o filho de Hawks disse "pai, um xerife não canta". E, por isso, Hawks tirou essa sequência.

Hawks odiava High Noon, porque nenhum xerife profissional anda para aí a pedinchar ajuda. Rio Bravo é como que uma reacção a isto.

Hawks costumava chamar os seus actores ao set e discutia com eles, "à volta de uma mesa", as falas desse dia. Parece-me um modo muito humano de trabalho.

Rio Bravo está a terminar. É Hawks e Tiomkin no seu melhor. É muito simples: são apenas homens a descer a rua. Mas a música é fabulosa, dá-lhe heroísmo. Não sei se não será influenciada por Yojimbo, não sei ao certo. Agora vamos para uma gloriosa sequência de acção: excitante, divertida... Agora o grupo reúne-se.

Hawks coreografa tudo. Sabe onde cada actor deve estar, mostra-nos a localização, mapeando o espaço para o espectador. É como olhar de cima para um mapa.

Hawks realizava com graciosidade e simplicidade. Como Clint Eastwood, a sua câmara está sempre na posição certa, sem chamar a atenção sobre si mesma.
Isto é um replay de To Have and Have Not. Wayne não quer que vejam Feathers vestida daquela maneira. Eles cimentam o seu amor aqui.

Rio Bravo é um filme cheio de humor, divertido, old fashion, vai beber aos anos 30 e 40, mas também tem as cores dos anos 60. Tem acção... tem tudo. Para mim, este é um dos grandes westerns de sempre. A performance de Wayne não estará ao nível de um The Searchers, mas é seguramente mais real.

É curioso: este filme reflecte o que há de melhor em Hollywood. Um filme divertido de ver, popular no seu tempo e ainda hoje. É lento e elegante, como um pedaço de música clássica.

Aproveito esta oportunidade para publicar na íntegra a análise que fiz a "Hatari!" (1962) para a revista Red Carpet há dois anos. Nela elenco muitas das características do universo Hawks já bem presentes em "Rio Bravo".

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O filme do ano (XII)

Não dá para ver, dá para ouvir. (E ainda não ficou claro se Carpenter assina ou não a banda sonora. Já se sabe que não se envolveu tanto no processo, como é hábito, mas não é líquido que não tenha tido uma participação muito activa na sua elaboração...)


Clássico Carpenter

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O filme do ano (XI)

Tagline: Only Sanity Can Keep You Alive

"John Carpenter's The Ward" teve a sua estreia internacional ontem à noite no festival de Toronto. Carpenter fez uma pequena introdução ao filme, à distância, através do grande ecrã - que, não podia deixar de ser, está já disponível no YouTube (ver vídeo abaixo). Entretanto, já houve reacções (até ver, positivas) de alguma imprensa e mais imagens do filme continuam a circular. Esperamos ansiosamente pelo primeiro teaser-trailer. Quanto a datas de estreia, é provável que "The Ward" só estreie nos Estados Unidos em 2011.


(Digamos que o agradecimento já está, nesta altura, subentendido...)

domingo, 12 de setembro de 2010

O filme do ano (X)


Eis a mais recente entrevista a John Carpenter. O entrevistador obriga Carpenter a repetir muitas das respostas que já havia dado à icon vs. icon. A sensação de déjà vu é quase inevitável, salvo sobretudo nas muito significativas primeiras respostas. Carpenter fala da vantagem de filmar num espaço "confinado" - ao seu estilo! - e nega que este projecto tenha o forte subtexto político que alguns dos melhores filmes de Carpenter nos presentearam.

Um trivia delicioso: o projecto "L.A. Ghotic" - vários vezes anunciado como o próximo de Carpenter - sofreu uma alteração no título, chamando-se neste momento "John Carpenter's Hollywood". "which I find funny. [Laughs.] We're working on the screenplay, developing it. It's coming right along, and I love working with the two writers I'm working with. It's fun."

(Obrigado de novo ao Tiago Costa pela dica.)

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