terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Ligação directa à pala de Walsh (VII)
Foi um mês menos produtivo da minha parte, mas o investimento não foi menor, já que a minha crónica Civic TV, fazendo o raio X da programação de cinema na passagem de ano, reúne alguns dados ainda por estudar na sociedade portuguesa. Estudo de igual ou maior valor é a nova crónica que o Ricardo Vieira Lisboa redigiu, com vista a "pôr em perspectiva" a dimensão da indústria de cinema espanhola, por contraposição à indústria de cinema que não temos.
Para além disso, escrevi a análise possível a uma obra-prima que me supera: "Charulata" de Satyajit Ray. Nos posts conjuntos, remeto o leitor para a regressada rubrica Cadáver Esquisito, com um texto sobre os limites morais no cinema. A Sopa de Planos comemorou as mais variadas formas de celebração em cinema. Já hoje eu e o Ricardo Vieira Lisboa publicámos a nossa "revista do mês" na rubrica Actualidades.
Dos meus colegas, recomendo vivamente a leitura daquela que é, para mim, uma das melhores entrevistas alguma vez feitas a uma crítico de cinema, no caso, a primeira parte da conversa que Carlos Natálio teve com Adrian Martin. Quero ainda destacar dois textos: a intrigante recuperação, da autoria de João Palhares, de um título obscuro realizado, veja-se só!, por Saul Bass e o texto de homenagem a Nagisa Oshima, escrito por David Barros.
No próximo mês, esperam-se novas e picantes novidades.
A bit of the old ultra-violence
"Clockwork Orange" (1971) de Stanley Kubrick
"Death Wish" (1974) de Michael Winner
[Aqui fica, a minha singela homenagem a Michael Winner, desaparecido há dias, via aquele que foi, sem sombra de dúvidas, o seu sucesso maior, "Death Wish", o bom revenge flick (reaccionário comme il faut) protagonizado por Charles Bronson - em tempos, um habitué na televisão nacional, hoje remetido a um certo esquecimento.]
domingo, 27 de janeiro de 2013
The Revolt of Mamie Stover (1956) de Raoul Walsh
Apesar de ter a guerra como pano de fundo, "The Revolt of Mamie Stover" é um melodrama adulto, de facto, quase sirkiano, que estranhará os espectadores habituados a ver em Walsh sinónimo de "aventura e acção". Este filme aparentemente incaracterístico de Walsh conta a história da repentina ascensão social de uma prostituta de São Francisco numa ilha do Hawai e a forma como o súbito sucesso interfere com a relação amorosa que mantém com um escritor bem instalado na vida. Dito assim, feita esta sinopse, ao espectador mais atento às nuances walshianas começará a "soar a campainha", na medida em que não é caso único no cinema do realizador americano histórias sobre ascensões meteóricas de pessoas marginais ao sistema, bastando recordar um filme magnífico como "Silver River". A tensão entre amor e dinheiro, a pedra de toque temática deste filme, traça um arco dramático muito semelhante ao que é traçado nesse fabuloso western protagonizado por Errol Flynn. Por outro lado, o fascínio quase fetichista de Walsh - que diziam ser um bon vivant quando não estava "em serviço" - por lugares de prazer nocturno atinge o pico aqui, já que boa parte do filme - qual Hawks 100% heterossexual - se passa num luxuoso lupanar com as maiores beldades da ilha - onde, Hawks again..., o cativeiro é fixado internamente como condição de sucesso para o negócio. Se pensarmos em filmes como "Manpower", "You Are in the Army", "The Man I Love", etc. ficamos conversados quanto ao papel que os "nightclubs" desempenham no seu universo.
Posto isto, "The Revolt of Momie Stover" afirma-se por si mesmo como um drama inteligente sobre uma mulher determinada em mudar de vida, lutando no fundo contra o seu próprio passado (de novo, "soa a campainha" no espectador mais conhecedor de Walsh...). O trabalho pictórico é nada menos que soberbo e Jane Russell, mostrando o outro lado da "traveca" espampanante de "Gentlemen Prefer Blondes", consegue combinar sensualidade, feminilidade e poder como poucas actrizes.
A Angústia do Blogger Cinéfilo (V): o grande vencedor
Still de "The Freshman" (1925) de Fred C. Newmeyer e Sam Taylor (Ah, mas isso é uma cena de râguebi! Não é nada, é o moche que aconteceu logo após o último apito do árbitro, no jogo da grande final cine-futebolística!)
Final intensa, o jogo mais assistido na história do torneio!, que termina com um resultado expressivo da "equipa sensação" desta segunda edição da Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty: o Dial P for Popcorn.
O seu losango ofensivo produziu mais efeito que o da equipa adversária: Todd Haynes - Almodóvar - Terry Gilliam - PT Anderson deram uma lição de bola a David Lynch - Tarantino - Kusturica - Scorsese. A defesa ultra-premiada do Dial P for Popcorn também terá sido mais eficaz que a do Caminho Largo, onde a experiência e "classe internacional" da dupla de centrais, Polanski-Cronenberg, não teve o cinismo da duríssima dupla Haneke-Trier. Soderbergh, normalmente irrequieto, teve uma exibição muito mais descansada que Miyazaki, homem habituado a outros ritmos.
Está assim encontrado o grande vencedor, que fica assim responsável pela (re)organização do torneio dentro de um ano. O CINEdrio, como competidor e clube anfitrião da competição, dá os parabéns ao grande vencedor Dial P for Popcorn.
Quero agradecer a todos os concorrentes desta edição - foram grandes desportistas! - e a todos os votantes - o melhor décimo segundo jogador/autor do mundo!
Em breve, a votação do "onze ideal" da blogosfera cinéfila.
sábado, 26 de janeiro de 2013
You Are in the Army Now (1937) de Raoul Walsh
Será um dos filmes menos vistos e menos inolvidáveis de Raoul Walsh, mas foi bom tê-lo visto por duas razões: primeiro, porque sedimenta algumas ideias em torno da dimensão autoral do cinema de Walsh; segundo, porque me deu a oportunidade de ver e ouvir, graças a esta edição modesta de dois filmes de Walsh, um walshiano dos bons velhos tempos do Mac-Mahon, Dominique Rabourdin. Bem vistas, estas duas razões interligam-se: na entrevista/apresentação que dá a propósito de "You Are in the Army Now", para além de falar da adoração louca que um grupo de cinéfilos (onde estavam nomes conhecidos como Patrick Brion ou Jacques Lourcelles) prestava aos filmes mais obscuros de um cineasta já de si pouco popular chamado Raoul Walsh nas salas do velhinho cinema parisiense, Rabourdin revela o seu conhecimento profundo da obra do realizador norte-americano, traçando desde logo uma característica intrínseca ao herói walshiano e que está presente neste seu filme menor: a desobediência. Se pensarmos em filmes como "Desperate Journey" e a obra-prima "Silver River", para não falar de quase todos os gangster movies, temos dois exemplos de como Walsh é fundamentalmente um cineasta anti-sistémico, os protagonistas dos seus filmes se estão inseridos numa estrutura militar irão desafiá-la se isso significa fazer bem - para eles, para os outros, ou para ambos.
Nesta comédia semi-burlesca de guerra filmada no Reino Unido, Walsh traz-nos uma personagem que faz da desobediência um modo de vida, desde o momento em que toma o lugar de um homem literalmente apunhalado pelas costas na sequência de uma discussão num casino ilegal gerido por mongoleses, até ao instante em que, já tornado num soldado exemplar - mesmo que debaixo de uma identidade falsa - decide "desertar" do exército britânico. Também de novo, e isso Rabourdin não refere, mas digo-o eu, temos uma personagem que ocupa o lugar de outra, que "troca de pele", que duplica, enfim, a sua máscara interpretativa - o actor interpreta uma personagem que interpreta outra. Já que estou embalado também diria mais: de novo, um herói walshiano sacrifica-se mais ou menos heroicamente, desaparecendo à nossa frente quase ao mesmo tempo em que cai o "the end" sobre a imagem. Como diz Rabourdin, este será o segredo melhor guardado desta obra de Walsh: a forma como o fim deste herói se alonga serenamente num único plano, o último que vemos de "You Are in the Army Now". É um momento estranhamente poderoso, já que de uma comédia ligeira passamos para um registo oposto, quase etéreo, no qual não morre apenas uma personagem mas duas - a personagem e a personagem que esta interpreta... até ao fim! Do corpo morto, duas almas se elevam ou apenas uma? Um plano vale um filme? Vale vários quando é simples e profundo como este.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
N word cowboy
"Sargeant Rutledge" (1960) de John Ford
"Django Unchained" (2012) de Quentin Tarantino
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
High Sierra (1941) de Raoul Walsh
Percebo o que quer dizer Jacques Lourcelles, no seu Dicionário do Cinema, quando conclui que o herói de "High Sierra" se inscreve mal no filão walshiano, porque lhe falta a desmesura, a monstruosidade e o aspecto picaresco ou a "passividade trágica" que são marcas indissolúveis das melhores personagens do realizador norte-americano. Para quem - como eu - tinha visto antes "Pursued", parece-me evidente tudo isto, contudo, pensando mais fundo - e percebendo onde quer chegar Lourcelles, isto é, ao "fraco argumento" de Huston, autor detestado por boa parte da crítica francesa - devo dizer que concordo na mesma medida em que discordo com essa ideia: aqui, Humphrey Bogart - actor cujo carisma, por acaso, só saltará à vista com Huston e Hawks - é demasiado altruista, demasiado "mole" e auto-comiserante para ser identificável com o tipo de homem walshiano, mas também é preciso dizer que a passividade trágica está lá, que esse altruísmo e moleza são, à sua maneira, quase patéticos.
Parece que ficamos reduzidos ao grau de fraqueza do herói masculino, porque, entendamos, os homens walshianos estão longe da planura viril de um Huston, por exemplo. Logo, só posso concluir que, apesar de tudo, Humphrey "Mad Dog Earl" Bogart está investido do olhar, do "olho singular" apetece escrever, de Raoul Walsh - menos que num "Pursued", apesar daqui também termos uma personagem "perseguida" pelo seu passado, menos que num "Desperate Journey", apesar de aqui também termos a história de uma viagem, de uma fuga a qualquer "reconhecimento", menos que num "They Drive By Night", mas também aqui Bogart lida com uma mutilação. É sobre esta mutilação que importa parar um pouco: no filme anterior que realizou com Walsh, também com Ida Lupino no elenco, Bogart era o "homem sacrificado", esta figura é cara a Walsh, bastando-nos para isso recordar o desfecho trágico de Cagney em "White Heat" ou "The Roaring Twenties", ou de Flynn no início e no fim de "Uncertain Glory" ou de Edward G. Robinson em "Manpower", etc. O sacrifício de Bogart nesse filme não se consubstanciava na sua morte física, mas numa espécie de morte mais embaraçante: uma morte fílmica. A personagem, após o acidente que lhe roubou um braço, quase desaparece de cena, esta negligência castigadora, implacável, volta a acontecer em "High Sierra", mas de forma significativamente distinta, porque o embaraçado continua em cena e é, precisamente, o herói.
Em "High Sierra", Bogart procura "arranjar" (fix) o pé defeituoso de uma rapariga com a qual se enamora. E, de facto, avança com o dinheiro para uma operação que acaba por ser bem sucedida. Bogart, que no filme anterior ficava sem braço, dá um pé à mulher que ama. É um gesto altruísta, talvez demasiado "caridoso" para um infame e cruel ladrão de bancos recentemente indultado de uma pena de prisão para a vida... À partida, não é um gesto muito walshiano, também porque significa uma acção, uma boa acção cristã, de ajuda a certa pobre casal de agricultores incapaz de pagar uma simples operação que restitua em pleno a feminilidade da sua bela filha. Bem, será, mas só aparentemente, porque, como se perceberá - mas nunca é assumido o "cinismo" dele, por inteiro - , Bogart procura uma recompensa: dá um pé e, em troca, almeja "a mão" da rapariga. Acaba por ser muito walshiana a forma como esta ingénua e doce menina dá a volta ao texto e anuncia que não ama Bogart, até porque o seu coração pertence há muito a outro homem. Dá vontade de dizer que a doce e inocente menina "dá-lhe com os pés".
Este lado dúplice, mas silenciosamente programático, das personagens femininas walshianas estava presente em muitos outros filmes, mas aqui arrasa por completo o coração do nosso herói. O que acontece nos filmes de Walsh é que o homem é um lobo solitário que na travessia, física ou puramente moral, que enfrenta está sempre sujeito a acidentes, o primeiro desses acidentes (que muitas vezes é um "bom acidente") pode ser uma mulher, mas aqui esta é mais que um mero acidente: é o primeiro "fim" daquela personagem, do seu "man power". Bogart não é desmesurado, até é modesto nas suas ambições, também se revela muito menos egotista que outros heróis walshianos, o que se passa é que também é frágil e feminino como tantos outros. Não sendo nada próximo de uma obra-prima - estamos de acordo com Lourcelles -, "High Sierra" acaba por ser bem sucedido a situar, isto é, a relativizar a figura do herói na obra de Walsh.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
A política de autores como 'política de si, por si'
Jean-Luc Godard, "Pierrot le fou" (1965)
Luc Moullet, "Brigitte et Brigitte" (1966)
Godard calls Bergman an 'intuitive artist' rather than a 'craftsman': 'The camera is not a craft. It is an art. It does not mean team-work. One is always alone; on the set as before the blank page*. And for Bergman, to be alone means to ask questions. And to make films means to answer them. Nothing could be more classically romantic.' Bergman's own comment on this passage is apt: 'He's writing about himself.'
Jim Hiller (ed.), Cahiers du Cinéma: The 1950s: Neo-Realism, Hollywood, New Wave, Cambridge, Harvard University Press, 1985, p. 175
(...) - En 55-65, rappelle-toi, les futurs cinéastes des Cahiers inventaient la politique des auteurs, tellement mondialisée aujourd'hui qu'on en oublie les bagarres qu'elle a suscitées.
- Et alors?
- Dans un premier temps, il fallait accréditer l'idée que l'auteur d'un film, c'est le cinéaste. Et dans un second temps, faire de la propagande pour une autre idée - Godard l'a reconnu sur le tard -, à savoir que l'auteur, le vrai, ce n'est pas tant le cinéaste que le journaliste en train d'inventer, là, en direct, cette connerie de politique des auteurs.
- C'est freudien, ton truc. L'auteur ne serait pas Walsh, méprisé à l'époque par toute la critique de cinéma, mais un critique mutant, Godard par exemple, en train d'inventer Walsh aux yeux du monde et qui dit en fait : «C'est moi, l'auteur, le cinéaste à venir, vous allez voir ce que vous allez voir.» Claire, c'est lumineux, ton truc.
Louis Skorecki, Walsh et moi: suivi de Contre la nouvelle cinéphilie, Paris, Press Universitaires de France, 2001, pp. 18 e 19
* - Etc.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Pursued (1947) de Raoul Walsh
"Pursued" é filme para merecer três ou quatro longos ensaios sobre o género (o gender como sexo e como género fílmico) ou a dimensão psico-sociológica do "sonho" (não, da "memória") do protagonista interpretado por Robert Mitchum. Mitchum, no rosto, na voz e na pose, traz ao filme a ambiência noir quase ao mesmo tempo que o jogo de contrastes, o preto-muito-preto da fotografia a preto-e-branco, e toda a reversão temporal - lá está, psicanalítica ou, se preferirem, "out of the past" - que espoleta a narrativa. No entanto, "Pursued" é, antes de mais, um western, constatação imediata dada pela paisagem, que, no entanto, vai sendo traída (a constatação e a paisagem) em toda à linha à medida que entramos no trauma e nos pesadelos do nosso "herói" - e as aspas já nos estão a colocar, de novo, no território do noir. Segundo especialistas como Scorsese*, este terá sido o primeiro western noir da história do cinema, o que denuncia de imediato um traço nem sempre tido em conta no cinema de Walsh (que já tinha salientado na minha análise a "The Big Trail"): o seu grau de rigor e "competência" paredes-meias com uma "fúria" secreta pela experimentação fílmica.
Se, como diz Jacques Lourcelles, "The Big Trail" funcionava como grande documentário épico, quase metafísico, disfarçado de filme de cowboys, "Pursued" é um noir atormentado, por vezes perverso na sua indiferença moral, que usa e se deixa usar pela paisagem do western clássico. Disse atrás "fúria" para caracterizar esse Walsh secreto que procura sabotar os géneros que tanto ajudou a cristalizar. Disse-o a pensar em "The Furies" de Anthony Mann, filme que me parece claramente dever o mundo a "Pursued" - aliás, se me tivessem mostrado este filme de Walsh, sem indicação quanto ao seu realizador, eu diria estar na presença de um filme de Anthony Mann, dada a carga trágica que corre nas veias de uma família que mutila e se auto-mutila... Mas não, é mesmo um "filme de Raoul Walsh". E como ver nele a sua assinatura, o seu "toque" autoral? Arrisco - porquanto dizer que Walsh é um auteur antes ou depois de um puro metteur en scène soará a heresia em certos círculos - começar pela personagem feminina, interpretada por Teresa Wright. É certo que Walsh é um realizador predominantemente masculino, mas, talvez por isso mesmo, as suas mulheres estão muitas vezes marcadas pela mesma dose de incompreensibilidade.
A personagem de Wright, por exemplo, no seu plano louco para se vingar do "amor da sua vida" revela a mesma neurose, o mesmo "desvio" que outras mulheres walshianas, como desde logo Ida Lupino no já de si esquizóide "They Drive By Night" ou Marlene Dietrich no ironicamente intitulado "Manpower". Este trio feminino, diria fatídico, traça em linhas carregadas um triângulo que vai apertando, quase até estrangular, o pobre macho walshiano, homem viril, certo, mas outrossim emocional e indefeso - a apoteose sendo James Cagney em "White Heat", ainda que não distante de Mitchum aqui, em razão da sua relação edipiana com uma "providencial" figura materna... Se a personagem feminina de "Pursued" é fria e calculista no seu plano revanchista para liquidar o "amor da sua vida", o homem aspira apenas resolver um enigma passado que o obceca ou que, como diz o título, "o persegue". A característica neurótica em Teresa Wright está, obviamente, na oscilação entre o amor e o ódio, como acontecia em Ida Lupino em "They Drive by Night" com a personagem de George Raft. As duas personagens recorrem ao homicídio com a mesma dedicação com que amam o "seu homem". A diferença fundamental aqui é que Teresa Wright pode ter Robert Mitchum, ao passo que Ida Lupino nunca conseguirá conquistar George Raft. (De qualquer modo, há qualquer coisa que liga as mulheres de Walsh aos "anjos fatais" de Otto Preminger...)
A violência daquela paixão levada ao paroxismo nasce de um traço que resulta particularmente perturbante: a natureza incestuosa da relação que une Mitchum a Wright. Mesmo sendo irmãos adoptivos, a relação que os une, como o protagonista do filme, faz-se à sombra do passado mais distante, isto é, das recordações da sua infância, que teria sido perfeita não fossem os ciúmes de Adam, o irmão natural de Wright. Se antes eram irmãos inseparáveis, agora preparam-se para se unir em matrimónio para toda vida ou, para ser mais exacto, "até que a morte os separe". Ninguém no filme se escandaliza particularmente com esta decisão, facto espantoso que nos relembra que neste filme pouca coisa há para lá do universo mental, factício, separado do real, de Mitchum. Face a um comportamento desviado, que transforma irmã em noiva, Walsh não se desvia um milímetro do percurso traçado pelo protagonista e que deverá desfechar com a resolução do mistério que o obceca. Esta opção, irrealizante, justifica-se, claro está, porque todo o filme se passa na cabeça de Mitchum: é ele que nos conta a forma como tudo se passou, é ele que "vindo do passado" (de novo pisco o olho ao filme futuro de Tourneur, também com Mitchum) nos presenteia - isto é, torna presente - a sua visão do que já lá vai. Dito de outro modo: ele é o metteur en scène aqui.
Mas a sua visão é, como todas são, uma parte implicada na experiência, logo, a naturalidade de um sentimento como o amor que sente ou o ódio que lhe é dirigido é destruída pelos excessos resultantes de uma realidade filtrada por um ego ferido e angustiado. A neurose de Wright é a neurose de Mitchum, resolver a segunda será resolver a primeira - e, por isso, Walsh não se desvia do percurso e, como bom cineasta das linhas rectas que é, dá pouca atenção ao significado psico-social (diferente de sócio-psicanalítico) das acções das suas personagens. Wright bem diz, no início, que Mitchum está a "imaginar coisas", ao que ele responde "não, estou só a lembrar-me". Depois o filme entra na "lembrança", mas não há nada de objectivamente distinto entre os produtos da imaginação e os produtos da lembrança, daí que as fronteiras morais ou uma certa consciência social "muito naturalmente" se fantasmagorizem à medida que a narrativa avança. Por tudo isto, entrar em "Pursued" é entrar em território proibido, onde as regras de género (do sexo e do cinema) são tão incertas quanto certas são as regras do nosso mundo, ele que é definido aqui da seguinte forma: tudo o que desabita a cabeça de Mitchum. Fora da sua zona de conforto, ao espectador cabe a missão de a habitar.
* - Refiro aqui o único extra da edição em Blu-ray de "Pursued", que pode ser adquirida aqui.
sábado, 19 de janeiro de 2013
A Angústia do Blogger Cinéfilo (IV): grande final
Still de "Parade" (1974) de Jacques Tati
Foi uma meia-final muito assistida, desde logo, o jogo que opôs o Dial P for Popcorn à equipa do Shut Up and Watch the Movies bate o recorde anteriormente estabelecido, com um total de 40 votos. E comecemos precisamente por esta disputa que esteve muito equilibrada até ao último minuto, quando - como já havia feito nos quartos-de-final - o Dial P for Popcorn arrasou com o adversário. No fim, ficou 27 contra 13.
No outro jogo, o desequilíbrio foi grande quase desde o início, tendo o Caminho Largo goleado a equipa da casa, vencedora da primeira edição do torneio, o CINEdrio. 18 - 9 foi o resultado final. [Consta que houve lenços brancos mais um lençol (ainda com o nome de Paulo Bento escrito num canto) e cânticos do género "Fool Fuller Fired!".]
A grande final está assim definida, sem nenhum favorito claro, já que o torneio tem sido quase um "passeio no parque" para ambos os finalistas. Vamos ver como se portam no mano-a-mano final. Votem! E decidam qual a melhor equipa da blogosfera cinéfila e, automaticamente, quem irá receber a terceira edição do torneio A Angústia do Blogger Cinéfilo.
Grande final: Dial P for Popcorn (a preto) vs. Caminho Largo (a azul)
Decida o Vencedor Aqui
Até à próxima sexta-feira, estão convocados todos os adeptos cine-futebolísticos para este encontro. Quanto aos concorrentes - e ex-concorrentes - fica o convite de anteverem esta grandíssima final e, como todos os adeptos, darem nota dos pontos fortes e fracos de cada equipa. Que o jogo comece!
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Último plano: não haverá plano possível para lá do vilão
"Blue Steel" (1989) de Kathryn Bigelow
"Zero Dark Thirty" (2012) de Kathryn Bigelow
[Impressionante: passados mais de 20 anos, Bigelow retoma a mesma reflexão sobre a condição política da mulher face à violência e às relações de poder. Fá-lo, aliás, de forma magistral em "Zero Dark Thirty", esse filme de guerra com sangue de western na guelra - veja-se o grande assalto final ao "forte Osama". Contrastando com o bom filme falhado "Blue Steel", temos aqui a presença e o rosto de Jessica Chastain, cuja mais ou menos secreta fragilidade emocional é parte indissociável da sua magnífica potência feminina (diria que Jamie Lee Curtis, uma mulher de traços duros, muito mais máscula mas igualmente determinada, é menos potente dentro desse tipo de potência). A diferença entre Lee Curtis e Chastain é que a primeira nos dá pistas sobre uma política no feminino (pode ser comprovadamente uma mulher e até uma mulher bela, mas não é uma mulher feminina), ao passo que a segunda dá um passo em frente em direcção a uma poderosa política do feminino (ela é uma mulher feminina e administra a sua "feminilidade" como um instrumento de poder, shock and awe).
O rosto de Chastain, leve e luminoso (tão afirmativamente não-violento e claro), é o grande contra-campo estético e moral do lado mais obscuro (= que está para lá da mais vulgar maquilhagem político-mediática) da guerra contra o terrorismo. Este contra-balanço é mais evidente em "Zero Dark Thirty", mas o desenlace nos dois filmes aproxima quase ao ponto da indistinção a situação desses dois rostos-ecrãs: depois de morto o grande vilão, que era simultaneamente a sua razão de ser e o ser da sua desrazão, não ficam mais imagens por projectar, senão apenas as de uma existência que entretanto perdeu a sua qualidade fílmica. O filme só acaba depois de vermos desaparecer, num monólogo interior, de si para si, "a" nossa heroína - procurar quem? Resistir a quem? Ou pior: procurar o quê? Resistir a quê? Um final, num plano que já nada planifica (ou melhor: que só planifica ou antevê daí em diante o nada), desencadeado pela consciência de "fim de si mesma" da protagonista.]
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
A Angústia do Blogger Cinéfilo: antevisão do jogo das meias-finais
Caminho Largo (a preto) vs. CINEdrio (a azul)
Decida o Vencedor Aqui
domingo, 13 de janeiro de 2013
Recorte de falas (XXVI): They Drive by Night
Pois é, George Raft tem todas as razões para ser - ou para se ter tornado - daltónico: é camionista, "conduz de noite", e é protagonista num filme esquizóide a preto-e-branco de Raoul Walsh, o homem que se decidiu definitivamente pela realização (em detrimento da interpretação) quando perdeu um dos olhos num desastre de viação. Ele é daltónico, nós somos daltónicos ("color blind"): "They Drive By Night" (1940) conduz-nos, inicialmente, pela estrada do drama realista steinbeckiano, para depois se "estampar" num thriller noir onde o que ficou para trás... ficou mesmo para trás. Coincide que a primeira parte - o primeiro filme, apetece dizer! - termina pouco depois de Fabrini "parar" nos cabelos vermelhos de Cassie (Ann Sheridan) e é aí que a viagem termina, ou melhor, é aí que ele "settle down". De facto, o daltonismo é péssimo para quem conduz.
Joe Fabrini: I always liked redheads.
Cassie Hartley: Red means stop.
Joe Fabrini: I'm color blind.
Joe Fabrini: I always liked redheads.
Cassie Hartley: Red means stop.
Joe Fabrini: I'm color blind.
sábado, 12 de janeiro de 2013
Modernidade? O elo que liga o motel do filho à casa da mamã
Alfred Hitchcock, "Psycho" (1960)
(...) the architectural locale of the two murders is by no means neutral; the first takes place in a motel which epitomizes anonymous American modernity, whereas the second takes place in a Gothic house which epitomizes the American tradition. (...) This opposition (whose visual correlative is the contrast between the horizontal - the lines of the motel - and the vertical - the lines of the house) not only introduces into Psycho an unexpected historical tension between tradition and modernity; it simultaneously enables us to locate spatially the figure of Norman Bates, his notorious psychotic split, by conceiving his figure as a kind of impossible 'mediator' between tradition and modernity, condemned to circulate endlessly between the two locales. (...) It is on account of this split that Psycho is still a 'modernist' film: in post-modernism, the dialectical tension between history and present is lost (in a postmodern Psycho, the motel itself would be rebuilt as an imitation of old family houses).
Slavoj Žižek, 'In His Bold Gaze My Ruin is Writ Large', in Everything You Always Wanted to Know about Lacan (But Were Afraid to Ask Hitchcock), NY/London, Verso Books, 1992, pp. 231-232
Charles Baudelaire, O pintor da vida moderna, Lisboa, Passagens, 2004
A Angústia do Blogger Cinéfilo (III): meias-finais
Still de "The Great Dictator" (1940) de Charles Chaplin (sim, Hitler faz "mão" na imagem e devia ter sido expulso)
Com um dia de atraso publico o resultado dos jogos dos quartos-de-final entre as equipas de sonho da blogosfera cinéfila. O atraso é justificado: até há cerca de 24 horas tínhamos um jogo empatado, que, por isso mesmo, teve de ir a prolongamento e, deste modo, provocar um ligeiro atraso na publicação dos resultados. O leitor achará estranho que tal tenha acontecido face aos resultados bastante contundentes expressos na maior parte das ou mesmo em todas as partidas.
As votações foram bastante participadas, tendo o jogo que opôs o Keyzer Soze's Place e o Dial P for Popcorn batido todos os recordes do torneio com um total de 37 votos. Foi neste jogo que o empate persistiu passados os 90 minutos de jogo. No prolongamento, o jogo desequilibrou-se nitidamente para o lado da equipa do Dial P for Popcorn, que passará assim para as meias-finais.
O outro jogo mais animado foi aquele que juntou em campo as equipas do Caminho Largo e Rick's Cinema. 34 votos, sendo que cerca de 74% deles foram para o Caminho Largo, que muito serenamente parte, já com estatuto de favorito a estar na grande final, para as meias-finais da competição.
Mais equilibrada foi a partida que envolveu o CINEdrio e o Narrador Subjectivo. Apesar da excelente exibição - e estamos mesmo a ser objectivos - desta última equipa, o CINEdrio saiu vitorioso, reunindo 14 dos 24 votos depositados.
O jogo Shut Up and Watch the Movies vs. A Sombra do Elefante foi um espectáculo interessante, mas algo desnivelado. É que o grande Elefante foi silenciado com um total de 13 contra 6 votos, a favor do pouco "delicado" opositor.
Assim sendo, podemos avançar já para o alinhamento das meias-finais, abrindo a votação (que terminará na próxima sexta-feira, dia 18) a todos os adeptos e, claro, ex-concorrentes. (Os intervenientes, pela sua parte, deverão antever estas meias-finais, fazendo o devido raio X ao novo adversário.)
1.º confronto: Caminho Largo (a preto) vs. CINEdrio (a azul)
Decida o Vencedor Aqui
2.º confronto: Dial P for Popcorn (a preto) vs. Shut Up and Watch the Movies (a azul)
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