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terça-feira, 2 de abril de 2013
Ligação directa à pala de Walsh (VIII)
Foi um mês (algo trabalhoso, devo confessar) dedicado significativamente a lançar entrevistas: a segunda parte da nossa conversa com Pedro Caldas e Francisco Belard e a entrevista exclusiva realizada à documentarista britânica Kim Longinotto (é o seu excelente "Gaea Girls", já analisado aqui no CINEdrio, que ponho na imagem). Não conduzida por mim, mas pelo João Lameira e pelo Ricardo Lisboa, destaco também a entrevista ao cineasta Joaquim Leitão que publicámos no final do mês passado. Para além disso, contribuí nas rubricas habituais da categoria Contra-campo: Straub e Huillet no Filme Falado, sexo implícito no regressado Cadáver Esquisito (complementando o sexo explícito da Sopa de Planos) e a revisão do mês nas Actualidades. Aliás, se ainda não percebeu o que cabe em cada categoria, convido-o a visitar o nosso índice, activado este mês para melhor guiar os nossos leitores.
A minha crónica Civic TV foi dedicada ao filme de Nicholas Ray "Party Girl", exibido há pouco tempo no canal TCM. Ainda nas crónicas, gostava de deixar uma palavra de destaque para o mais recente número da recém-criada crónica de João Lameira, Em Série, dedicada à interessante série "Odisseia", da autoria de Tiago Guedes, Gonçalo Waddington e Bruno Nogueira. A escrita do Tiago "Napalm" Ribeiro atinge o pico da ironia e boa disposição na sua mais recente crónica Ecstasy of Gold, dedicada ao "Psycho" não o de Hitchcok, mas o remake conceptual de Gus Van Sant, cineasta que nos brindou há dias com uma das maiores desilusões do ano. A propósito dela, o Carlos Natálio escreveu a sua crítica, que subscrevo em cada linha. Fecha-se o círculo do mês aqui, já que na nossa entrevista a Pedro Caldas e Francisco Belard o Gus Van Sant virtuoso, desafiante e genial era motivo de conversa, sem que se pressentisse "no horizonte" a inconsequente aparição de "Promised Land".
Este mês, a título excepcional, teremos outra vez o Carlos Natálio à frente da edição. Posso avançar que o À pala de Walsh marcará presença na próxima edição do IndieLisboa. Será o sítio certo para acompanhar este grande festival de cinema.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty: 2.ª Edição
A todos os "treinadores de bancada" da cinéfilia portuguesa, venho comunicar-vos que está de volta o grande evento cinéfilo-desportivo da blogosfera internacional: o torneio interblogues A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty. Já pode deixar de lamentar não ter podido participar na primeira edição e jogar contra temíveis "dream teams" treinadas com os métodos mais científicos.
As regras eram mínimas na primeira edição, não deixarão de o ser agora, mas com pequenas nuances com vista a "actualizar" o espírito da competição. Posto isto - e agora que está aberta a fase de inscrições - deverão ter em mente o seguinte:
1. Só poderão escolher jogadores/autores que estejam em actividade no dia de hoje. Não valem autores que, estando vivos, não realizaram qualquer filme nos últimos 5 a 10 anos.
2. Deverão escolher os jogadores/autores que sejam representativos da "política desportiva" dos clubes que administram, leia-se, dos vossos blogues cinéfilos.
3. Cada escolha deverá ser justificada, em textos curtos, quanto à escolha em si mesma e/ou à posição do jogador no campo.
4. Não deverão repetir jogadores já escolhidos por outros concorrentes. Caso não consigam evitar escolher jogadores já seleccionados por outro treinador, então deverão colocá-lo noutra área do campo, fundamentando devidamente esta medida de excepção.
5. Deverão publicar nos vossos espaços a imagem da vossa equipa ideal, bem como os futuros embates com as outras equipas, tal como é estabelecido aqui no CINEdrio, o campeão do último A Angústia do Blogger Cinéfilo....
6. Como aconteceu na primeira edição, o vencedor deste torneio terá de arcar com a organização da próxima edição, em moldes a discutir com a casa-mãe do CINEdrio.
Seis pontos apenas separam-no de entrar na arena de todos os sonhos.
Entretanto, a título exemplificativo, e usufruindo do título de campeão da última edição, avanço já para a publicação da equipa do CINEdrio FC que irá alinhar neste torneio:
Guarda-redes: James Benning. Continua a ser o guardião inexpugnável das redes do CINEdrio FC. Imperturbável, paciente e muito concentrado nas decorrências de cada jogo, Benning é um guarda-redes de grande equipa.
Defesa esquerdo: John Carpenter. Desde o último torneio, Carpenter tornou-se ainda mais num jogador moderno, fazendo - como Fábio Coentrão - todo o corredor esquerdo. Marcou alguns golos na fase de preparação, em jogos realizados à porta fechada. Ainda assim, não se sabe se conseguirá retomar a excelente forma física do último torneio.
Defesa centro (esquerdo): James Gray. É meticuloso, não inventa, joga maravilhosamente dentro das limitações físicas que tem. É novo, mas parece um veterano a jogar: não falha passes, é bom a fazer cortes por antecipação, mas também não prima pela velocidade e virtuosismo técnico. Tacticamente perfeito, no entanto.
Defesa centro (direito): Clint Eastwood. Porque ainda está activo - e bem activo - resolvi mantê-lo no centro da defesa. É uma aposta de risco desde o episódio em que terá visto "um jogador invisível" infiltrar-se na grande área. A sua aparente fé no paranormal tem sido motivo de alguma dúvida - e alguma chacota - no balneário. Contudo, ainda tem "créditos de capitão".
Defesa direito: William Friedkin. Jogador que percebe muito bem a engrenagem colectiva, mas que (paradoxalmente) não prima sempre pela segurança. Aventura-se muito em espaços avançados ou recuados, sendo pouco constante em termos tácticos, mas é virtuoso e até empolgante quando está inspirado.
Médio defensivo: Ti West. É o box-to-box da equipa, aguenta magistralmente a bola a meio campo, raramente falhando o passe que balanceia a equipa para o ataque. Primoroso à defesa, West é o paradigma do jogador que parece uma coisa mas é outra - e quando se revela como é, tem o poder de deixar os adversários banzados com a precisão do seu jogo.
Médio esquerdo: Gus Van Sant. Jogador veloz e tecnicista, mas sempre solidário com a equipa. Perfeito no último passe e driblador nato mesmo sob pressão do adversário. Com ele, o jogo jogado flui em todo o campo.
Médio centro: Terrence Malick. Um criativo inexcedível que inventa soluções a meio campo que resolvem jogos. Tem um jogo aéreo melhor que a maioria dos jogadores que ocupam o seu lugar no campo. Quase invisível no campo, é o elo de união da equipa no balneário, amigo e confidente de todos os jogadores.
Médio direito: M. Night Shyamalan. É um risco pô-lo na equipa titular, mas se estiver no topo de forma pode fazer coisas que ninguém ousa fazer - e bem feitas! Exemplo disso foi aquele jogo - também realizado à porta fechada - em que marcou um golo a partir do meio campo, sempre a dar toques e com a cabeça!, sem que a bola tivesse tocado no chão.
Avançado (esquerdo): Jean-Luc Godard. É imprevisível, inconstante, mas na maior parte das vezes genial. Projecta-se no espaço vazio como ninguém: ele entra na grande área e posiciona-se onde os defesas adversários não se lembram de estar. Aparece para finalizar quando ninguém dava por ele. A idade pesa-lhe, mas não se fie muito nela...
Ponta-de-lança: Quentin Tarantino. De cabeça, de calcanhar, em exímios pontapés-de-bicicleta, Tarantino marca de todas as formas e feitios. É matreiro o suficiente para grandes simulações na grande área para provocar o penalty decisivo ou para grandes teatros, quando a equipa está vencer, para queimar o tempo que falta. Faz tudo para levar a sua equipa à vitória, mas na realidade só pensa numa coisa: a baliza. É muito polémico: um dia disse que preferia ser o melhor marcador do torneio do que ver a sua equipa ganhar.
Treinador: Sam Fuller*. Aqui não há "manáger" a dizer ao treinador o que deve fazer ou deixar de fazer... Fuller é o homem. Com preferência por "treinos sem bola" que transformam o campo de futebol num campo de batalha, o "big red one" (como é conhecido) lidera esta equipa com pulso forte. Se o outro pede "tranquilidade", este pede "acção!".
Aqui está o CINEdrio FC. Agora é a sua vez de ser mister e avançar com a "equipa de sonho" do seu blogue/site. Faça-o deixando na caixa de comentários deste post a sua selecção, com a devida fundamentação das suas escolhas (porque isto não é a selecção nacional de futebol). A sua equipa será publicada aqui e incluída depois no sorteio.
* - adenda desde este post, onde estabeleci: "para além dos jogadores, poderão, a título facultativo, indicar o treinador (que não terá de ser um "autor no activo") com o perfil mais indicado para pôr as vossos galácticos na ordem."
sábado, 16 de junho de 2012
Newsletter #16: Van Sant
Habitué nos tops de melhores do ano aqui pelo CINEdrio, Gus Van Sant é um dos mais inventivos cineastas norte-americanos da actualidade, colando-se, ou não, a obras do passado mais longínquo (o remake de "Psycho") ou mais recente (a homenagem a Tarr em "Gerry"), reciclando o storytelling mais clássico ("Milk") ou assimilando docemente o sopro indie americano ("Restless") ou ainda levando ao limite as formas cinematográficas com um arrojo experimental fascinante (a trilogia "Elephant"-"Paranoid Park"-"Last Days" ou os seus filmes iniciais, como "Mala Noche" ou "My Own Private Idaho"). O "próximo Van Sant" é sempre um mistério, apesar de ser sempre, também, a certeza de um regresso a si mesmo, a um cinema melancólico, mas sempre-inconformado, composto de imagens fortes e personagens "tocantes" (no sentido de comoventes e/ou eminentemente palpáveis/corpóreas).
É ele o nosso herói de Julho, mês em que a Newsletter, inspirando-se no lado "transformador" da estética de Van Sant, também muda de imagem, tornando-se mais leve, mais legível e mais completa. Não perca.
Em matéria de filmes, podemos já antecipar alguns nomes de peso nesta edição. Reencontre-se com alguns dos maiores clássicos da Sétima Arte, de Ophuls, Rossellini, Ford, Peckinpah, Siegel, Walsh, em edições restauradas e em Blu-ray! Revisite westerns de Hellman ou de Mann ou de Boetticher, faça matinées caseiras na companhia dos filmes série B de Roger Corman, tire da obscuridade os nomes de Farocki ou Rozier... Faça isto e muito mais, caso passe os olhos pela nossa Newsletter de face nova.
Veja, mas também leia. O quê? Por exemplo, a biografia de Ingmar Bergman - lançada há pouco tempo em Portugal -, o último livro de Rancière sobre cinema, duas obras com a assinatura de Eric Rohmer, últimos escritos de Kracauer recuperados na América, etc.
Espere também algumas novidades no conteúdo de algumas rubricas. Este mês, mês de "Sugestões de...", damos a ler as recomendações de Tiago Baptista, historiador do cinema e conservador da Cinemateca.
Se não subscreveu já, então deve fazê-lo agora, aqui.
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ERRATA Newsletter #15
Os links estão, contudo, correctos.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Recorte de falas (IX): Finding Forrester
O filme não é, não pode ser, motivo para grande orgulho, sobretudo, se atendermos aos brilhantes mais recentes trabalhos de Gus Van Sant. Na realidade, "Finding Forrester" (2000) é, por vezes, do mais básico e estereotipado cinema a que alguma vez Gus Van Sant desceu. A quem critica filmes como "Milk" ou "Restless" por sucumbirem aos "clichés" do mainstream, entendendo o mainstream como um conjunto de recursos gastos, tanto formais como narrativos ou temáticos, sugiro que regresse a este "Finding Forrester", espécie de reedição from the bronx do já de si muito pouco imaginativo "Good Will Hunting". Mas... não estarei a ser demasiado duro? Talvez haja alguma coisa, nem que nas "entrelinhas", que o torne, pelo menos, interessante à luz dos mais luminosos desenvolvimentos recentes (e iniciais) da carreira de Van Sant. Cronologicamente, "Finding Forrester" é um filme entalado entre "Gerry", a obra-prima de viragem na carreira de Van Sant, e "Psycho", o remake-instalação-conceptual que tem envelhecido bastante bem.
O que é que isso interessa? Para todos os efeitos, por esta altura, Van Sant parecia obcecado, primeiro, por génios "inadaptados" - certo -; segundo, pela questão fortemente teórica da cópia/plágio, na realidade, o grande tema escondido de "Finding Forrester" e, de modo muito mais sofisticado, algo que já fora motivo de exploração visual-conceptual no ousado decalque hitchcockiano. Como vemos na fala recortada abaixo, a certa altura, parece que "Finding Forrester" ganha um sentido curioso na obra de Van Sant: o escritor isolado do mundo William Forrester (Sean Connery) aprecia o virtuosismo literário de Jamal Wallace (Rud Brown), um jovem negro do Bronx que não é só bom a pôr a bola no cesto. Ele diz-lhe algo que abrirá o plot do filme: até onde pode ir a aprendizagem do aluno face ao seu mestre? Se nos abstrairmos de toda a ganga sentimentalóide e simplista de "Finding Forrester" - e a cabotinice dos actores -, parece que, neste instante, Van Sant se entretém a "desconstruir" o "Psycho", o seu "Psycho" por contraposião ao "Psycho" do "grande mestre". Dito de outra maneira: nesta passagem, William Forrester parece ter como um grande feito literário aquilo que considera ser um "bom remake". É Van Sant a advogar em sua defesa, sem sair de um cinema onde a força do "sentimento de pertença" é variável.
William Forrester: You've taken something which is mine and made it yours. That's quite an accomplishment!
O que é que isso interessa? Para todos os efeitos, por esta altura, Van Sant parecia obcecado, primeiro, por génios "inadaptados" - certo -; segundo, pela questão fortemente teórica da cópia/plágio, na realidade, o grande tema escondido de "Finding Forrester" e, de modo muito mais sofisticado, algo que já fora motivo de exploração visual-conceptual no ousado decalque hitchcockiano. Como vemos na fala recortada abaixo, a certa altura, parece que "Finding Forrester" ganha um sentido curioso na obra de Van Sant: o escritor isolado do mundo William Forrester (Sean Connery) aprecia o virtuosismo literário de Jamal Wallace (Rud Brown), um jovem negro do Bronx que não é só bom a pôr a bola no cesto. Ele diz-lhe algo que abrirá o plot do filme: até onde pode ir a aprendizagem do aluno face ao seu mestre? Se nos abstrairmos de toda a ganga sentimentalóide e simplista de "Finding Forrester" - e a cabotinice dos actores -, parece que, neste instante, Van Sant se entretém a "desconstruir" o "Psycho", o seu "Psycho" por contraposião ao "Psycho" do "grande mestre". Dito de outra maneira: nesta passagem, William Forrester parece ter como um grande feito literário aquilo que considera ser um "bom remake". É Van Sant a advogar em sua defesa, sem sair de um cinema onde a força do "sentimento de pertença" é variável.
William Forrester: You've taken something which is mine and made it yours. That's quite an accomplishment!
Jamal Wallace: Thank you.
William Forrester: The title is still mine, isn't it?
Jamal Wallace: I guess.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Restless (2011) de Gus Van Sant

Um filme pequeno, frágil e belo merecia uma crítica feita à sua imagem, uma crítica que não procurasse ocupar o lugar que este último filme de Van Sant reserva no nosso coração, mas que apenas restitua, nem que por instantes, um pouco do calor triste que dele emana e que nos aquece bem para lá da sessão.
"Restless" é um filme suave, rumorejante, sobre o fim da vida e o que para lá dela poderá resistir - uma hipótese se ensaia: o amor, talvez. É ele que leva um kamikaze a assombrar amigavelmente o protagonista: Hiroshi - como se vê no fim - quer ganhar a confiança do amigo americano para lhe passar uma carta de amor à mulher a quem ele não confiou as suas emoções mais profundas, porque queria levá-las consigo para o outro lado. Na cabeça de Hiroshu parece que é essa carta que serve de pre-texto à amizade além-vida com Enoch, jovem atormentado que procura aprender, cada dia que passa, na sua solidão não-solitária, como lidar com o desaparecimento traumático dos seus pais num desastre de viação.
O rapaz é atraído pela morte - ou será antes o contrário? Quando descobre a bela Annie, o amor entra na sua vida num movimento que volta a rasar a morte, porque a rapariga tem apenas três meses de vida pela frente - e o tempo de morte que lhe falta? Não será Annie como o tal passarinho que canta, em espanto, com o nascer do sol, o facto de estar vivo? Annie aparece na vida de Enoch - está nela - como o soldado japonês - duas existências no limite da fronteira que separa os vivos dos mortos.
Ou Enoch é o rapaz com menos sorte no mundo ou é um grande charlatão, dizem-lhe a certa altura no filme. Rodeado pela morte, pelo desaparecimento de quem mais precisa, Enoch é o "fantasma do meio" neste filme de Van Sant: ele realiza uma existência - a de Hiroshi - e desrealiza outra - a de Annie, um anjo que caminha, leve, sereno e já radiante, em direcção à luz... uma luz que resiste à morte, como vemos nas muito comoventes imagens finais... o mais belo discurso fúnebre - um dos mais belos discursos de amor, leia-se - que vi em cinema. Um discurso, aliás, sem palavras; só de imagens que se projectam a partir do rosto do protagonista, flashes de memória, profundamente atemporais (como todo o filme, aliás...), que vão preenchendo o vazio aberto pelo seu rosto silencioso, que culmina num "sorriso para dentro". A solidão de Enoch, perturbada no início, está agora em paz consigo mesma. O luto por quem está vivo - é esse o mood inicial do filme - parece terminar aqui - mas não há, desenganem-se os mais distraídos, qualquer cedência ao típico falso-happy ending indie...
Na realidade, o filme de Van Sant, como todos os seus grandes filmes, não cede nem um milímetro à "gramática feita". Com efeito, até o que, no papel, se diria ser um cliché aparece no seu cinema como coisa refrescante, porque rapidamente se dilui numa estética que não está por um segundo preocupada com quaisquer classificações prévias, qualquer "mui americano" esforço de etiquetagem que possa, aqui e ali, reger o cinema na sua produção de imagens - a estética da Van Sant só é sensível, poderosamente sensível, aliás, às personagens e à sua situação.
Por tudo isto, "Restless" é um filme de uma fragilidade comovente, construído na simplicidade da sua história, sóbrio conto sentimental, mergulhado numa melancolia outonal transmitida pela imagem com grão e cores acinzentadas de Harris Savides e a banda sonora omnipresente, como um quase totalmente sumido palimpsesto pop (Bon Iver, Sufjan Stevens, Nico...) que vai pontuando o mood das personagens, elas que são interpretadas com a mesma discrição que caracteriza a estrutura narrativa do filme. De facto, pessoas e câmara/montagem estão aqui em sintonia perfeita - e raras vezes vi algo assim - na criação de uma atmosfera, não, melhor: de uma estética da solidão e da ternura. Sopro entre a vida e a morte que aquece o coração humanamente dolorido. Pequena canção caída como uma folha de Outono.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Nova trilha (VIII): Hicks e Radiohead
(Álbum anacrónico e quase primário dos Radiohead? Sem dúvida, mas tenho carinho por ele. Por quê? Porque é anacrónico e quase primário.)
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Milk (2008) de Gus Van Sant
Aos 40 anos, Harvey Milk não tinha feito nada que se orgulhasse. Tinha 39 anos quando trocou conversa, pela primeira vez, com o homem que viria a ser o amor da sua vida, Scotty. Aos 40 anos, já o tinha na cama consigo. Tudo isto em apenas um dia, mas não um qualquer: 22 de Maio de 1970, Harvey fazia anos e decidia mudar de vida. Pela segunda vez - ou verdadeiramente pela primeira? - este homossexual de pais judeus, nascido e criado na "maior democracia do mundo", saía do armário. Castro Street foi onde Milk e Scotty montaram aquele que viria a ser o centro nevrálgico de uma das mais espontâneas, e corajosas, carreiras políticas na história recente da América.Foi aí, cidade de São Francisco, estado da Califórnia, que a América ganhou um dos seus mais bem sucedidos activistas gays; o primeiro a empossar num cargo público, para mais, tão importante como o de supervisor municipal. O filme de Van Sant começa com uma história de amor e não a abandona. Ela não é usada como um elemento humanizante, puramente circunstancial, numa não-ficção sobre os bastidores, muito escorregadios, do mundo da política e, à retaguarda, de tudo aquilo que significa ser norte-americano.
O amor é o elemento estruturante da ética, da política apetece dizer, de Harvey Milk. Na cena em que este fala ao telefone com Scotty, percebemos isto. Para chegar àquele "momento" em que finalmente é um pouco mais livre para sentir (e daí as lágrimas), Milk teve de percorrer a história mundial dos preconceitos; lutar contra os falsos-valores profundamente empedernidos numa sociedade tornada cativa de uma ideologia exclusivista e, ulteriormente, autofágica; e pedir a todos os gays para se confrontarem com os seus fantasmas interiores e saírem do armário.
Uma correcção: não foi "pedir", mas sim ordenar sob a forma do slogan com o qual costumava abrir os discursos: "Eu recruto-vos!". Mas Gus Van Sant não tenta fazer de "Milk" um panfleto a favor da causa homossexual ou da glorificação incondicional de Harvey Milk; o recrutamento que Milk faz dentro do filme, pelo coração, pela razão e pelas palavras, não é o mesmo que faz através da câmara-filtro de Van Sant, junto do espectador de hoje.
Uma correcção: não foi "pedir", mas sim ordenar sob a forma do slogan com o qual costumava abrir os discursos: "Eu recruto-vos!". Mas Gus Van Sant não tenta fazer de "Milk" um panfleto a favor da causa homossexual ou da glorificação incondicional de Harvey Milk; o recrutamento que Milk faz dentro do filme, pelo coração, pela razão e pelas palavras, não é o mesmo que faz através da câmara-filtro de Van Sant, junto do espectador de hoje.
Com efeito, este regresso do realizador de "Paranoid Park" ao mainstream faz total sentido: em "Milk" também recai o olhar crítico, distante e razoável, que era tão perturbante em "Elephant", o seu outro "filme político" que, numa grande elipse, abria o ventre de uma sociedade moralmente asfixiante. É que em 2003 a América estava entregue a si mesma, tal como os adolescentes eram filhos de pais ausentes ou problemáticos.
"Elephant" recriava Columbine mas tinha em mente a "América órfã" de George W. Bush. O mesmo acontece em "Milk": a América que muda em 1973-1978 é a mesma América que hoje, em 2009, se transforma aos nossos olhos. Harvey é a figura paterna que os gays americanos procuravam, tal como Barack "black Milk" Obama - "hope", "change", onde é que já ouvimos isto? - acaba de ser perfilhado como o pai da América e do mundo! O cinema de Van Sant não podia ficar indiferente a tudo isto.
E daí esta sua emigração para o mainstream, primeira linha de um novo capítulo na sua obra: a celebração dos bons homens e dos grande ideais. Fazendo aquilo que mais gosta - dirigir homens numa história política de amor -, Van Sant dá o grito que desperta finalmente a América (de "Elephant") do torpor em que estava mergulhada: é para lhe darmos eco que "Milk" (o filme, a personagem, um grande Sean Penn) nos recruta.
Ler mais aqui: IMDB.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Paranoid Park (2007) de Gus Van Sant
Texto redigido aquando da estreia de "Paranoid Park" em Portugal."Paranoid Park" volta a falar dos teens de "Elephant" (2003) e a ser tão etéreo quanto "Last Days" (2005). No entanto, em vez de uma escola (ainda que ela lá esteja) e de uma mansão isolada na floresta (ainda se ouve, à distância, o som da natureza), Gus Van Sant posiciona a acção num recinto para skaters, espécie de santuário da modalidade frequentado pelos espíritos fortes.
A história é contada em fragmentos desordenados, como uma memória nebulosa. É esta fragmentação que transforma uma história banal de crime numa estranha espiral de acontecimentos, onde a atemporalidade da diegese e a transcendência das imagens evocam esse limbo existencial chamado adolescência.
A reconstituição do que poderá ter acontecido e como o protagonista se envolveu num crime acidental, por sinal, verdadeiramente macabro, servem de base a uma experiência puramente cinematográfica. O artifício nunca foi tão notório em Van Sant: o realismo suburbano reminiscente de "Ken Park" (2002) e Larry Clark (relembro que Van Sant foi um dos produtores de “Kids”) é revolvido pelo onirismo clássico do film noir (obrigado, Chris Doyle, por existires) e a cadência circense e enigmática de Nino Rota.
É verdade: Van Sant conseguiu colar a este drama existencial profundo a música de “Giulietta degli spiriti” (1965) e “Amarcord” (1973) – um casamento tão inusitado e que resulta tão bem que nem há palavras para o explicar.
É verdade: Van Sant conseguiu colar a este drama existencial profundo a música de “Giulietta degli spiriti” (1965) e “Amarcord” (1973) – um casamento tão inusitado e que resulta tão bem que nem há palavras para o explicar.
Mais uma vez, Van Sant supera qualquer lógica citatória simplista (também se ouvia Beethoven nos corredores do liceu de… Columbine). E, ao mesmo tempo, depuram-se os travellings enleantes de "Elephant" e o retrato crepuscular de uma sociedade em auto-liquidação, sem afectos e apática. A perfeição mora aqui.
Ler mais aqui: IMDB.
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