quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Pensar a crítica e a cinefilia hoje (I)

Still de "Histoire(s) du cinéma" (1997-1998) de Jean-Luc Godard

É minha convicção que nunca foi mais decisivo e pertinente todo o pensamento que se possa produzir em torno não só da função mas, antes de tudo, da "forma" da crítica de cinema - ia escrever "crítica cinematográfica", mas receio que a maioria não mereça o elogioso adjectivo e se calhar o problema começa aí... Se nos anos 40-60 a crítica de cinema viveu um período de vitalidade que, nalguns momentos, parecia estar até a jusante do cinema que se fazia então, nos dias de hoje a crítica perdeu influência, mas mais do que isso, muito mais do que isso, perdeu quase por completo a chama criadora.

Na realidade, o episódio recente em torno do texto de Luís Miguel Oliveira sobre o último Batman de Nolan revela que, nesta era de massificação da opinião, o espectador/leitor nunca foi tão intolerante à opinião "profissional" do crítico de cinema. Por outro lado, a tolerância em relação a analistas "amadores" pode  ser significativamente superior - mesmo se, no geral, ambos se encontrem nas suas opiniões. (Comparem, ressalvando as devidas proporções, as reacções ao texto do Luís Miguel Oliveira com as reacções, no site ou no Facebook, a este texto do João Lameira.)

Isto não seria sintomático de grande coisa se eu não sentisse que a crítica de cinema PRECISA destas polémicas de vão-de-escada, do estardalhaço nas caixas de comentário, para, deste modo, ir marcando (corporativamente) o seu território.... O facto do Ípsilon ter começado por publicar, com um dia de antecedência, a crítica de Luís Miguel Oliveira (não a de Jorge Mourinha, por exemplo) ao "nulo" filme do Batman e ter publicitado a mesma na sua página do Facebook em jeito de "isco para as massas" (paradoxo: tratamento de excepção para filme tido como vulgar) significa que, muito provavelmente, a crítica necessita destes embates para justificar a sua existência, "ameaçada" que vai sendo pelo fenómeno da tal multiplicação descontrolada de "fazedores de opinião" na Internet (nas redes sociais, blogues, sites amadores, etc.).

Ao contrário do que possa parecer até aqui neste texto, não pretendo de maneira nenhuma desacreditar ou desvalorizar o papel da crítica de cinema; quero, antes, convidar o leitor à reflexão sobre eventuais "estratégias de sobrevivência editoriais" que estarão a ser activadas ante o crescente fenómeno de proliferação digital da opinião e informação sobre o cinema. Opinião e informação produzidas por amadores, cidadãos que, fora de qualquer tecto institucional ou empresarial, dizem de sua justiça sobre os mais variados temas ligados à Sétima Arte. Dada a delicadeza do assunto, teremos de ir por partes, mas atrevo-me a avançar já com um palpite meu: se calhar, sublinho o se calhar, ao contrário do que podemos pensar, o problema principal da crítica de cinema não está, hoje, no conteúdo...

O Carlos Natálio publicou no seu blogue um vídeo com uma conferência sobre todos estes assuntos, que teve lugar na Cinemateca de Bolonha, no dia 24 de Junho 2012. O painel, constituído por Miguel Marias, Jonathan Rosenbaum e Girish Shambu, discutiu as antigas, algumas extintas, e as novas, algumas emergentes, formas de "cinefiliação". A certa altura, os três críticos e estudiosos do cinema encaram de frente, como ainda não vi ser feito por cá, o "grande elefante na sala": é ou não é verdade que a linguagem da crítica de cinema enfrenta hoje, em tempos de intensíssimo trânsito (multi)mediático, uma complexa crise de identidade? Se sim, temos pensado sobre ela e nos modos de a superar?

Os conferencistas partem dos particulares - ou nem tanto, alega Rosenbaum - anos 50-60, e do seu efervescente ambiente intelectual, e aterram neste presente de rápidas mutações, para constatarem, entre outras coisas, que "Histoire(s) du cinéma" será o emblema, espécie de padrão-ouro, de todos os vídeo-ensaios cinéfilos, formato que, ainda que timidamente é verdade, vai pondo em dúvida o "grau de legibilidade" da tradicional actividade escritural, mais ou menos verborreica, de praticamente toda a crítica, seja ela oficial ou não-oficial...

Esta simples "viagem temporal", bastante (auto-)crítica, sugere a ideia alarmante de que ou algo muda agora ou a crítica se poderá perder para sempre nestes tempos de indefinição (também mas não só, indefinição dos formatos, entre eles, a própria alta-definição que mostra tudo e não deixa nada "por ver"), de volatibilidade (o que está na moda agora está já a seguir, porque o disse, o escrevi, o esgotei..., fora de moda), de instantaneidade (Rosenbaum recorda um tempo em que, depois de ter visto um filme, tinha de esperar meses ou anos para falar com alguém que também o viu, hoje, o problema é quase inverso, face a tanta poluição e omnisciência informativas) e, tudo somado, de instrumentalização do pensamento fílmico (usar e deitar fora, sem esforço, isto é, idealmente quase sem cliques, quase sem scroll, quase sem ler, porque isso mata o tempo e fere os olhos...).

(continua)

2 comentários:

Pedro Loureiro disse...

Concordo na generalidade com o que escreveu. O artigo cujo link envio abaixo é muito interessante e descreve com algum humor o tipo de "críticos" de pacotilha que hoje em dia grassam pelos media: http://www.examiner.com/article/armond-white-and-the-art-of-trolling

Luís Mendonça disse...

Interessante esse texto, percebi aliás uma forte tensão entre o amador ou troll e o crítico oficial.

O exercício que gostava de ver feito é exactamente: o de olhar para as duas partes (não só para a dos bloggers, como o faz o João Lopes, esquecendo-se quase sempre do papel da crítica, que se calhar deve começar por ser auto-crítica e se re-responsabilizar) e, porque acredito que a crítica de cinema é importante e deve estar sempre acima, enfrentar as eventuais dificuldades que enfrenta nos tempos de hoje.

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