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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Killer Joe estreia em Portugal… directo em DVD*


Por muito destacado que o possamos pôr no nosso top do ano, o facto de "Killer Joe", um dos filmes com mais tomates do cinema norte-americano recente (a minha análise, com já dois anos, pode ser lida aqui), dizia, o facto de um dos mais selvagens, anarquistas ou estrondosamente imorais e insurrectos filmes dos últimos anos sair directamente em DVD* no nosso país já ninguém consegue anular. Recordo que "Killer Joe" esteve em Veneza e foi aí que William Friedkin foi apontado por uma boa parte (ou a parte boa) da imprensa como um dos mais do que possíveis vencedores do Leão de Ouro. (Este acabou por ser entregue ao horripilante e académico ou academicamente horripilante "Faust" de Aleksandr Sokurov.)

Apanhar no mercado de empilhamento de títulos supostamente "sem história" que é o direct-to-DVD* este ultrajante conto americano, com a maior interpretação masculina do ano de longe, pelo já inevitável Matthew McConaughey, é constatar que a coragem dos mais velhos não sai premiada no mercado, que o que o mercado quer - e o público não se queixa - é rotina, copinhos de leite e ignorância. Ou então quer apenas telenovela, como dizia João César Monteiro. O espírito crítico - e este é um filme em que a crítica é só corpo, hereticamente contra o espírito -  não vai longe num país onde as bolsas de resistência contra o monopólio crescente da pipocada são cada vez menos, em número e em força. Resta-nos alugar "a coisa" para provar que o público não se deixa domar pelos falsos confortos ideológicos. O acto terrorista, anti-sistema, do ano é alugar e ver "Killer Joe", como quem encomenda um balde de pernas de frango do KFC ou vai ao cinema divertir-se com "jogos da fome".

* - Na realidade, é preciso impor aqui uma ressalva: até agora, só apanhei o filme de Friedkin na oferta do MEO Videoclube. Não seria o primeiro título a sair directo no mercado (virtual) de aluguer e não ser sequer lançado em suporte DVD. Por isso, nem o DVD neste momento está garantido. 

domingo, 3 de março de 2013

Ligação directa à pala de Walsh (VII)


Já estamos no mês de Março, mas convém recuarmos um pouco para ver o que o mês passado nos ofereceu, à pala de Walsh.

Entre os textos escritos (também) por mim, começou como acabou: com "Guerra Civil", filme de Pedro Caldas que está "na prateleira" desde 2010 mas que, graças às suas aparições pontuais (começando pelo IndieLisboa e terminando na sua passagem pela RTP2), tem conquistado os favores da cinefilia. A minha crónica foi (também) sobre ele e a esta seguiu-se uma entrevista ao realizador e actor principal, cuja primeira parte já está disponível para leitura. Participei ainda nas habituais rubricas Sopa de Planos e Filme FaladoRecuperei o filme "Sorcerer" de William Friedkin, artigo que acabou por estabelecer um interessante diálogo com o texto de Miguel Domingues (ele que tem novo blogue), também publicado no mês de Fevereiro, sobre o pouco visto filme de Henri-Georges Clouzot "L'assassin habite au 21".

Marquei ainda presença na cobertura fal(h)ada à noite de Óscares aqui e, no último dia do mês, revisitei a agenda noticiosa do mês com o Ricardo Vieira Lisboa e, claro, com a ajuda do cinema.

Fora do meu domínio directo de acção, tenho a destacar o lançamento de uma nova rubrica dedicada a séries televisivas que sairá da pena - sim, escrevo-vos directamente do século XIX - do João Lameira e a publicação pelo Carlos Natálio da segunda parte da sua entrevista ao crítico de cinema Adrian Martin.

Em Março, teremos - ou temos, aliás - o Carlos Natálio ao leme da edição e podemos prometer mais e ainda melhor reflexão em torno de tudo o que mexe... (n)a imagem.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty: 2.ª Edição

 
 Still de "Zidane, un portrait du 21e siècle" (2006) de Douglas Gordon e Philippe Parreno

A todos os "treinadores de bancada" da cinéfilia portuguesa, venho comunicar-vos que está de volta o grande evento cinéfilo-desportivo da blogosfera internacional: o torneio interblogues A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty. Já pode deixar de lamentar não ter podido participar na primeira edição e jogar contra temíveis "dream teams" treinadas com os métodos mais científicos.

As regras eram mínimas na primeira edição, não deixarão de o ser agora, mas com pequenas nuances com vista a "actualizar" o espírito da competição. Posto isto - e agora que está aberta a fase de inscrições - deverão ter em mente o seguinte:

1. Só poderão escolher jogadores/autores que estejam em actividade no dia de hoje. Não valem autores que, estando vivos, não realizaram qualquer filme nos últimos 5 a 10 anos. 

2. Deverão escolher os jogadores/autores que sejam representativos da "política desportiva" dos clubes que administram, leia-se, dos vossos blogues cinéfilos.

3. Cada escolha deverá ser justificada, em textos curtos, quanto à escolha em si mesma e/ou à posição do jogador no campo.

4. Não deverão repetir jogadores já escolhidos por outros concorrentes. Caso não consigam evitar escolher jogadores já seleccionados por outro treinador, então deverão colocá-lo noutra área do campo, fundamentando devidamente esta medida de excepção.

5. Deverão publicar nos vossos espaços a imagem da vossa equipa ideal, bem como os futuros embates com as outras equipas, tal como é estabelecido aqui no CINEdrio, o campeão do último A Angústia do Blogger Cinéfilo....

6. Como aconteceu na primeira edição, o vencedor deste torneio terá de arcar com a organização da próxima edição, em moldes a discutir com a casa-mãe do CINEdrio.

Seis pontos apenas separam-no de entrar na arena de todos os sonhos.

Entretanto, a título exemplificativo, e usufruindo do título de campeão da última edição, avanço já para a publicação da equipa do CINEdrio FC que irá alinhar neste torneio:


Guarda-redes: James Benning. Continua a ser o guardião inexpugnável das redes do CINEdrio FC. Imperturbável, paciente e muito concentrado nas decorrências de cada jogo, Benning é um guarda-redes de grande equipa.

Defesa esquerdo: John Carpenter. Desde o último torneio, Carpenter tornou-se ainda mais num jogador moderno, fazendo - como Fábio Coentrão - todo o corredor esquerdo. Marcou alguns golos na fase de preparação, em jogos realizados à porta fechada. Ainda assim, não se sabe se conseguirá retomar a excelente forma física do último torneio.

Defesa centro (esquerdo): James Gray. É meticuloso, não inventa, joga maravilhosamente dentro das limitações físicas que tem. É novo, mas parece um veterano a jogar: não falha passes, é bom a fazer cortes por antecipação, mas também não prima pela velocidade e virtuosismo técnico. Tacticamente perfeito, no entanto.

Defesa centro (direito): Clint Eastwood. Porque ainda está activo - e bem activo - resolvi mantê-lo no centro da defesa. É uma aposta de risco desde o episódio em que terá visto "um jogador invisível" infiltrar-se na grande área. A sua aparente fé no paranormal tem sido motivo de alguma dúvida - e alguma chacota - no balneário. Contudo, ainda tem "créditos de capitão".

Defesa direito: William Friedkin. Jogador que percebe muito bem a engrenagem colectiva, mas que (paradoxalmente) não prima sempre pela segurança. Aventura-se muito em espaços avançados ou recuados, sendo pouco constante em termos tácticos, mas é virtuoso e até empolgante quando está inspirado.

Médio defensivo: Ti West. É o box-to-box da equipa, aguenta magistralmente a bola a meio campo, raramente falhando o passe que balanceia a equipa para o ataque. Primoroso à defesa, West é o paradigma do jogador que parece uma coisa mas é outra - e quando se revela como é, tem o poder de deixar os adversários banzados com a precisão do seu jogo.

Médio esquerdo: Gus Van Sant. Jogador veloz e tecnicista, mas sempre solidário com a equipa. Perfeito no último passe e driblador nato mesmo sob pressão do adversário. Com ele, o jogo jogado flui em todo o campo.

Médio centro: Terrence Malick. Um criativo inexcedível que inventa soluções a meio campo que resolvem jogos. Tem um jogo aéreo melhor que a maioria dos jogadores que ocupam o seu lugar no campo. Quase invisível no campo, é o elo de união da equipa no balneário, amigo e confidente de todos os jogadores.

Médio direito: M. Night Shyamalan. É um risco pô-lo na equipa titular, mas se estiver no topo de forma pode fazer coisas que ninguém ousa fazer - e bem feitas! Exemplo disso foi aquele jogo - também realizado à porta fechada - em que marcou um golo a partir do meio campo, sempre a dar toques e com a cabeça!, sem que a bola tivesse tocado no chão.

Avançado (esquerdo): Jean-Luc Godard. É imprevisível, inconstante, mas na maior parte das vezes genial. Projecta-se no espaço vazio como ninguém: ele entra na grande área e posiciona-se onde os defesas adversários não se lembram de estar. Aparece para finalizar quando ninguém dava por ele. A idade pesa-lhe, mas não se fie muito nela...

Ponta-de-lança: Quentin Tarantino. De cabeça, de calcanhar, em exímios pontapés-de-bicicleta, Tarantino marca de todas as formas e feitios. É matreiro o suficiente para grandes simulações na grande área para provocar o penalty decisivo ou para grandes teatros, quando a equipa está vencer, para queimar o tempo que falta. Faz tudo para levar a sua equipa à vitória, mas na realidade só pensa numa coisa: a baliza. É muito polémico: um dia disse que preferia ser o melhor marcador do torneio do que ver a sua equipa ganhar.

Treinador: Sam Fuller*. Aqui não há "manáger" a dizer ao treinador o que deve fazer ou deixar de fazer... Fuller é o homem. Com preferência por "treinos sem bola" que transformam o campo de futebol num campo de batalha, o "big red one" (como é conhecido) lidera esta equipa com pulso forte. Se o outro pede "tranquilidade", este pede "acção!".

Aqui está o CINEdrio FC. Agora é a sua vez de ser mister e avançar com a "equipa de sonho" do seu blogue/site. Faça-o deixando na caixa de comentários deste post a sua selecção, com a devida fundamentação das suas escolhas (porque isto não é a selecção nacional de futebol). A sua equipa será publicada aqui e incluída depois no sorteio.

* - adenda desde este post, onde estabeleci: "para além dos jogadores, poderão, a título facultativo, indicar o treinador (que não terá de ser um "autor no activo") com o perfil mais indicado para pôr as vossos galácticos na ordem."

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

The Birthday Party (1968) de William Friedkin

Para se perceber, de facto, a mais recente "face" de Friedkin, é preciso recuar até à sua segunda longa-metragem, filme que resulta de uma colaboração estreita com o dramaturgo, prémio Nóbel, Harold Pinter. O Lisbon and Estoril Film Festival deu-nos esta prenda, escondida numa programação de luxo, que só podemos agradecer: um incrível raccord que liga 1968 a 2011, mais concretamente, "The Birthday Party" a "Killer Joe".

As semelhanças são extraordinárias: desde logo, são filmes espacialmente concentrados numa "casa familiar"; histórias de vários pequenos enigmas discursivos propiciados por personagens "típicas" ante a ameaça de alguém que vem de fora, alguém que "pensa" e "age" de outro modo; ajustes de contas entre o visitado e o visitante que condiciona cada respiração, em esforço e sufoco desde o início, debaixo do tecto familiar; enfim, dois filmes teatralizados baseados num jogo de palavras - e aparências - que, até ao fim, recusa qualquer moralismo linear. No caso de "Killer Joe" temos um trabalho de polimento dramático levado ao limite, correndo o risco de se oferecer como "estilo puro", como forma plana, sem saliências ou manchas, de tão limada está pela câmara e a caneta dos seus autores.

Temos também aqui, mas também em "The Birthday Party" - e essa é uma das grandes revelações neste double bill! -, uma série de diálogos ritmadamente burilados, verborreia por vezes que se auto-afirma como "gatafunho dramaticamente inútil", mas "ritmadamente" necessário. Exemplos? Bem, em "Killer Joe", por mais do que uma vez, as personagens dizem palavras ou frases saídas do contexto, como quem regurgita o verbo para não descompensar a mancha de texto. Dottie diz "babies", quando está semi-nua, nas costas de Joe. A montagem de "Killer Joe" responde com uma sintaxe semelhante - já acontecia isso em "Bug". Vemos flashes de trovões ou outras imagens dramaticamente "deslocadas", mas que, in toto, equilibram formalmente a obra. O que é que isto tem a ver com "The Birthday Party"? Neste filme, no final, face à indefinição do plot, as palavras - e as personagens que as dizem - começam a existir não apesar de mas precisamente para pontuar a superfície estilística do filme - sentimos a escrita de Pinter como "jogo" de associação de ideias, mas sobretudo, de associação de palavras foneticamente articuladas, mas semântica e dramaticamente "deslocadas".

Os dois "homens misteriosos" questionam a personagem paranóica de Robert Shaw em jeito de "pingue-pongue" linguístico que, em determinado momento, faz com que o diálogo (ou monólogo ou coreografia verborreica) se esvazie completamente de qualquer sentido. O significado deixa de ser resgatável pelo espectador, que, assim, mergulha num universo kafkiano onde as expectativas não batem com códigos que julgamos familiares. Este "estranhamento", esta "teatralização", é o que o brilhante filme de Friedkin/Pinter mais relevantemente traz a uma releitura de "Killer Joe". Releitura de toda uma obra - algo que só os grandes filmes conseguem motivar.

domingo, 6 de novembro de 2011

Killer Joe (2011) de William Friedkin


"Killer Joe" é Friedkin a, por um lado, levar mais longe certos aspectos do seu filme anterior, "Bug", e, ao mesmo tempo, a resistir a outros aspectos do mesmo filme, que se produziam, sobretudo, nas entrelinhas. A literalidade de tudo em "Killer Joe" é a primeira coisa que pode chocar o seu público, como terá chocado parte da imprensa e, seguramente, parte do júri do último Festival de Veneza; é também ela que pode fascinar quem, por exemplo, pediu a plenos pulmões o Leão para Friedkin - e não foram poucos.

De qualquer modo, "Killer Joe", como digo, intensifica o dispositivo teatral de "Bug" (os dois são originariamente "peças de teatro"), mas, ao mesmo tempo, livra-se do discurso politizado sobre os media e a sociedade (o securitarismo pós-11 de Setembro). Claro que poder-me-ão dizer que "Killer Joe" é o retrato de uma certa América, uma América que já conhecemos em filmes dos Coen ou de Tarantino, certo, mas aqui há um dispositivo que abstractiza mais do que solidifica esse retrato. "Killer Joe" existe para culminar na última enorme sequência, espacialmente concentrada na roulotte e que implode dramaticamente aí, à volta de uma mesa mal posta e uma refeição fast-food de KFC para toda a família classe média baixa texana se lambuzar depois da reza da praxe e os falsos discursos de "amor e solidariedade" para o mundo... O político não vai mais longe do que isto, neste último filme de Friedkin - algo que lamento, pelo menos, tendo em conta a fortíssima filiação formal e "contextual" que este filme partilha com "Bug", mas, de qualquer modo, em relação a este "sobrevive" o tal dispositivo, que nunca esteve tão bem oleado... como a "máquina de potência", leia-se, como a "máquina de in-potência" que é o protagonista que dá título ao filme.

Joe é 100% estilo, é 100% texano, mas um 100% tão preciso quanto a sua expressão numérica. Tudo nele - sobretudo, a sua patológica obsessão pela pequena Lolita do filme (Dottie) - é cronometrado, pensado ao milímetro, "protocolizado", ele é um detective e um assassino ao mesmo tempo, mas ele não é dois, não alimenta "vida dupla": ele é, de facto, um detective-assassino ou um assassino-detective (a ordem não interessa), alguém que auto-legitima a sua acção com toda a prática e retórica procedimentais, processuais/negociais, próprias de um burocrata do Estado. Ele age só em conformidade com o "acordado" e segundo as suas leis - não tão diferentes quanto isso, pensará ele, das leis do Estado.

Os gestos de Joe (mesmo quando reduzidos a zero) são pura coreografia maquinal, de "Estado", como se o detective se alimentasse do assassino e vice-versa. Ele produz a perfeita UNIDADE entre a lei e o fora-da-lei. Os mecanismos conceptuais protegem-no - a certa altura a pequena lolita diz "até dizem que a maior parte dos polícias não chega a usar, por uma vez que seja, a sua arma", ao que Joe replica "there is a lot of paper work to do". Joe di-lo, seguramente, por experiência própria, mas sem menosprezo heróico, texano, pelo "paper work" - bem pelo contrário! Joe sabe que o "paper work" é que faz a farda, à xerife lendário, que ele enverga (a burocracia é condição sine qua non para o seu "estilo"), Joe é um "proud detective" e, se virmos, se calhar, até tem "razões" muito objectivas para o ser.

Aqui está, enfim, a complexidade (política? Sem dúvida!) da personagem principal deste último filme de Friedkin, a complexidade decorrente do seu "robotismo administrativo" que choca com o desleixo da saloiada que decide contratá-lo para um trabalho sujo. Joe é impecável e todos os outros protagonistas do filme sabem que não o são, sabem que não podem nada contra ele. E é, a partir daqui, que a omnipotência de Joe se transforma num burlesco sobre a sua aparente "impotência sexual", encenado, numa farsa completamente over the top, excessiva e ultrajante, na sequência final, mas já prenunciado na cena de "strip tease ao contrário" depois do date na roulotte com a pequena, doce e ingénua, Lolita (pureza que não mancha o lado impecável de Joe).

Friedkin trabalha, pontualmente - leia-se, ponto a ponto -, para criar as condições necessárias para que Joe se vá revelando até à apoteose final, grotesca, epicamente grotesca. A cena da perninha frita de KFC como segundo falo de Joe lembra as taras sexuais de Frank Booth em "Blue Velvet": há uma impotência que é, enfim, uma in-potência - o sexo é impraticável, é demasiado sujo em si mesmo, demasiado terreno, para um homem-máquina como Joe, por isso, ele usa um strap-on de frango frito. Enfim, por alguma razão os olhos de Joe "magoam", como diz a pequena Dottie. De facto, o rosto de McConaughey (actor do ano) é liso, 100% inexpressivo, de impenetrável leitura. Dito de outro modo: em momento algum, sentimos que conseguimos antecipar o próximo gesto de Joe, apesar de este gesto, quando surge, aparecer como o mais exacto e racional possível no segundo a seguir. Ele age de acordo com o acordado, mas age completamente fora do esquema daquela família, fora do nosso esquema, fora do que a expressividade humana deixa (quase sempre) entrever.

Joe, que age em conformidade com um quadro de princípios e procedimentos, é uma potência que se gera por obrigação burocrática, uma potência que se gera na impotência - a sua impotência de ter "olhos de gente". Joe é que empresta ao filme a tal "literalidade" que mencionei no início deste comentário; é ele, com a sua psicose - potência impotente, ou impotência potente -, que cronometra cada partícula que cabe neste filme. Por isso, "Killer Joe" é cinema desafectado e desafectante; cinema frio (cool) ao qual respondemos com a única arma possível - a gargalhada provocada pelo mais grosseiro e imprevisível "humor negro" -; é coisa ultra-articulada nos pontos, ultra-desarticulada nas linhas que os ligam entre si, que termina chocantemente com o primeiro esboço de emoção: uma expressão - de contentamento, talvez - no rosto - outrora 100% liso, 100% não-humano - do detective-assassino que também é o mais cabrão dos assassinos-detectives.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Vem aí o novo Friedkin, o bom velho Friedkin (IV)


Não é só por estas bandas que se celebra a obra de Friedkin. A próxima edição do Estoril Film Festival - que, agora, vai ser também em Lisboa - vai realizar uma retrospectiva da obra de Friedkin, incluindo alguns dos seus filmes menos vistos, como aquele que fez em 1968 com Harold Pinter, "The Birthday Party".

Como não podia deixar de ser, "Killer Joe" abrirá o ciclo e o próprio festival, que conta - como é norma - com um programa verdadeiramente assombroso (últimos Gus Van Sant, Lars von Trier, Almodóvar, Philippe Garrel, Akerman, Aoyama, Kore-eda, Villaronga, Dardenne, Cronenberg, Clooney, Polanski, etc.).

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Vem aí o novo Friedkin, o bom velho Friedkin (III): movimento como tal

A páginas tantas, no seu "Theory of Film", Kracauer escreve que as perseguições no cinema são “movimento no seu extremo, pode-se mesmo dizer movimento como tal". Friedkin não é insensível a este "movimento como tal"; filmou quatro perseguições impressionantes, em "French Connection" (a pé e usando tudo o que é transporte), "To Live and Die in L.A." (de carro) e nos subvalorizados "Jade" (à la "Bullit") e até "The Hunted" (uma caça ao homem a pé), filme que não refiro aqui, por já o ter mostrado quanto baste noutro post dedicado aos movie brats.



"French Connection" (1971)


"To Live and Die in L.A." (1985)


"Jade" (1995)


Temos, então, uma grande perseguição por década: o que nos dirá "Killer Joe" sobre esta matéria?

sábado, 1 de outubro de 2011

Vem aí o novo Friedkin, o bom velho Friedkin (II)


Não ganhou o Leão de Ouro. Dizem que foi acusado de ser um filme fabricado, demasiado fabricado... com vista a sacar de cada cena um efeito cool tão falso quanto irresistível. Um relógio suíço muito americano, terão pensado os seus detractores. Não nos espanta minimamente que pensem assim: corpos diferentes com cérebros idênticos disseram coisa bem pior do filme mais "calculado" do mundo, "Cruising". Calculado na luz, nos gestos...ou melhor, Friedkin tem destas coisas: ele trabalha, de facto, sobre "efeitos" como nenhum outro realizador. Cada cena é carpinteirada com uma precisão que choca, muitas vezes, com a sua "pouca forma" narrativa.

Os filmes de Friedkin são trabalhados atomicamente e não anatomicamente; as ligações, a meu ver, parecem interessar pouco a Friedkin, que cose e descose com grande facilidade - quase desleixo? ou será... um desleixo controlado? Ou será o desleixo controlado aquilo que muitos dirão ser o grande pecado do realizador de "French Connection" e "O Exorcista": a sua eventual falta de moral, traduzida num cinema amoral, formal no ponto, informal na linha...? Exemplo?



Ok, peguem nesta cena de "Killer Joe" e digam-me se não é das coisas melhor montadas que viram nos últimos tempos e digam-me se não é assim por causa da postura dos actores - calculada? Pois! -, do seu pace a andar e a falar - calculado? Pois! - ou por causa da forma como isto tudo é mostrado pela imagem e, não menos importante, pelo som - realização e montagem calculadas? Pois! O "cling" do isqueiro a servir de linha entre o interior da sala de bilhar e o exterior, onde "joga" a beldade; entre o negócio fechado com Hirsch e o "sair fora dele"... McConaughey vai abrindo e fechando o isqueiro e o som que produz - ultra-cool, ultra...calculado? - gera uma linha invisível que liga o dentro e o fora. A solução surge no meio - como quase sempre na vida? Não, esqueçam, não há mesmo moral aqui... apenas o tal gesto "no vazio" que liga as partes.

E o que é que isto tem a ver com o átomo friedkiano? É que o realizador norte-americano, como acontece em "Bug", por exemplo, não se interessa muito pelos pretextos anedóticos que tornam coesa - aos olhos do espectador-médio - as intrigas dos seus filmes. Ele parece trabalhar muito mais sobre cada cena do que sobre as ligações entre as cenas - há uma descompensação que o torna, a meu ver, pouco consensual. As cenas, contudo, ressoam umas nas outras através desses sons e movimentos calculados ao milímetro. Penso que toda esta maquinaria que é o seu cinema denuncia-se, isto é, humaniza-se, fragiliza-se, precisamente, nos intervalos. É o tiro no pneu que atira o espectador para fora da estrada e o impede de adorar Friedkin. Uma pena quando assim é.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Vem aí o novo Friedkin, o bom velho Friedkin (I)

É o realizador que queremos ver premiado amanhã, com o Leão de Ouro de Veneza. Não só pelas imagens que nos chegam, e algumas reacções entusiasmantes, mas, acima de tudo, porque Friedkin merece ser, finalmente, reconhecido como um dos grandes "autores" do cinema americano, alguém que está longe de estar arrumado na história do cinema na categoria de "mais um movie brat que cavou a sua própria sepultura". Erra quem o tem por morto.

"Killer Joe" precisa de se estrear em Portugal. Até lá, vamos dando a cobertura devida.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Bug (2006) de William Friedkin

William Friedkin é, quanto a mim, um dos mais interessantes realizadores norte-americanos da actualidade. Porquê? Em primeiro lugar, devido à sua indisfarçável aptidão para criar uma atmosfera cinematográfica própria em cada filme que realiza; em segundo lugar, porque filma como poucos e, em terceiro, porque preserva desavergonhadamente a aura de realizador maldito.

O eclectismo temático da sua filmografia é prova disso: desde o começo, Friedkin podia-se ter agarrado ao rótulo de "realizador de acção", mas o brilhante "French Connection" nada teve a ver com o seu outro (na realidade último) sucesso de bilheteiras: o tétrico e cavernal "The Exorcist". Desde aí, a derrapagem tem sido notória, muitos dos seus filmes caíram no esquecimento e, só agora, alguns deles estão a ser recuperados, graças ao DVD (como "Cruising").

É um realizador tão subvalorizado que poucos foram aqueles que levaram a sério o filme que precede este "Bug", de nome "The Hunted". Por acaso, filme de acção animal a fazer lembrar, a espaços, "French Connection", com o estilo frontal e ultra descarnado (sem um efeito CGI) próprio de Friedkin. "Bug" leva tudo isto a um novo extremo: desta vez, temos a câmara e pouco mais do que cinco personagens num único cenário (um motel isolado no deserto).

Em suma, parece contemplar tudo aquilo que se poderia apelidar de cenário "à la Roman Polanski", com uma história que resultaria do cruzamento entre Cronenberg e a sequência da personagem de Sterling Hayden em "Dr. Strangelove" (aquela que julgava que a água estava contaminada...).

"Bug" lembra ainda a dinâmica das "peças filmadas" de Alfred Hitchcock, ainda que a montagem se sobressaia para enfatizar o delírio e a loucura (com um punhado de flashes atordoantes a intercalar cenas). Mas estas referências são apenas pontuais e nunca "Bug" envereda pela homenagem cinematográfica ou a lógica do filme-filme meramente citatório: as marcas de outros universos cinematográficos estão lá, mas devidamente digeridas e transformadas numa linguagem inusitada, entre o cinema e o teatro, como entre a realidade e o delírio, que não localizamos com facilidade noutro filme.

A paranóia securitária pós-11 de Setembro pulsa em cada cena de "Bug", como os bichos que mordem por baixo da pele dos dois protagonistas (Ashley Judd e Michael Shannon, ambos óptimos). A câmara nunca se desliga da acção, criando uma sensação de desajustamento, que se acentua dramaticamente na última meia hora. Aí percebemos que "Bug" não é só política; é também uma das mais estranhas e trágicas histórias de amor.

Ler mais aqui: IMDB e DVDbeaver.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Cruising (1980) de William Friedkin

No seu tempo, milhares procuraram sabotar a sua realização com manifestações de ira ruidosas que perturbaram as filmagens. "Cruising" trouxe à tona o confronto entre os submundos organizados da vida homossexual. Na altura, a marginalidade da vida gay era imposta por um conjunto rígido de princípios que regia as sociedades ocidentais, entre elas, a norte-americana e, dentro dela, a de Nova Iorque. Aí, navegar na noite profunda significava entrar num bar sado-maso gay, onde o cabedal e as correntes representavam a pertença a uma espécie de subcultura da homossexualidade bruta.

Apesar do cenário de "Cruising" pedir um ensaio sociológico com respostas mais ou menos concretas aos "comos" e "porquês" da formação dessas subculturas, o que verdadeiramente interessou a William Friedkin foi a sua personagem principal, interpretada por Al Pacino: um polícia infiltrado a investigar uma série de crimes perpetrados sobre homossexuais na noite nova iorquina.

A "psique" do protagonista é dissecada a bisturi: a própria estrutura do filme é sinuosa e elíptica, como se esse se passasse na sua cabeça. Daí que "Cruising" abra mais perguntas do que aclare respostas. Trata-se de um filme que se debate muito mais com questões complexas, como a identidade (e, a nosso ver, a sexualidade), do que com um crime específico, recusando a lógica moralista fácil de fazer associar a um crime um castigo predeterminado.

Como é habitual em Friedkin, não há "bons e maus", sendo possível, por muito que nos perturbe, a identificação com a crise existencial de Pacino.

Ler mais aqui: IMDB e DVDbeaver.

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