sábado, 7 de janeiro de 2012

TCN Blog Awards: o aftermath


Agora que já foram atribuídos os prémios, queria agradecer de novo ao Miguel Reis do CinemaNotebook pela nomeação - não premiada - do CINEdrio na categoria de melhor artigo, um texto crítico que faz o balanço de uma iniciativa que mereceu de mim e dos meus colegas de petição muita dedicação e "amor à arte". (Recordo que a petição já tinha sido nomeada o ano passado para o prémio de melhor iniciativa, sinal do impacto muito positivo que esta teve - e continuará a ter - nalguma blogosfera.)

De resto, acho que toda a blogosfera nacional, mais ou menos subterrânea, mais ou menos profissional ou mainstream, só tem a ganhar com este género de iniciativas. Por isso faço o apelo para que continuem com esta ou ainda melhor qualidade - e, se possível, tomando mais riscos.

Torneio interblogues (III): regras até à final

Still de "Histoire(s) du cinéma" (1997-98) de JLG

Com as equipas em estágio, a maior parte delas já publicadas nos seus respectivos espaços - peço aos outros que se apressem -, resta-me desvendar mais algumas regras importantes quanto ao desenvolvimento futuro deste que é o primeiro torneio futebolístico de bloggers cinéfilos, podemos dizê-lo, a nível internacional.

Primeira: a competição, que começa nos quartos-de-final, será decidida por sondagem, a ser publicada em cada um dos blogues concorrentes, mal esteja disponível online, algo que acontecerá após o sorteio da próxima segunda-feira - que será realizado através deste site.

Segunda: para além de publicarem a sondagem, os blogues em competição deverão publicar a imagem com a sua equipa e a equipa adversária que lhes calhou na rifa, mais links para os posts onde justificaram as suas escolhas (deverão, salomonicamente, publicar o link para o post onde o adversário fundamenta a sua "selecção").

Terceira: o vencedor do torneio verá o seu esquema táctico imediatamente eleito como o melhor da blogosfera, sendo que a votação sector a sector para a equipa ideal será feita com base nesse esquema. Só os jogadores/cineastas presentes nos quartos-de-final para a frente farão parte desta sondagem final.

Quarta: sendo este um evento inédito na blogosfera, não posso prever o sucesso desta primeira edição, mas seria interessante estabelecer um desafio "sem compromisso": o vencedor do torneio fica encarregado de organizar a próxima Copa (ainda por baptizar AQUI), daqui a um ano, nos moldes que considerar mais adequados.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Imagem do passado: miniaturização encantatória dos tempos felizes

"Citizen Kane" (1941) de Orson Welles

Jalsaghar (1958) de Satyajit Ray

[Não gosto nada de emparelhar uma imagem de "Citizen Kane" com qualquer outra imagem de outro filme - devia ser uma superstição em qualquer espaço que se queira Cinéfilo... -, mas aqui abro uma excepção perfeitamente justificada pela grandiosidade poética da experiência que ocupa este "Salão de Música". Obra deslumbrante que rima com o clássico de Welles como uma (já denunciada pelo still) "imagem invertida": se o magnata fietzgeraldiano Kane olha para a bola "mágica" e sonha com a sua infância pobre, o senhor Huzur Bishwambhar Roy, outrora homem de grande fortuna e influência, hoje caído em desgraça, encontra no seu (último) copo de vinho a imagem de um passado feliz que lhe fulmina o espírito como uma tempestade seca de raios: o magnificente candeeiro de cristais do seu "salão de música", onde em anos passados os mais brilhantes músicos e performers indianos deram azo à sua Arte, para regozijo do real anfitrião. O magnata americano, o self-made man dos mass media, sonha com a pobreza; o último espécime da tradicional "realeza senhorial indiana" suspira e paralisa ante as notas lânguidas de música que ainda reverberam nos quatro cantos do grande salão empoeirado.]

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Filmes que (não) vou ver em sala (V): The Innkeepers

Não se deixem enganar pelo nome "gozão": Ti West é um realizador do caraças. Infelizmente, tivemos de recorrer a meios ilícitos para ver os excelentes "The House of the Devil" e "Trigger Man", já que estes não deram sinais de vida no mercado de distribuição e de edição nacionais - e assim se privam os portugueses de um dos mais promissores realizadores norte-americanos da actualidade.

"The Innkeepers" trará os condimentos de "The House of the Devil" - uma rapariga, numa casa, onde acontecem "coisas estranhas...". Isso percebe-se bem pelo trailer. O que não se perceberá bem por esta amostra é o ambiente lento, construído "camada a camada", que a câmara de West, realizador que conhece e domina muito bem os "tempos fílmicos", consegue imprimir nos seus filmes.

Caras distribuidoras, assegurem-se, por favor, que isto me chegue aos olhos através das vossas salas. E já este ano!

Trailer de "The Innkeepers" de Ti West

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Torneio interblogues (II): as derradeiras equipas de sonho entram em competição

Still de "Escape to Victory" (1981) de John Huston

A estas equipas juntam-se as últimas três da Copa... hmm... alguém se voluntaria para a baptizar?

Equipa de João Lameira, blogue numa paragem do 28

Equipa de O Projeccionista, blogue A Última Sessão

Equipa de Miguel Domingues, blogue In a Lonely Place

O sorteio está para breve. Entretanto, sugiro aos bloggers concorrentes que publiquem nos seus espaços post com:

1. Imagem oficial da sua equipa;

2. Justificação particular ou genérica para as escolhas - não se esqueçam que cada equipa é uma imagem do seu espaço, logo, trata-se de uma espécie de "campo de autores" que importa fundamentar.

3. Anúncio da publicação em breve do resultado do sorteio, que irá acontecer na próxima segunda-feira.

Enfim, algo parecido com o que fiz aqui.

Deverão ainda publicar, depois do sorteio, as sondagens com os confrontos dos oitavos de final - o torneio começa aqui, agora, neste momento. Now!

Il grido (1957) de Michelangelo Antonioni


Tanta beleza deixa-nos sem palavras. Acontece com os filmes mais poderosos do neo-realismo italiano, mas aqui estamos com um pé aqui e com outro mais à frente. Antonioni não é um neo-realista puro e neste filme sobre a solidão, o amor e a pobreza encontramos já as marcas de uma estética moderna à "L'avventura" (o seu filme seguinte), com o predomínio do espaço - na sua infinitude avassaladora - sobre o tempo - linearmente disposto, no caso, realisticamente estendido; com uma certa predilecção pelos rostos mudos, os gestos pequenos - talvez demasiado sufocados nos primeiros filmes de De Sica, por exemplo, pela carga melodramatizante da narrativa. Mas interessa pouco encontrar "lugar" para este filme na história do cinema, na realidade, é bom preservá-lo nesse lugar sempre algo difuso que é o cinema de Antonioni.

Aqui, temos então Aldo, um homem simples de coração destroçado - a mulher que ama quer terminar com a sua história e ele está só e perdido... no espaço. Não sabe para onde ir e o que fazer. E o filme, com avanços e recuos, vai trançando o caminho deste homem, que é pai, que leva a sua filha, para não sabe bem onde. É um caminho induzido pela fuga a um nome, que lhe lembra tempos de felicidade, uma casa onde se sentia bem: Irma, a personagem de Alida Valli, a mulher que não o queria magoar, mas que teve de o deixar para ir viver com outro homem. A traição não é censurada por Antonioni, nem mesmo por Aldo, que só quer andar para à frente, depois parar, andar aos círculos e voltar a andar em frente, como que procurando distrair o regresso desse nome que lhe sai da boca, entre destinos, como um suspiro: Irma.

É um amor profundo este e, por isso, a história de "Il grido" é muito triste: o seu preto-e-branco granítico - onde já se entrevê a experiência revolucionária de "L'avventura" -, muito liso e muito duro, não esconde que esse jeito de amar nem sempre tem o desfecho desejado pelo espectador dos happy endings de Hollywood. O amor de morte, nada grandiloquente, nada shakespereano, também é possível entre casais comuns que não sabem fazer poesia, que apenas dominam a arte de sobreviver num mundo onde a solidão rima com o vazio da paisagem.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Landscape Suicide (1987) de James Benning


Há uma tese nas profundezas de cada filme de Benning que se sente como uma picada de uma agulha. E no caso de "Landscape Suicide" essa é uma picada que vai directa à espinha, com a defesa da hipótese segundo a qual o homem esquece o que a paisagem não cessa de lembrar. Benning aponta a câmara para o espaço onde, mais perto ou mais longe, crimes hediondos foram perpetrados por mentes perturbadas de pessoas feitas da mesma carne que todas as outras.

Numa palavra, podemos dizer que Benning usa a sua câmara para inquirir “de frente”, em quadros vivos, as paisagens do interior americano, cuja beleza deslumbrante foi interrompida pelas notícias dos homicídios perpetrados pela jovem Bernadette Potti e pelo infame psicopata Ed Gein. Benning filma a paisagem com a mesma desafectação, o mesmo chocante e frio detachment, com que filma os autores desses actos bárbaros, que são interpretados por dois actores de rosto anónimo com uma "naturalidade" desarmante - a verdadeira antítese da típica reconstituição jornalística, seca e directa. Só osso.

Tanto Gein como Potti são minuciosos nos relatos que prestam à polícia, pelo menos, até chegarem ao momento em que tiveram de lidar com os seus actos - tido por acidental no primeiro caso e "inexplicavelmente" voluntário no segundo. Ora, estes "lapsos de memória", este poder que assiste a estes homicidas é o que mais impressiona no filme de Benning, ele que há mais de quarenta anos se questiona sobre o alcance, a extensão, a geografia... da memória humana. O que os assassinos esquecem a imagem do local (mental ou não) faz reaparecer - muitas vezes os seus relatos partem de uma descrição pormenorizada de onde estavam e por onde foram... - como se a paisagem tivesse ela própria um reservatório de memória próprio, que faz lembrar aqueles que esquecem ou querem esquecer.

Como a paisagem não sabe esquecer, a ela acabam por confluir traumas e fantasmas do passado, que reincidem como um pesadelo recorrente. (Como diz Deleuze ninguém deseja algo, mas uma multiplicidade de coisas, por exemplo, uma mulher, mas também a paisagem que a envolve. Logo, pergunto-me se Potti e Ed Gein não terão tornado suas cúmplices, involuntariamente, as paisagens onde mataram; parte "colaborante", "co-autora", do horror.)

A câmara de Benning disseca, autopsia, cada canto da comunidade afligida pelos crimes - que tenta esquecer - como o polícia que inquire o criminoso - que tenta lembrar. Este método, bem evidenciado em "Landscape Suicide", verdadeiro "pesadelo à Benning", aparece-nos, esventrado - como o veado das imagens finais -, com uma claridade desarmante até para o espírito mais opaco: poder esquecer é uma prerrogativa humana que a natureza, várias vezes, remete para o "fora-de-campo" como um castigo sem fim e inescapável.

Cross of Iron (1977) de Sam Peckinpah


Peckinpah definitivamente não é um homem fácil. "Cross of Iron" também não é nada fácil: filme sobre a queda da Alemanha frente aos inimigos russos, sendo que os "heróis do filme" são o batalhão alemão mais carniceiro e "sem lei" de todo o exército. Coburn diz que odeia a sua farda e todos os seus superiores, que fazem política enquanto homens, nalguns casos, bons homens são levados pelos ares no campo de batalha.

Peckinpah também odeia a guerra e, por isso, pôs a câmara onde nenhum americano se atreveu a pôr: mesmo ali, na fronteira entre a Rússia comunista e a Alemanha nazi. O espectador que se cuide. Mas mais: Peckinpah não abdica das contradições ultrajantes do seu cinema. Ele leva-as, na realidade, a um novo extremo. Em território inimigo - tanto de um lado como do outro, "entre patriotismos anti-americanos" -, Peckinpah dá a si mesmo permissão para continuar a gostar de homens de barba rija, o seu companheirismo férreo e indestrutível, tanto quanto detesta a frivolidade e sentimentalismo femininos - a certa altura, o capitão Stransky diz qualquer coisas como "nós gostamos de uma boa mulher, mas, convenhamos, os homens entendem-se melhor sem elas". Isto poderia ser confundido com machismo puro e duro, mas não é isso, quer dizer, não é só isso. Desde logo, o capitão Stransky disserta sobre a superioridade dos homens a um tenente, que se descuidara e denunciara a sua homossexualidade. Stransky não diz o que diz para seduzir o seu subordinado, mas precisamente para o levar à confissão de que é, de facto, um miserável de um homossexual.

Aquí entra a homofobia peckinpahniana: ele gosta das mulheres como "boa carne", mas tem pouca ou nenhuma paciência para as suas conversas da chacha, contudo, quem as pretira à companhia, aquele tipo de companhia..., masculina, será, também para ele, um ser desprezível. O tenente do filme é, para além de levemente caracterizado de pederasta (veja-se o interesse pelo cabo alemão com carinha e corpo de criança), um cobarde em acção; aquele que, uma vez nas mãos do seu superior interesseiro, aceita mentir e, pior, aceita disparar contra compatriotas inocentes ("bons nazis"?), que não querem mentir como ele... O seu corpo é (quase que justificadamente) dilacerado por balas e atravessado por facadas de ódio irracional, uma vingança pela sua conduta desviante e inaceitável dirigida aos seus companheiros de armas.

A censura que Peckinpah faz à homossexualidade deste fraco tenente raia perigosamente uma assimilação ideológica do objecto retratado, mas não nos podemos alhear do seguinte: acima do militar gay, está Stransky a manipular os cordéis, visando a apetecida "cross of iron" que justifique o seu estatuto congenitamente superior (prova última da sua superioridade rácica... mais: prova última do sentido muito justo do projecto nazi), servindo-se assim, numa muito mesquinha chantagem, do "segredo sujo" do subalterno. Ele está acima na hierarquia, mas, não temos dúvidas, moralmente, Peckinpah põem-no na lama - a humilhação final de Stransky, a derradeira destruição da sua reputação de nobre soldado aristocrata, de sangue azul, é capaz de ser mais brutal que a morte sangrenta e sem piedade do tenente homossexual.

Mas, por outro lado, a ligação que Peckinpah estabelece entre a homossexualidade e a perversidade nazi não é novidade nenhuma. Pode-se mesmo dizer que Rossellini vai mais longe na sua trilogia da guerra, sobretudo, em "Roma, Cidade Aberta" e "Alemanha, Ano Zero". Se no primeiro, a homossexualidade dos soldados nazis é revelada como traço da sua natureza depravada e sinistra; no segundo, o rosto mais nojento do nazismo, por entre os destroços, cabe na imagem do herr professor pedófilo de Edmund, o principal responsável por toda a espiral suicidária e demencial do filme. Peckinpah faz isto, mas mostra o outro lado, não para equilibrar, para ser "razoável", mas para dizer, em uníssono com o protagonista Coburn, que odeia o homossexual como o hetero snobe que faz dele seu fantoche para ganhar uma medalha de honra e coragem, dois traços que nunca caberão no seu carácter.

Mas a relação com a figura feminina também não se "descomplica" em "Cross of Iron". Sabemos que Peckinpah "gosta", e o gostar aqui merece toda a sua conotação moralmente dúbia (vide "Straw Dogs"), de filmar violações. Sabemos também que Peckinpah não sacraliza minimamente o sexo feminino, treslendo em toda a linha os velhos ensinamentos do western clássico. É que o realizador de "The Wild Bunch", "The Ballad of Cable Hogue" e "Bring Me the Head of Alfredo Garcia" não se coíbe de filmar uma mulher a ser espancada sem aparente razão. Machista? Sim, Peckinpah pode ser acusado de ser machista. Mas, vejamos ao mesmo tempo, onde já se viu um machista ter genuíno medo de mulheres? De facto, o machismo de Peckinpah existe até ao ponto em que esbarra com a potência escondida do chamado "sexo fraco", um limite que as suas personagens animalescas e viris muitas vezes não chegam a reparar: a mulher, anjo luminoso, aparentemente fraco e inocente, é capaz, a qualquer momento, de libertar toda uma potência escondida e dirigi-la aos seus abusadores. Quer dizer, o "machismo de Peckinpah" (gosto em violar mulheres) bate de frente muitas vezes contra a "misógina de Peckinpah" (receio de, em contrapartida, ser violado por elas...) - nada de psicologicamente estranho, mas, para o caso, algo cinematograficamente relevante.

Veja-se a sequência em que o pelotão da personagem de Coburn se depara com um grupo de mulheres ou totalmente despidas ou, para confundir, envergando a farda do inimigo, as cores do exército soviético. O dilema atinge alguns dos militares alemães, a começar por Coburn, que cedo parece perceber que estará a lidar com o "espécime mais perigoso deles todos". O que acontece a seguir resume bem toda a complexidade moral do cinema de Peckinpah: o mais novo dos soldados, ainda virgem, guarda com o mais nazi dos soldados, um SS acabado de integrar o pelotão de Coburn, para desgosto deste, o grupo de mulheres, que - como veremos - preparam secretamente, com os seus meios "misteriosos", o "contra-ataque". Ambos os soldados germânicos acabam seduzidos pelas prisioneiras, sendo de seguida como que encaminhados para um destino trágico, mas moralmente diferenciado: o alemão virgem, inebriado pela beleza da sua prisioneira, leva uma facada nas costas, mas, antes de morrer, pede ao sargento para perdoar a pobre rapariga - Peckinpah sabe, aqui, compreender a compreensão do virgem, inocente, nazi face à situação daquelas mulheres; ao mesmo tempo, o alemão do Partido, tipicamente caracterizado (muito louro, de bigode escovado até ao último pêlo, demasiado composto e arranjado), é mordido no seu sexo, isto é, a jovem cativa arranca à dentada a virilidade do ser considerado desprezível até pelos seus companheiros de armas. Neste caso, Coburn decide-se por entregar o que resta dele - pouco, segundo Peckinpah - às mulheres "famintas" de vingança, que rapidamente investem a sua ira no seu corpo castrado - desmasculinizado, logo, peckinpahnianamente inútil. De novo, destino bem pior que o reservado ao homossexual.

Sendo assim, parece que Peckinpah adora e odeia, ou "adora odiar" ou "odeia adorar", o sexo oposto. Respeita-o mas só na medida em que tem necessidade dele - ele "define-o" nos seus desejos - e, ao mesmo tempo, não sabe bem ao certo do que ele é capaz - ele "define-o" nos seus medos. Provavelmente, partilhará sentimento semelhante pelo "inimigo de guerra". Peckinpah fez "Cross of Iron", mas não o fez para "humanizar" os alemães. Contudo, os seus heróis são alemãs e, quer queiram, quer não, - como também dizem, repetidas vezes, as várias personagens - são cúmplices da monstruosidade cometida. Contudo? Pois, contudo são isto, mas contudo também são o seu contrário: homens que não se mostram indiferentes aos horrores da guerra e que lutam já não para sobreviver mas para restaurar a dignidade da já destroçada nação alemã (lutar pelos "bons nazis", como diz o coronel interpretado por James Mason). Ainda assim, a crueldade persiste entre alguns desonrosos (os "maus nazis"), que mandam matar para defender interesses particulares, ou que matam cegamente contra qualquer um que vista a farda inimiga.

Coburn vinga-se desses "maus nazis" quando dispara contra o oficial homossexual e o aristocrata interesseiro, mas quando mata friamente o inimigo bélico, fá-lo enquanto revê mentalmente a imagem de uma criança russa que ele salvou, mas que acabou chacinada a sangue-frio por militares russos - ei, e que ideia é essa de porem mulheres na linha de combate? Peckinpah é severo com os russos, porque, vamos lá ver, também não vai com a cara dos comunistas. Odeia nazis e odeia comunistas. Odeia homossexuais e odeia homofóbicos (e) machistas. Odeia mulheres e odeia homens que odeiam mulheres e compreende homens que compreendem as mulheres. E odeia homens que, compreendendo as mulheres, se deixem enredar nas suas falinhas mansas. Receia a superioridade feminina e odeia a superioridade, "de raça" ou "de classe", dos homens armados, mas também odeia a igualdade "sem divisórias" entre homens e mulheres e crianças no campo de batalha, entre homens e homens e crianças na intimidade da cama. Mas, por outro lado - há sempre um "por outro lado" aqui -, filma brilhantemente, com comovente honestidade, homens a amarem outros homens ou a "perderem-se" na toda-poderosa beleza feminina.

"Cross of Iron" move, deste modo, o campo complexo e, por vezes, contraditório das relações humanas em Peckinpah para o espaço absurdo da guerra, espaço esse onde se morre por amor, fidelidade, ódio e traição - às vezes, tudo isto ao mesmo tempo! Espaço onde o bailado é mortal - e como choca a montagem de Peckinpah, suspensa e poética, com a dureza de tudo! - e onde a grandiosidade do humano se faz heróica e tragicamente nas fronteiras com o que há de mais bárbaro. Assim é na guerra "militar" dos nazis contra os comunistas como na perpétua guerra "civil" que nos ocupa os dias. Estrondosa obra-prima.

Tinha 40 anos quando se suicidou

"Lilith" (1964) de Robert Rossen

"Les hautes solitudes" (1974) de Philippe Garrel

domingo, 1 de janeiro de 2012

Torneio interblogues: as mais recentes equipas de sonho

Equipa de Ricardo Lisboa, blogue Breath Away

Equipa de Hoplita, blogue A Sombra do Elefante

Equipa de João Gonçalves, blogue Modern Times

Equipa de João Palhares, blogue Cine Resort

Travam-se as "razões das escolhas" aqui, em comentário.

e...

(não se esqueçam)

Equipa de Luís Mendonça, blogue CINEdrio

Mais três equipas e sorteamos os confrontos directos, que abrirão o primeiro torneio interblogues a nível nacional e, muito provavelmente, a nível INTERNACIONAL (ganhará quem vencer três jogos).

Blogues de todo o mundo, juntai-vos!

(Um aviso: epá, por favor, não venham com tácticas muito complicadas, que eu não sou nenhum Freitas Lobo!)

Sobre o espírito RTP, o maestro...


... António Vitorino d'Almeida, em entrevista ao Correio da Manhã (publicada no seu "guia televisivo" desta semana), disse:

Qual a sua opinião sobre a privatização de um dos canais da RTP?
Estou-me marimbando! A RTP é péssima, não presta, minimamente, serviço público. Não me afecta nada que seja gerida por um gajo qualquer. Afectava-me se houvesse um verdadeiro serviço público. Que eu saiba, era a RTP e não a RTP2 - a menos que me tenham aldrabado - que devia fazê-lo...tanto o canal um como o dois.

Não partilha o argumento de que um canal de serviço público é insuficiente?
Não pode piorar mais! Podemos sempre dizer que poriam lá outra 'Casa dos Segredos', mas o que é que a RTP lá tem? Coisas parecidas... segredos mais escondidos, mas o espírito é o mesmo.

É caso para dizer: "Bravo, maestro!"

(E também é caso para se fazer a pergunta: já conversou com a sua filhota?)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O esquizo-dis-curso da aranha

"Lilith" (1964) de Robert Rossen

"Spider" (2002) de David Cronenberg

(Dis-curso: corrida em todas as direções, como a da aranha para fazer a sua teia com que envolve as suas presas no seu abraço fatal!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Pansignificação: a dream team do CINEdrio

O CINEdrio ficou com inveja e também quis ter uma "dream team cinematográfica". Não foi fácil, mas deixo aqui o resultado de um primeiro exercício mais ou menos improvisado de táctica autoral.


À baliza: James Benning, o observador atento que vê (vir) cinema onde os outros normalmente apenas vêem (vir) uma "perda de tempo".

Defesa esquerdo: John Carpenter, à Fábio Coentrão*, faz o corredor esquerdo todo partindo bem de trás. (Quando fica cansado, entra o veterano Howard Hawks para o seu lugar.)

Defesa central esquerdo: John Ford, peso pesado do classicismo, com porte físico intimidante, o "patrão da defesa". Também faz a direita...

Defesa central direito: mais ágil, mas ainda assim, nome forte do neo-classicismo de Hollywood: Clint Eastwood. Também faz a esquerda...

Defesa direito: sem gigantismos, mas eficaz: Boetticher.

Médio defensivo: Eric Rohmer, bom recuperador e "desmontador" da dimensão primordial do cinema - e constante agilizador do verbo.

Médio esquerdo: John Huston, médio imaginativo que faz quase todas as posições (descontando a de guarda-redes). É o meu Rúben Amorim, mas joga...

Médio central (pivôt): o planificador-mor, o homem dos storyboards e das filmagens a tempo e horas que nunca falham: Alfred Hitchcock.

Médio direito: Anthony Mann. Uma vez sobe ele, com grande poder físico pelo lado direito, outras vezes, abre alas a Boetticher, em virtuosas combinações.

Avançado (esquerdo, esquerdíssimo!): Jean-Luc Godard, espécie de Saviola, rápido, imprevisível e, muitas vezes, genial, mas, outras vezes, algo apagado.

Ponta-de-lança: Stanley Kubrick, mais um Rodrigo do que um Cardozo, é implacável frente à baliza adversária - nada o detém.

* - Não me leve a mal, caro leitor, mas as minhas referências futebolísticas vão ser encarnadas. A cor do meu clube.

E agora preciso de adversário. Quem me desafia? Digo: quem tem tomates para desafiar a equipa do CINEdrio? Hem?

(A ideia é fazer um pequeno torneio interblogues e escolher a equipa ideal por sectores... em sondagem aberta a todos e a publicitar entre os blogues participantes. Já temos algumas equipas a disputar. Participe!

Há regras?, pergunto eu a mim mesmo. Talvez, respondo eu a mim mesmo. Por exemplo:

1. Procurem publicar a vossa "dream team" (apenas os 11 jogadores) em comentário a este post - nem que só com um link. Eu irei anunciar as diferentes equipas em post futuro, cada uma disposta no campo verde usado pela minha equipa. Depois a ideia é cada blogger publicar a sua equipa e alojar link para a sondagem no seu espaço. Entretanto, ainda assim, não deixem de chamar amigos-bloggers para a peladinha!

2. Procurem não repetir jogadores e, caso o façam, procurem repeti-los em posições diferentes. Também sugiro que façam a defesa de cada escolha, em função do seu posicionamento em campo, das suas qualidades individuais e colectivas.

3 - Mais nenhuma regra, por enquanto.)

Seven Men From Now (1956) de Budd Boetticher


Se Hawks é um círculo e Ford uma sinusóide, Boetticher é uma linha recta progressiva. Claro que há variações dramáticas, clímaxes e anti-clímaxes, mas os seus filmes estendem-se normalmente num percurso de irredutível linearidade; são, por norma, sobre uma travessia que vai de um ponto a outro - travessia recta sobre a rectidão moral, entenda-se. Claro que "Buchanan Rides Alone" e "Decision at Sundown" são mais concentracionários do que dou a entender, contudo, aí a linha recta é puramente narrativa - e, no caso do segundo vê-se ainda melhor, mais recta do que o percurso percorrido num "Ride Lonesome" ou neste "Seven Men From Now". Vai-se da primeira situação para a última, com poucas, quase nenhumas mesmo, variações de permeio.

"Seven Men From Now" é um dos mais destilados Boetticher. É protagonizado por Randolph Scott, ele é um ex-xerife que perdeu a mulher e que procura fazer justiça com um bando de "outlaws", ao mesmo tempo, rivaliza essa "busca" com o pouco fiável Lee Marvin. A ameaça paira durante a viagem - irá Lee Marvin virar-se contra o protagonista antes da chegada à vila onde "esperam" os criminosos? Irão os índios aparecer para atacar Scott e Marvin e acabar com as aspirações, antagónicas, dos dois? Nada de verdadeiramente "alarmante" se realiza, apenas se joga subtilmente nas margens do risco inerente a qualquer viagem pelo Oeste selvagem - e, a sul, a América é fértil em "ratoeiras" imprevisíveis.

Boetticher põe as peças todas em cima do tabuleiro, meticulosamente, para as mandar abaixo, uma a uma, nos instantes finais... até chegar o momento-chave do duelo: Marvin vs. Scott. Entre eles: a caixa cheia de ouro (faz lembrar o final de "Buchanan Rides Alone"). Quem puxará primeiro da pistola e acabar com a raça do outro? É uma cena clássica, mas neste filme sentimos - sem excesso melodramático - a rivalidade entre os dois, com uma certa indiferença niveladora, que põe tanto o protagonista acossado pelo fantasma da morte da mulher - será que ele não deseja secretamente o suicídio? - como o vilão - será Lee Marvin mesmo um sacana maior do que os outros "criminosos", que executaram o assalto? - num nível quase similar. Não fosse o machismo exuberante de Marvin - que contraste com o machismo "encoberto" de Scott - e podíamos fingir que não sabíamos o desenlace desse confronto de titãs. Entre o campo e o contra-campo o tiro é disparado e o herói, mesmo de perna manca, mantém a pose quase estatual, de uma dignidadade - e rectidão -, ouso dizer, puramente boetticheriana. Bang!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Little Odessa (1994) de James Gray

(ATENÇÃO: o texto contém alguns spoilers)

Há uma coisa, que não é bem um pormenor, que gosto muito nos filmes de Gray, especialmente nesta sua primeira obra: por regra, as suas personagens beijam mal, o que, por outro lado, é compensado por uma fisicalidade muito táctil, muito "corpo contra corpo", uma violência afectiva que tem tanto de agreste como de frágil - e comovente. "Little Odessa", especialmente, está repleto de exemplos desta "violência afectiva": a forma como os dois irmãos se amam é como ver brincar dois tigres bebés; o pai e os filhos, para além de um amor e desgosto profundos, têm um cinto lacerante a ligá-los; o pai também manieta o corpo da mãe doente de cancro numa espantosa demonstração de amor, um amor que é "potência de vida" (como diz Deleuze), um amor que se serve como remédio para a superação de uma dor física insuperável - maior do que eles... -; a personagem de Tim Roth faz amor com a personagem de Moira Kelly com as suas mãos a tapar-lhe o rosto, uma violência seca, triste, amarga, poucos são os beijos - é a cena de amor mais triste que vi...

Penso que James Gray entende que a materialidade dos sentimentos faz-se pelo tacto, pelos encontrões, pelo soco, o empurrão, a leve festa sobre o rosto - normalmente, um rosto dolorido, lacerado, infindavelmente complexo. "Little Odessa" é o primeiro filme de Gray e já tem tudo isto lá dentro; na realidade, parece que o jovem realizador americano tem construído a sua carreira literalmente sobre ele, tendo, enfim, "Little Odessa" como grande alicerce autoral - o seu rés-do-chão metafísico. O problema do "desconforto" das emoções e da "família", as suas divisões (marcadas no tempo e no espaço), tornar-se-ia pedra de toque do seu cinema - em "Two Lovers", por exemplo, atinge nova apoteose. Aliás, é curioso ver como, na câmara de Gray, a dimensão concreta do universo das seus personagens passa da materialidade das coisas para uma imaterialidade e uma espiritualidade (no caso de "Little Odessa", uma espiritualidade nitidamente agnóstica) própria do Re-ligioso. Se no mais recente filme de Gray falámos da simbologia em torno da luva e do anel, em "Little Odessa" temos de falar do lençol branco, uma espécie de "segundo ecrã" do filme, que - com a música de capela - contribui para tornar a sub-urbanidade e materialidade de tudo em qualquer coisa próxima de um "fresco religioso".

É o lençol branco do leito da mãe doente, marcado pela dor e a doença, enfim, por uma maternidade que sangra por dentro - a magnífica Vanessa Redgrave tem espírito e presença de Madona aqui. É o lençol branco que serve para enrolar os corpos e atirá-los sem dó para a fornalha, em ritual pagão precedido de uma janela divina concedida pelo carrasco: "Hey, do you believe in God?, "Yes!", "Good. We'll wait ten seconds and see if he comes to save you" - eis a mais exasperate demonstração do agnosticismo de Roth em "Little Odessa" e, provavelmente, a primeira clara revelação do agnosticismo atormentado de Gray como autor... E, por fim, é o lençol branco, perfurado por uma bala, por trás do qual os dois únicos inocentes do filme são mortos a tiro - maior condenação para a personagem de Roth seria impossível. Os "dois únicos inocentes" não, a mãe também era inocente, mas nesta altura só lhe resta o espírito, um espírito que, com o do filho sacrificado, assombra, nos minutos finais, o rosto martirizado de Roth - ecrã final no qual, estou em crer, Deus ainda não deu provas de si. O homem está só consigo mesmo - e, por isso, já não há mais nada a contar, e, por isso, o filme tem de terminar.

PS: É muito barata e tal, mas evitem esta edição britânica de "Little Odessa". A imagem está encaixada num rectângulozito ridiculamente minúsculo e sem qualidade minimamente justificável para um filme recente - depois queixam-se as editoras que se saque... Parece que esta edição americana não é muito melhor... De qualquer maneira, justifica-se uma edição à medida desta obra-prima dos anos 90 por parte de uma grande editora (inter)nacional.

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...