sábado, 13 de abril de 2013

Pillow shot: uma pausa para confortar o ego


Na crónica de Eduardo Cintra Torres, publicada no passado dia 24 de Março no Correio da Manhã, registei com grande prazer a parte que dedicou ao "trabalho de bastidores" que esteve por trás do aplaudido relançamento da rubrica "5 Noites, 5 Filmes". O movimento cívico que chamou a atenção da estação para a necessidade de uma programação de cinema sólida e regular nasceu aqui, no CINEdrio, tornou-se numa petição assinada por milhares de cidadãos, que foi à Assembleia da República, que motivou um debate com o antigo director do canal. Foi produzida reflexão, mas, antes de tudo, foi restaurada uma cultura de maior exigência em relação às opções editoriais da televisão pública no que diz respeito à sua missão de divulgação e preservação da memória cinéfila.

A frase curta mas significativa de Eduardo Cintra Torres que quero aqui destacar, em jeito de síntese do meu reconhecimento em relação a todos os que fizeram parte desta causa, é portanto esta: "Por pressão da sociedade civil, a RTP2 repôs agora o programa ["5 Noites, 5 Filmes"], pondo fim ao câmara-obscurantismo de Wemans e Moura Pinheiro".

***


A T-shirt é da autoria da Sabrina Marques, a nossa colaboradora da Newsletter do CINEdrio, projecto que - como todas as comunidades de interesses e paixões - vive destas manifestações de amor. Sabem bem, como também sabem bem as palavras que o Carlos Reis, do blogue Cinema Notebook, escreveu a propósito desta nossa folha, num post com o sugestivo título "Uma newsletter que vale a pena!". Agradeço ao Carlos a atenção e reforço que a divulgação por parte dos nossos leitores é a nossa única publicidade; logo, o nosso crescimento depende da capacidade que os leitores terão ou não de, por assim dizer, "vestirem a camisola". 

terça-feira, 9 de abril de 2013

Newsletter #21: Herzog


Não, não vamos destacar o livro de Bellow. O que nos traz, como sempre, é o cinema, no caso, um cineasta temperamental, que encontramos ora em Hollywood filmando super-estrelas em produções de média ou até grande dimensão, ora vagueando pelos lugares mais inóspitos do planeta, a captar histórias e imagens impensáveis, longe da civilização, perto do coração do mundo. Herzog é um mistério, sondador da condição humana que não encontra limites, geográficos, políticos, muitas vezes morais, à sua grande busca.

Que se confunda como uma espécie de Deus - a ubiquidade está bem plasmada no seu cinema totalizador - ou com a imagem do mais megalómano dos documentaristas do vivido e do experimentado, isso não lhe rouba a ironia e "espírito jovem" que vão moldando cada novo projecto. Filmou um homem a montar uma ópera na Amazónia, embrenhou-se na ilusão do El Dorado, filmou a guerra como uma catástrofe ambiental, revisitou o planeta como faria um extraterreste - e se calhar é o que faz sempre, este realizador alienígena, sem limites humanos conhecidos -, encontrou cinema nas pinturas mais antigas, fez do grotesco e da mitificação o contraponto cósmico à exploração arqueológica e filosófica do lado mais escondido do mundo. Fez isto e mais, muito mais. No mês de Maio, Werner Herzog merece o nosso destaque.

Para além do herói do mês, teremos livros e filmes em quantidade e qualidade. Para aguçar o apetite, antevemos de seguida os principais nomes que poderá encontrar na nossa futura edição: Derrida, Fuller, Satyajit Ray, Thoreau, Kubrick, Almodóvar, Ford, Eastwood, Joseph Cornell, Vidor, Robin Wood, Scorsese, Vatimo, Ferrara, etc.

O entrevistado do mês será o crítico de cinema do semanário Expresso Vasco Baptista Marques.

Até já!




segunda-feira, 8 de abril de 2013

CINEdrio no IndieLisboa 2013


Pelo segundo ano consecutivo, o CINEdrio prepara-se para cobrir o grande festival de cinema IndieLisboa. Mas isto não é tudo: estarei em regime de complementaridade no À pala de Walsh, sempre que houver espaço para isso. Assim sendo, cá estão dois espaços onde poderá ir acompanhando, entre os dias 18 e 28 de Abril, as principais e mais sonantes estreias no mais "prospectivamente útil" festival de cinema do país.

Agradeço à organização do festival a acreditação conferida a este(s) nosso(s) espaço(s).

terça-feira, 2 de abril de 2013

Ligação directa à pala de Walsh (VIII)


Foi um mês (algo trabalhoso, devo confessar) dedicado significativamente a lançar entrevistas: a segunda parte da nossa conversa com Pedro Caldas e Francisco Belard e a entrevista exclusiva realizada à documentarista britânica Kim Longinotto (é o seu excelente "Gaea Girls", já analisado aqui no CINEdrio, que ponho na imagem). Não conduzida por mim, mas pelo João Lameira e pelo Ricardo Lisboa, destaco também a entrevista ao cineasta Joaquim Leitão que publicámos no final do mês passado. Para além disso, contribuí nas rubricas habituais da categoria Contra-campo: Straub e Huillet no Filme Falado, sexo implícito no regressado Cadáver Esquisito (complementando o sexo explícito da Sopa de Planos) e a revisão do mês nas Actualidades. Aliás, se ainda não percebeu o que cabe em cada categoria, convido-o a visitar o nosso índice, activado este mês para melhor guiar os nossos leitores.

A minha crónica Civic TV foi dedicada ao filme de Nicholas Ray "Party Girl", exibido há pouco tempo no canal TCM. Ainda nas crónicas, gostava de deixar uma palavra de destaque para o mais recente número da recém-criada crónica de João Lameira, Em Série, dedicada à interessante série "Odisseia", da autoria de Tiago Guedes, Gonçalo Waddington e Bruno Nogueira. A escrita do Tiago "Napalm" Ribeiro atinge o pico da ironia e boa disposição na sua mais recente crónica Ecstasy of Gold, dedicada ao "Psycho" não o de Hitchcok, mas o remake conceptual de Gus Van Sant, cineasta que nos brindou há dias com uma das maiores desilusões do ano. A propósito dela, o Carlos Natálio escreveu a sua crítica, que subscrevo em cada linha. Fecha-se o círculo do mês aqui, já que na nossa entrevista a Pedro Caldas e Francisco Belard o Gus Van Sant virtuoso, desafiante e genial era motivo de conversa, sem que se pressentisse "no horizonte" a inconsequente aparição de "Promised Land".

Este mês, a título excepcional, teremos outra vez o Carlos Natálio à frente da edição. Posso avançar que o À pala de Walsh marcará presença na próxima edição do IndieLisboa. Será o sítio certo para acompanhar este grande festival de cinema.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Vigésima edição da Newsletter do CINEdrio tornada pública na íntegra


Serve para celebrar o número redondo: 20 edições, 20 heróis, 20 meses divulgando filmes e livros, vindos de todas as partes do mundo.

Esta edição inclui, entre outras coisas, uma cobertura, em exclusivo, da caixa francesa dedicada ao cinema dos irmãos Safdie - que sairá no dia 2 deste mês - e a recentíssima edição da Trilogia da California de James Benning. Também destaco o ambicioso livro de Ismail Xavier, que reúne num volume a sua tese de doutoramento e a sua prova de livre-docência na Universidade de São Paulo.

Clique aqui ou na imagem para ler esta edição muito especial.



segunda-feira, 25 de março de 2013

Da boa vizinhança: agradecimentos

Numa nota à parte, gostava de agradecer ao Samuel Andrade o convite que me lançou - a mim e a outros ilustres bloggers - para fazer algo que me é caro: um balanço do cinema que marcou a primeira década do novo milénio. Irei participar no ambicioso dossier "O Cinema dos Anos 2000" com pequenas cápsulas dedicadas a alguns dos títulos que, de uma maneira ou de outra, não terão merecido o reconhecimento mais justo aquando da sua estreia. Até agora - mais análises virão -, já "cobri" "Ghosts of Mars" de John Carpenter e "R Xmas" de Abel Ferrara.


***

Outra iniciativa muito interessante aconteceu noutro blogue vizinho, o Caminho Largo, de Pedro e Jorge Teixeira. Sob o signo do tema da amizade, foram convocados vários bloggers cinéfilos para apontarem as suas preferências. Eu dei o meu singelo contributo aqui.

domingo, 24 de março de 2013

Genal

"¡Que viva Mexico!" (1932) de Serguei M. Eisenstein

"The Servant" (1963) de Joseph Losey

(Primeiro: genal, segundo o Dicionário Priberam, é aquilo que é "relativo às faces = FACIAL". Segundo: louca mise en scène ou mise en scène da loucura. Nunca vi um filme que usasse o décor e os objectos da maneira que o faz Joseph Losey aqui, como dispositivos de uma loucura tão implícita quanto ruidosa, tão superficial quanto profunda. Abismos dentro de abismos, como os espelhos e os reflexos constantes que se jogam, logo na relação do homem com a sua sombra, pela casa "assombrada" de "The Servant". Terceiro: não consigo entender como é que o mac-mahoniano Michel Mourlet canonizou, e bem, Losey, mas tantas vezes à custa de um ataque, diria "cego", a Eisenstein e Welles - é que eu vejo muito Eisenstein e Welles em "The Servant"... Também vejo - e aqui vão mais umas tantas pedras no sapato de Mourlet - Bergman, Mankiewicz, Huston e Hitchcock, mas isso ficará, quiçá, para outras postagens.)

terça-feira, 19 de março de 2013

You talkin' to me?

"The Big Night" (1951) de Joseph Losey

"Taxi Driver" (1976) de Martin Scorsese

[Quando um jovem abandonado pela mãe, que já não reconhece o seu pai, se olha ao espelho com uma pistola em riste e simula os últimos minutos de vida de quem precipitou o fim das suas ilusões de rapaz está, acima de tudo, a "bater-se" consigo mesmo. O vidro do espelho - como sempre, muito mais que um adereço em Losey - é a janela para um (novo) abismo. Em Scorsese, frente ao espelho, o adulto arma-se, infantilmente, em "vigilante da noite". Ao espelho, o adulto reflecte a criança ou a criança reflecte o adulto. E reflecte (sobre o) mal.]

Recorte de falas (XXVII): Les diaboliques

O recorte parece ter saído de um texto de Walter Benjamin, mas não: trata-se "simplesmente" de um diálogo, na presença das três personagens que compõem o triângulo fatídico do filme, no não tão simples quanto isso argumento de "Les diaboliques" (1955) de Henri-Georges Clouzot. Para Michel Delassalle (Paul Meurisse), homem capcioso que dirige um pequeno colégio francês, a sua mulher Christina (Véra Clouzot) mais do que doente é ruinosa. É ruinosa, mesmo sendo graças a ela que ele ocupa o lugar de poder que ocupa; é ruinosa, mesmo alimentando ele uma relação extraconjugal à vista de toda a gente com uma amiga e colega daquela, de nome Nicole Horner (Simone Signoret).

Christina é ruinosa? Ruinosa como "aquilo que está em estado de ruína"; não tanto como "aquilo que foi", muito menos como "o que arruina", mas como aquilo que não pode ser mais destruído, porque já é - e é sempre - destruição. Ela é o que resta de um matrimónio infernal, algo que, face ao marido, a fragiliza mas também a fortalece: a sua presença sinaliza uma destruição irreparável, uma destruição indestrutível. Ela, como ruína que é, não tem medo, nem mesmo da própria morte. (Nada a prepara, no entanto, e esse é o golpe trágico e terrível de Clouzot, para o inominável horror além-morte...)

Michel Delassalle: Ela é muito frágil, tu sabes.
Nicole Horner: Frágil?
Michel Delassalle: Sim, quando veio de Caracas. Hoje, é uma pequena ruína bonitinha. Ela não arrisca nada. As ruínas são indestrutíveis. Ela vai-nos enterrar a todos. Não vais, minha pequena ruína?

sexta-feira, 15 de março de 2013

(Un)civilized one-eyed man

"The Vikings" (1958) de Richard Fleischer

"Escape From New York" (1981) de John Carpenter

(Há outro interessante denominador comum entre os dois filmes: Ernest Borgnine.)

Newsletter #20: Losey


Homem com cabelos escuros - quando ainda não estavam justificadamente brancos - que levou a mise en scène cinematográfica para novos territórios com a ajuda de dois vultos da dramaturgia do século XX, primeiro Bertolt Brecht e depois - colaboração pela qual se celebrizou - Harold Pinter, Joseph Losey será o herói do mês na Newsletter de Abril. Cineasta fortemente politizado, por vezes parabólico - quando não hiperbólico - na sua visão do mundo e da humanidade, Losey iniciou a sua formação "dramática" com Brecht, aplicando os ensinamentos adquiridos, primeiramente, numa bem sucedida carreira no teatro, para depois os "pôr à prova" em Hollywood.

Filmes - só aparentemente inocentes - como "The Boy with Green Hair", a sua primeira e marcante primeira obra, não ajudaram à fama de cineasta engajado ou politicamente comprometido "à esquerda", pelo que não foram precisos mais de três anos para entrar na "lista negra" da infame House Un-American Activities Comittee e, em reacção, partir para o país que, sem grandes dificuldades, o adoptará como um dos seus: a Grã-Bretanha. O grosso da sua carreira passa-se aí, ao lado de Pinter e do seu actor-fetiche Dirk Bogarde. A história - com muito cinema, psicologicamente intenso e estilhaçado, lá dentro - continua na edição de Abril da Newsletter do CINEdrio.

Para o próximo mês, prometemos, em matéria de filmes, a descoberta de obras menos conhecidas dos promissores irmãos Safdie, documentários de Ferrara que poderá ter deixado escapar, edições Blu-ray de obras-primas de Lumet, Demme, Carpenter, uma caixa dedicada ao cinema urgente de Kim Longinotto, a mais recente edição em DVD com filmes de James Benning, boas pechinchas com a assinatura de Don Siegel, etc.

Para ler, iremos sugerir, entre outros, os estudos clássicos de Lotte Eisner sobre o expressionismo alemão, a tese de doutoramento de Ismail Xavier, republicações de obras importantes de Barthes, Horkheimer, Erich Fromm e Adorno, textos de Serge Daney publicados numa revista norte-americana de moda, arte e design que está agora acessível em formato e-book para Kindle, os segredos de Hollywood por Patrick Brion, Kubrick prefaciado por Scorsese, etc.

A nossa inquirida desta semana é a Professora Margarida Medeiros, autora de vários estudos sobre fotografia e docente na Faculdade de Belas Artes e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

Até Abril!




sábado, 9 de março de 2013

quarta-feira, 6 de março de 2013

Newsletter de Março agora acessível a não subscritores


Aqui está o número #19 da Newsletter do CINEdrio na sua versão reduzida para os leitores "mais distraídos" que ainda não subscreveram esta publicação gratuita sobre lançamentos recentes, futuros, pechinchas, descobertas em matéria de livros, revistas, filmes e sites.

Este mês tivemos acesso EXCLUSIVO ao livro de memórias de William Friedkin, que nos mereceu, por isso, o devido destaque nos Lançamentos Futuros na rubrica dedicada aos livros sobre cinema, fotografia e filosofia. Também destaco o livro "Novas & Velhas Tendências no Cinema Português Contemporâneo", todo um ambicioso projecto científico, reflexivo e artístico compilado em pouco menos que 600 páginas. Um ovni que aterrou no nosso mercado editorial pela mão da Gradiva.

Fique a par de tudo isto e muito mais nesta versão da Newsletter de Março dedicada ao cineasta italiano Carmelo Bene (clicando na imagem acima) e, se a achar útil, pedimos que nos subscreva.

Até já.



domingo, 3 de março de 2013

Adorno de Estado*

"Disturbia" (2007) de D.J. Caruso

"Arena" (2009) de João Salaviza

(Antes de existir, "Arena" era parte muito substancial de um thriller americanóide sem graça nenhuma.)

* - Sem ou com kulturkritik. Como as natas no café: o cliente é quem escolhe.

Ligação directa à pala de Walsh (VII)


Já estamos no mês de Março, mas convém recuarmos um pouco para ver o que o mês passado nos ofereceu, à pala de Walsh.

Entre os textos escritos (também) por mim, começou como acabou: com "Guerra Civil", filme de Pedro Caldas que está "na prateleira" desde 2010 mas que, graças às suas aparições pontuais (começando pelo IndieLisboa e terminando na sua passagem pela RTP2), tem conquistado os favores da cinefilia. A minha crónica foi (também) sobre ele e a esta seguiu-se uma entrevista ao realizador e actor principal, cuja primeira parte já está disponível para leitura. Participei ainda nas habituais rubricas Sopa de Planos e Filme FaladoRecuperei o filme "Sorcerer" de William Friedkin, artigo que acabou por estabelecer um interessante diálogo com o texto de Miguel Domingues (ele que tem novo blogue), também publicado no mês de Fevereiro, sobre o pouco visto filme de Henri-Georges Clouzot "L'assassin habite au 21".

Marquei ainda presença na cobertura fal(h)ada à noite de Óscares aqui e, no último dia do mês, revisitei a agenda noticiosa do mês com o Ricardo Vieira Lisboa e, claro, com a ajuda do cinema.

Fora do meu domínio directo de acção, tenho a destacar o lançamento de uma nova rubrica dedicada a séries televisivas que sairá da pena - sim, escrevo-vos directamente do século XIX - do João Lameira e a publicação pelo Carlos Natálio da segunda parte da sua entrevista ao crítico de cinema Adrian Martin.

Em Março, teremos - ou temos, aliás - o Carlos Natálio ao leme da edição e podemos prometer mais e ainda melhor reflexão em torno de tudo o que mexe... (n)a imagem.

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