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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ainda acontecem milagres*


Em "The Well" (*-título em português deste filme), obra-prima esquecida de Leo C. Popkin e Russell Rouse datada de 1951, uma rapariga negra cai num poço. Uma comunidade inteira suspende um bárbaro fratricídio racial para se concentrar na melhor forma de resgatar a menina das profundezas - o poço é tão estreito que nenhum adulto o conseguirá atravessar. Uma máquina perfuradora é erigida e, todos, todos sem excepção, reúnem esforços para salvar a menina. Todos, brancos e negros, juntos pela mesma causa.


Em "Ace in the Hole" (também de 1951), Wilder retrata, com enorme e, para a época, chocante mordacidade, a história de um homem retido nas profundezas de uma montanha que tem a infelicidade de ser encontrado por um jornalista com sede de drama, ou melhor, com fome de sucesso rápido. O jornalista (excelente Kirk Douglas) sabe que quanto mais tempo o homem ficar preso mais cobiçado será o seu "exclusivo". Fria e torpemente, começa a manobrar uma grande campanha mediática e política à custa do prolongamento do cativeiro. O final é muito menos feliz que o de "The Well".


O mundo abraça cada um dos mineiros chilenos, numa tentativa de ver nesta história dramática com final feliz uma espécie de "luz ao fundo do túnel"; a esperança de que, também nós, sairemos do fosso em que nos meteram - não importa quem, por ora... Cada mineiro, um breaking news, cada mineiro, lágrimas e champanhe. Quando chegarem os 33 à superfície, ressoará a interrogação nascida do vazio noticioso: quem falta salvar?

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Porno chachada

Distopia genial de François Truffaut, adaptação à tela de um livro homónimo de Ray Bradbury, "Farenheit 451" (1966) é o retrato mordaz de uma sociedade onde os bombeiros têm como função destruir livros. No centro da acção está Guy Montag (Oskar Werner), o homem-bombeiro que se rebela contra um regime castrador das liberdades, que extingue o conhecimento como quem apaga fogos.

Dois dos mais recentes episódios da actualidade portuguesa têm tanto de grave como de anedótico: falo das apreensões que a PSP fez do boneco do Magalhães no carnaval de Torres Vedras e das edições do livro de Catherine Breillat, "Pornocracia", que estavam à venda numa feira do livro em Braga. Pelos vistos, tanto o autocolante com mulheres semi-nuas colocado no ecrã do dito computador como a reprodução do quadro "A Origem do Mundo" (1866) de Gustave Courbet na capa do livro "chocante" de Breillat constituem inaceitáveis atentados ao pudor público. Uma ameaça à segurança mental de todos nós. Os dois casos merecerem respostas imediatas por parte das autoridades, com base naquilo que entendem por "pornografia".

Quanto a nós, estes episódios são, até ver, apenas isto: anedotas. Mas lembram em potência o velho regime de Salazar, aquele Don Juan que deu origem a uma mini-série com mais libido que um filme de Jean-Claude Brisseau; dá-nos matéria para imaginarmos, num exercício de ficção científica, um futuro em que aquela palavrita, como a palavra "comuna" em tempos, daria cobertura a menos engraçados ataques à Democracia: o jornal do Fernandes e do Cerejo fechado pelo conteúdo "pornográfico" das suas investigações; a televisão do Moniz e da Moraguedes encerrada por causa das "pornográficas" aparições de Vasco Pulido Valente e o Ministério Público (finalmente) calado devido à "pornografia" que está a ser o caso Casa Pia...

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Suleiman ainda não sorriu

A guerra é silenciosa, mas muito tensa em "Intervenção Divina" (2002), filme realizado e protagonizado por Elia Suleiman. Um homem dividido pelo amor entre Jerusalém e Ramalá testemunha as atrocidades cometidas pelos soldados israelitas no checkpoint que liga as duas cidades. Enquanto a barbárie acontece, ele, palestiniano, encontra-se com ela, israelita. O amor é uma troca de bilhetes e um bailado de mãos. Os olhos fixam-se no vazio e a boca encerra uma dor ensurdecedora. Também há Tati em Suleiman, mas falta-lhe a alegria de viver - e um sorriso (qualquer emoção...) no rosto.

A guerra israelo-palestiniana é revoltante. Cansa ouvir os diplomatas europeus a apelarem à paz, enquanto esperam pelo jantar ou o almoço. Já repararam que as reuniões diplomáticas fazem-se cada vez mais à volta de mesas que têm em cima mais garfos que canetas? Haverá margem para se negociar o menu? Enfim, mas não há almoços (e jantares?) grátis: as tropas high-tech - zero casualties - de Israel estão neste momento a varrer Gaza do mapa como quem atira a sujidade para debaixo do tapete.

Que tipo de solução é esta: fazer da história dos rockets uma guerra totalmente desproporcional e uma das maiores crises humanitárias que nos espera? Não sabemos (nunca saberemos...) qual o número exacto de civis palestinianos que morreram e qual a real situação dos desalojados. Claro que bastará um soundbite ou uma estatística para podermos arquivar o que se está a passar e fingir que alguém (um Sarkozy ou um António Guterres) resolverá esta catástrofe, que eventualmente se converterá num dossier - mais um eufemismo asséptico criado para não estragar as refeições dos senhores engravatados. Se calhar, durante o espectáculo macabro e dessensibilizador que se adivinha, daremos por nós a achar que 200 ou 300 ou 400 vítimas até é pouco. "Numbers sanctify", já dizia o Monsieur Verdoux de Charles Chaplin.

domingo, 30 de novembro de 2008

Dra. Estranhoamor


"Dr. Strangelove" (1964) de Stanley Kubrick tem um Peter Sellers em papel triplo: faz de Presidente dos EUA, de oficial da RAF e incarna o catatónico dr. Estranhoamor, homem tetraplégico, de corpo semi-mecânico, especialista em coisas de guerra. Na chamada war room, o dr. Estranhoamor exorta sobre a possibilidade de uma ofensiva contra a URSS, depois de um cowboy lunático ter "montado", sem pedir autorização, uma bomba que caiu directamente em território inimigo. O sistema de defesa norte-americano fica em polvorosa quando dá conta da sua própria desarticulação. Estranhoamor é o espelho antropomórfico disso mesmo. Nos momentos mais inoportunos, o seu braço direito deixa-se domar por uma espécie de tique que o revela mais do que o diminui. O desconcerto é total quando dele irrompem as mais firmes saudações nazis.

Em tempos, o cavaquismo era sinónimo de uma estratégia política baseada no silêncio (aquele que fala...), num calculismo levado ao extremo (levar à boca, quando melhor convier, o santo bolo rei) e num sentido de responsabilidade e rigor insofismáveis. A melhor amiga de Cavaco Silva seguiu todos estes preceitos quando esteve à frente do Ministério das Finanças. Dela ficou essa imagem (pouco feminina?) de frieza e de uma inabalável irredutibilidade. Na campanha eleitoral para a liderança de um partido em cacos, essa senhora fez da exigência de "falar verdade" um dogma; por isso, não falou... E nesse silêncio o mesmo partido viu a miragem de um lugar remoto chamado Cavaquistão. Imediatamente, a mesma senhora tornou-se presidente desse partido esfrangalhado.

O silêncio prolongou-se, mas, de súbito, vozes (vindas de dentro e, sobretudo, de fora) vieram dizer que ele já não falava como antigamente. Então a senhora falou "de facto" e ouviram-se coisas como "não à imigração", "acabe-se com o jornalismo feito pelos jornalistas" e, a última, "suspenda-se a democracia para resolver a crise". Dizem que são gaffes, mas nós desconfiamos: fazendo jus àquela imagem de rigor e exactidão, pensamos que os "deslizes" da dra. Manuela Ferreira são, acima de tudo, tiques reveladores de um estranho amor à democracia... sem braços mecânicos.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Voto sem McGinty

Em 1940, Preston Sturges contou-nos a "história americana" de "The Great McGinty". E quem foi ele? Um vadio recrutado pela máquina política para participar numa gigantesca fraude eleitoral. O esquema consistia em votar várias vezes, sob a identidade de um morto. McGinty foi tão bem sucedido que o catapultaram para dentro do sistema político. Pouco tempo depois, já era mayor.

Hoje a América vai a votos. E o mundo está de olho... O entusiasmo em torno destas eleições fez com que se batessem recordes no número de inscritos para votar e, pelas notícias que nos chegam, os eleitores de alguns estados já fazem longas filas perto das assembleias de voto. Nesta altura, duas preocupações centralizam as agendas política e mediática: apurar a verdadeira inclinação do eleitorado norte-americano - será que o chamado efeito da "espiral do silêncio" não inquinou muitas sondagens? - e garantir que todo o processo eleitoral decorra dentro da normalidade, sem casos de fraude ou arrebanhamento. Um novo software, que dizem ser infalível, está a ser testado precisamente para evitar que se repitam incidentes como o de Bush-Al Gore.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O rebentar da bolha

"Bobby" (2006) é um muito sentido (e humilde) tributo que Emilio Estevez faz a Robert Kennedy (1925-1968). Depois de ter vencido as primárias na California, o jovem senador de Nova Iorque fez um vigoroso discurso no Ambassador Hotel, transmitindo energia renovada a uma América desorientada e deprimida. Logo após proferir essas palavras, que encheram de esperança milhões de americanos, Bobby foi assassinado.

Durante a convenção democrata, que consagrou Barack Obama como o candidato democrata à Casa Branca, muito se falou sobre os três brancos supremacistas que tinham em mente matar o senador do Illinois. As autoridades procuraram desvalorizar esta tentativa falhada de reeditar aquele trágico dia de 1968. Entretanto, mais dois jovens, "confessos neonazis", foram detidos, antes de levarem a cabo uma série de planos de exterminação rácica, que culminaria com a morte de Obama. Nós já conhecemos o poder que a mera "sugestão" tem na terra do Tio Sam. Mas não há muito a fazer: reforçar a "bolha presidencial" e talvez, como os americanos dizem, rezar a Deus pela salvação daquele que já é um ícone geracional...

sábado, 4 de outubro de 2008

A politização das emoções

Em "Election" (1999), Tracy Flick (Reese Witherpsoon) candidata-se às eleições de estudantes no seu liceu, na esperança de alimentar o seu ego gigante com mais uma conquista académica (para além das suas notas irrepreensíveis). Tracy é trabalhadora, meticulosa, obsessiva, dissimulada e egomaníaca. Quando um popular jogador de futebol entra na corrida, Tracy receia que a vitória lhe esteja a fugir e, por isso, inicia uma campanha violenta em busca do reconhecimento do eleitorado e da desacreditação do seu adversário.

Sarah Palin teve o seu grande teste anteontem, no único grande debate com Joe Biden. Dizem que a governadora do Alasca superou as expectativas e que Biden foi ainda melhor do que se estava à espera. Nós não discordamos, mas a nulidade de Palin em relação a assuntos de política externa pareceu-nos preocupante: as suas expressões artificiais não lhe saiam da cara quando falava simplisticamente de coisas tão sérias como o Paquistão ou o actual estado do Afeganistão. Claro que também não disse nada de concreto; na realidade, foi muito mais elucidativo ouvir McCain no debate com Obama de há uma semana, onde ficaram claras as diferenças entre os dois candidatos. Já se viu que Palin só não desilude quando lhe é dada margem de manobra para debitar os seus chavões eleitoralistas e perpetuar uma certa imagem de everyday housewife. Todavia, pensamos que McCain terá cometido o erro de achar que Palin seria sempre bem sucedida a transmitir o mote "se eu estou aqui, vocês também podiam estar".


Quando anteontem Palin falou que sabe como é ser-se mãe na América e o tormento por que passam as famílias norte-americans à volta da mesa da cozinha a fazer as contas da casa, o debate deixou de ser (só) político. Biden foi obrigado a falar da sua experiência enquanto pai; do horror que foi ver o seu filho morrer (na sequência de um desastre de viação). A sua face transmutou-se e por instantes o respeitável senador quase se desfez em lágrimas. Foi um golpe (aparentemente) involuntário na estratégia de Palin: afinal, Biden também sabe mostrar emoções.

Adenda: Lá está a senhora Palin a brincar com o denominado sleaze factor.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A cegueira dos mais cegos

Em "Hollywood Ending" (2002), Val Waxman (Woody Allen) é um realizador de cinema caído no esquecimento que, graças à sua ex-mulher (Téa Leoni), recebe uma proposta para fazer um filme de grande orçamento. Mas, antes das filmagens começarem, Val perde a visão temporariamente. Isso poderia ser um impedimento para a maior parte dos realizadores, mas para Val não passa de apenas um contratempo que este terá de superar para que a sua carreira ganhe nova vida. A ironia ácida de tudo isto é que um filme totalmente realizado por um invisual vai conquistar o coração da crítica europeia - quem está cego aqui?

"Blindness" foi realizado por um visual (não obrigatoriamente um visionário) e é uma adaptação da obra "Ensaio Sobre a Cegueira", de José Saramago. A história apocalíptica de um vírus que tira a visão a grande parte da população de uma cidade foi considerada pela Associação Nacional de Cegos norte-americana como um ataque discriminatório contra os invisuais de todo o mundo, na medida em que retrata "os cegos como incapazes de fazer seja o que for e como viciados ou criminosos". Também há aqui uma ironia ácida: primeiro, provavelmente Fernando Meirelles nunca teve a população cega como público-alvo deste seu filme e, segundo, metaforicamente diríamos que essas pessoas que NÃO VIRAM este filme são tão ou mais cegas quanto aquelas que a obra de Saramago retrata. Cegas pela "estupidez", como diz o nóbel.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Aquelas experiências...

Em "The Mist", (subvalorizado) filme realizado por Frank Darabont e adaptado de uma obra de Stephen King, uma experiência científica levada a cabo pelo exército norte-americano provoca um buraco negro para uma outra dimensão. De lá saem monstros terríveis que vão querer envolver o mundo na sua bruma. O Apocalipse chega pela mão da ciência. Mas há quem pense que seja a revolta de Deus...

A maior experiência científica do século arrancou ontem, na fronteira entre a Suíça e a França. A intenção é a de gerar uma colisão de partículas dentro de um gigantesco túnel subterrâneo, construído para recriar a explosão que deu origem ao universo: o big bang. Dizem que a ciência poderá dar um salto como nunca antes, mas também já lemos que alguns cientistas estão receosos com as consequências desta experiência: a possibilidade de que dela resulte um buraco negro que sugue toda a terra alimenta, de momento, as previsões mais catastrofistas. Descobrir a origem do universo é descobrir as suas leis e, em certo sentido, uma tentativa (arrogante?) do Homem de chegar a Deus. Uma Torre de Babel que se eleva?

sábado, 9 de agosto de 2008

Dia de cão

Em Agosto de 1972, Sonny Wortzik e o seu parceiro Sal entraram num banco, com o objectivo de o assaltar em poucos minutos. Contudo, à custa da sua total falta de jeito para o crime, o assalto durou várias horas. Com centenas de polícias lá fora, Sonny e Sal resolveram usar como moeda de troca as 8 pessoas que mantinham sequestradas dentro do banco. O processo de negociação foi transmitido, em directo, para todas as televisões do país. Sonny transformou-se numa estrela e a sua história em ficção: "Dog Day Afternoon" (1975) de Sidney Lumet, com Al Pacino e John Cazale.

O assalto de anteontem a uma dependência do BES em Lisboa transformou Campolide num campo de batalha, durante cerca de 8 horas. Perto da meia-noite, os dois assaltantes, usando reféns como escudo, procuraram escapar à polícia. A televisão filmou tudo, em directo. Para um deles, os seus 15 minutos de fama coincidiram com os seus últimos minutos de vida. Ficção ou realidade?

terça-feira, 24 de junho de 2008

Morrer na praia

A Perfeição pode ser fatal. Em "Morte a Venezia" (1971), de Luchino Visconti, Gustav von Aschenbach (Dirk Bogarde) esteve muito próximo Dela e acabou por morrer na praia.

A Holanda, depois de eliminar, de forma contundente, a Itália e França, caiu aos pés de uma Rússia quase perfeita (3-1). Morreu na praia. Portugal, afastado pela Alemanha (3-2), nem isso.

domingo, 15 de junho de 2008

Um domingo qualquer

...

Hoje, não foi preciso nenhum animal de circo para a Suíça fazer história frente a Portugal: o 2-0 foi a sua a primeira vitória numa fase final de um Europeu. No entanto, a Suíça fica de fora e Portugal passa para os quartos-de-final, em primeiro lugar no grupo. Entretenimento inconsequente e mole, num domingo nebuloso.

A convite dos Blues

Vá lá: Spielberg já fez coisas bem mais previsíveis do que a cena de "Close Encounters of the Third Kind" (1977) em que a personagem de Richard Dreyfuss, picada pela curiosidade, aceita o convite de umas criaturinhas d'outro mundo para uma viagem intergaláctica a bordo de um espalhafatoso disco voador - coisa bem capaz de pôr num chinelo o iate do multimilionário russo Roman Abramovic.

Parece que foi do nada - diria Madaíl? Disse Eusébio - que o space cowboy da selecção nacional partiu, à velocidade da luz, para o Chelsea. Scolari falou da idade como um dos principais motivos para tão inesperada fuga: em breve, fará 60 anos, o que significa que a sua carreira está praticamente no fim. Repito: mais hawskiano que isto é impossível.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Duelos silenciosos

Não sabemos a opinião de "Harmonica" (Charles Bronson) sobre índios, nem tão-pouco sobre o República Checa-Portugal, mas sabemos que é lacónico, tem um olhar perscrutador e transforma o instrumento que lhe dá nome numa arma mortífera. "C'era una volta il west" (1968), de Sergio Leone, não seria uma obra-prima sem ele.

Karel Brückner é o seleccionador da República Checa, desde Dezembro de 2001. Dizem que falou muito pouco na última conferência de imprensa antes do jogo frente a Portugal. Apenas o vimos, sereno, a apontar a selecção nacional como a favorita para o jogo de amanhã. Tem uma presença nobre, rosto contemplativo e dá peso a cada palavra que profere. Como um chefe índio que lança, sem pestanejar, a seta envenenada.

sábado, 7 de junho de 2008

Personagens hawksianas

Os filmes de Clint Eastwood, como os de Howard Hawks (mais do que John Ford, a meu ver), falam-nos muito de homens e das relações, fortes e inquebráveis, que entre eles se estabelecem. São exemplos de uma cumplicidade rara que não encontramos nas mulheres. O epítome disso é "Million Dollar Baby" (2004), em que temos essa ligação feita de aço que une Clint Eastwood (o treinador) a Morgan Freeman (o seu ajudante). É uma amizade que não se deixa desgastar com palavras. Os silêncios bastam. Muito Old school, portanto.

"Felipão" é teimoso e impulsivo, mas também tem um coração de manteiga. É o homem que levanta os punhos com a mesma facilidade com que verte uma lágrima só de ver os seus "meninos". A cumplicidade com os jogadores é total, mas a chave do sucesso também está na relação de enorme proximidade que tem com Murtosa, o treinador-adjunto. Reforçamos esta impressão num anúncio publicitário que por aí anda...

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O sobrevivente

Depois de vários bombardeamentos e confrontos, a batalha de Iwo Jima contabiliza apenas um sobrevivente entre as forças nipónicas: o jovem soldado Saigo (Kazunari Ninomiya). Sobre ele pesa a memória de um admirável general: Kuribayashi (Ken Watanabe). A mensagem final do filme "Letters From Iwo Jima" (2006) é uma mensagem de esperança em toda uma geração, que da experiência inumana da guerra deverá apenas resgatar os exemplos de coragem e dignidade.

Está decidido: Barack Obama é o vencedor da nomeação democrata às eleições presidenciais. Apesar de não ter vencido no Dacota do Sul (resultado surpreendentemente positivo para Hillary Clinton), o ex-senador do Illinois atingiu ontem o "número mágico" de 2118 delegados. O seu discurso foi novamente revigorante, falando mais do país, de John McCain e de Hillary Clinton do que de si: afinal, é o primeiro candidato presidencial afro-americano na história dos Estados Unidos. Com efeito, uma parte substancial do seu discurso foi ocupada com elogios à sua adversária: a sua luta por um sistema de saúde "universal" e a forma destemida como travou esta campanha foram alguns dos pontos realçados por Obama. Um acto de puro cavalheirismo ou um sinal de que o tal make up sex já está em curso? Hillary, por sua vez, insistiu em não sair da corrida, dizendo que precisava de tempo para pensar. Mas, sabendo nós que as possibilidades de ganhar esta corrida na secretaria são remotas, provavelmente a ex-primeira-dama estará a ponderar retribuir os elogios a Obama e juntar-se a ele num novo combate chamado John McCain.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Lutar, lutar, lutar... mas a guerra não acabou já?

Na obra-prima de Clint Eastwood, "Letters From Iwo Jima" (2006), o general japonês Kuribayashi (Ken Watanabe) comandou os seus homens na célebre batalha de Iwo Jima, mesmo quando a derrota era mais do que certa. Um exemplo de persistência e sacríficio. Até ao fim.

Hillary Clinton mantém-se na corrida, mesmo quando toda a imprensa já deu Barack Obama como o vencedor da nomeação democrata às presidenciais. Muito se especula sobre o porquê da insistência de Hillary em permanecer na corrida: há quem diga que é para abater a dívida de 20 milhões de dólares que contraiu durante esta longa campanha eleitoral; porque está em negociações com Obama para definir o seu lugar na futura administração - os jornais não enjeitam a possibilidade de uma espécie de make up sex entre os candidatos -, mas ainda há quem escreva que Hillary está simplesmente à espera que Obama seja assassinado (!). De qualquer modo, Obama deverá fazer amanhã, logo depois das eleições no Montana e Dacota do Sul (que deverá vencer, sem dificuldade), o discurso da vitória.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Sobre o racismo: diferentes registos, o mesmo problema


Cena de "25th Hour" (2002), de Spike Lee, em que o protagonista Monty (Edward Norton), um traficante de droga com apenas um dia de liberdade pela frente, tem um momento de esmagadora clarividência, quando confrontado com o seu próprio reflexo.


Discurso de Barack Obama, que teve lugar ontem, dia 18 de Março, e que poderá ficar na história como o grande discurso sobre o racismo depois de "I Have a Dream" de Martin Luther King. Esta pungente dissertação sobre o racismo nos Estados Unidos surge na sequência da divulgação de imagens nas quais aparece o pastor Jeremiah Wright, o amigo e conselheiro religioso que baptizou as filhas de Obama e oficializou o seu casamento com Michelle Obama, a proferir um raivoso sermão em que apelida a população branca de "inimiga", ao mesmo tempo que incita ao voto em Obama.

sábado, 8 de março de 2008

I just don't care


(Ver do minuto 1:54 a 2:51)

As suas experiências petrolíferas fracassavam umas atrás das outras e, caído na penúria, resolve forjar uma ligação fraterna com Daniel Plainview, que enriquecia a cada dia. Foi um golpe desesperado de um pobre solitário.


Anteontem, George W. Bush baptizou a vitória, que há uns meses ninguém previa - na realidade, a sua mera suposição era implacavelmente ridicularizada -, de John McCain. Foi o (re)encontro de dois co-partidários que, pese embora tenham algumas ideias em comum (por exemplo, a continuação das tropas no Iraque), estão longe de ter uma relação amigável. Na origem da zanga terão estado as artimanhas que fizeram com que a candidatura de George W. Bush, nas primárias de 2000, levasse a melhor sobre a de McCain. Desde aí, McCain tem-se destacado como um "independente" dentro do partido, criticando a administração Bush, nomeadamente em programas televisivos (de esquerda) como o "Daily Show com Jon Stewart". O encontro de há dois dias foi uma irrecusável oportunidade para Bush, que nunca foi tão impopular, beber um pouco do momentum de McCain. O pobre até dançava. McCain lá fez o frete.

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